Mostrando postagens com marcador realidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador realidade. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Há vagas. Sobra lei, por Paulo Vanzetto Garcia*

A diferença entre o remédio e o veneno é a dose ministrada. É difícil encontrar a quantidade certa, atingir o ponto ideal. O mesmo acontece com o progresso humano, o que é bom numa época pode ser danoso mais adiante. Com as mudanças aceleradas nas relações trabalhistas, fruto das novas tecnologias, é difícil fazer distinções claras entre capital e trabalho, como até meados do século passado. As forças que pendiam mais para um lado hoje são quase equivalentes, pesando mais para um ou outro, conforme as circunstâncias. O patrão pode correr maiores riscos, mas ele é dependente do conhecimento de seus colaboradores e das mudanças aceleradas do mercado.

Como lidar com esta nova realidade, ou este carro rápido, veloz e cheio de bugigangas tecnológicas – se quisermos fazer uma imagem comparativa – com um caminho cheio de obstáculos legais? Nossa legislação, por motivos de formação democrática e com receio de recaídas autoritárias, talvez, tentou garantir-se contra retrocessos de uma maneira tal, que engessou as possibilidades de transformação, conforme a evolução democrática e da economia. A Constituição e as leis foram fortemente influenciadas pelos temores dos tempos de exceção, alterando artificialmente as correlações de forças, como se fosse possível, hoje, fazer um operário trabalhar sem o descanso devido, entre outros casos. As chamadas “conquistas sociais” do tempo do início da industrialização brasileira são defendidas de maneira revolucionária, como se tivessem sido baixadas após um movimento guerrilheiro. Discutir eficácia, no mundo atual, de algum destes dogmas senis, equivale a um ato tão lesivo quanto o de cortar a barba de Fidel, ou a uma afronta herege, punida com a excomunhão.

Por mais que os defensores ferrenhos da legislação ultrapassada se apeguem à imobilidade, os fatos terminarão se impondo, tornando-os minoria apenas barulhenta. Países desenvolvidos são desburocratizados, com regras simples e ágeis. Entraves e obstáculos são facilmente compreendidos e retirados, sem muitas discussões ideológicas. Na onda de desenvolvimento que os brasileiros estão experimentando, começamos a perceber as distorções que normas trabalhistas vetustas e obsoletas podem gerar.

A construção civil é um bom exemplo. Podemos dizer que enfrentamos, hoje, um bom problema, na falta de mão de obra. Nossas empresas estão buscando operários até fora do país. Carros de som percorrem as ruas da cidade tentando atrair interessados: trabalhadores, tragam suas carteiras de trabalho, nós queremos assiná-las. Entretanto, numa equação sombria e marginal, ao mesmo tempo em que buscamos pessoal para contratação formal, com todas as garantias, centenas de milhares de homens, todos os dias, saem de suas casas para executar funções informais, sem segurança alguma, sem nenhum custo adicional que não seja o pagamento direto ao trabalhador.

Em 2010, ainda carregamos uma CLT da década de 30, um avanço à época, quando o Brasil, recém saído da República Velha, ainda mantinha um perfil quase escravocrata. Uma legislação obsoleta e ultrapassada, que prejudica o bom trabalhador, nivelando todos por baixo. Nossa recente democracia ainda não permitiu continuidade de tempo para formar líderes que não carregassem os vícios nem os traumas da ditadura. Com isso, pretender modernizar uma pseudoconquista trabalhista é quase uma ofensa mortal, trata-se de uma afronta ideológica. Mas, ainda vai chegar o tempo em que o trabalhador vai mandar a ideologia às favas e adotará o pragmatismo das democracias perenes, se expressando melhor individualmente, ou através de sindicatos menos dependentes do paternalismo estatal. Ou seja, mais autênticos, refletindo a realidade.


*Engenheiro, presidente do Sinduscon-RS

Fonte: Jornal Zero Hora

sábado, 8 de maio de 2010

A metade do caminho, por J. R. Guzzo

 "Basta pensar durante cinco minutos sobre certas realidades paraconstatar o disparate que é considerar o Brasil atual um país bem-sucedido"

Está entre os maus hábitos permanentes do Brasil a ilusão de achar que é possível conviver, sem maiores prejuízos, com a combinação com a qual tem convivido até hoje – uma geleia geral que junta a incompetência da máquina pública na execução dos seus deveres, a indiferença de um eleitorado sem interesse, paciência ou informação para acompanhar o que os políticos fazem com o seu dinheiro e os vícios de um sistema político que está entre os piores do mundo. O sentimento da maioria é que não compensa esquentar a cabeça com esse vale de lágrimas, quando o dia a dia tem assuntos mais urgentes para o cidadão resolver. Mas o pouco-caso com a realidade, infelizmente, sempre cobra um preço alto. Não se trata de uma cobrança que vai ficar para o futuro, como frequentemente se imagina. O preço já está sendo pago há muito tempo, e tende a ficar cada vez mais alto. Basta ver tudo de que o Brasil de hoje precisa com urgência, e não tem – e tudo o que tem de sobra, e de que não precisa.
Há um bocado de esperança, diante dos avanços reais que o país tem feito, de que, com perseverança, paciência e uma atitude mental afirmativa, dá para ir tocando as coisas; um dia, lá na frente, o grosso dos problemas estará resolvido. Existem fatos de sobra para demonstrar que o Brasil, neste momento, está muito melhor do que já foi em qualquer outra época do passado. Está melhor em questões essenciais, não em aparências, e está melhor de verdade, não porque quem diz isso é a propaganda boçal dos governos – até porque boa parte desse progresso não foi feita pelas autoridades constituídas, mas apesar delas. O problema é outro. Podemos ter crescimento de 6% ao ano, reservas de 250 bilhões de dólares e mais uma promoção no rating das agências internacionais que avaliam nossa capacidade de pagar dívidas. Podemos entregar, como acaba de ocorrer, 25 milhões de declarações de renda à Receita Federal. Podemos nos firmar como a sétima ou a oitava maior economia do mundo. Podemos ter e ser mais uma porção de coisas, mas vamos continuar sendo um país subdesenvolvido enquanto se mantiver essa situação em que tão pouca gente, na população brasileira, tem acesso real a uma vida efetivamente melhor.
Basta pensar durante cinco minutos sobre certas realidades para constatar o disparate que é considerar o Brasil atual um país bem-sucedido, quando 50% da população, por exemplo, não é servida por rede de esgotos – e, principalmente, quando uma calamidade desse tamanho é tratada com a maior naturalidade do mundo pelos outros 50%, em especial os que têm a obrigação de resolver o problema. O assunto, na verdade, é visto como uma tremenda chatice. Nem poderia mesmo ser diferente, quando se verifica que ainda não apareceu, em toda a história política do Brasil, um único homem público bem-sucedido que tenha elegido como prioridade em sua carreira a luta por instalação e tratamento de esgotos. Só um débil mental seria capaz de agir assim; pela sabedoria política em vigor, obra que não se vê é obra que não existe. Estamos avançando, é claro. Em 510 anos já se conseguiu chegar à metade do caminho; um dia, se Deus quiser, todos estarão atendidos. Mas a única pergunta que interessa, nessa e em outras questões do mesmo tipo, é: quando? Para os quase 100 milhões de brasileiros que não têm esgoto, faz toda a diferença.
Não se trata de uma questão isolada. Recentemente, num artigo que es-creveu para VEJA, o professor Gustavo Ioschpe observou que só 25% da população brasileira alfabetizada está em condições de entender um texto como aquele. Não lidava, ali, com nenhum pon-to de trigonometria avançada; era apenas uma página de revista, escrita em português corrente e que deveria ser acessível a todos os que completaram os primeiros oito anos de escola. É uma excelente notícia para os políticos, a começar pelos que mandam no atual governo – vivem se gabando de que o "povão" não lê nada do que a imprensa escreve e, portanto, as críticas que recebem não têm efeito nenhum. Mas, para os 75% que não conseguem entender o artigo do professor Ioschpe, essa situação é um desastre. É para eles que estão reservados, no Brasil que cresce a 6% e tem "grau de investimento", os empregos com trabalho mais pesado, os piores salários e, em vez de carreiras profissionais, ocupações sem futuro algum – isso quando conseguem emprego, num mercado em que competem em desvantagem cada vez maior.
Dá para ir levando assim, é claro. Mas, como informa o artigo que tão poucos brasileiros conseguem ler, não existe nenhum país desenvolvido no mundo com o abismo social do Brasil. 

sexta-feira, 19 de março de 2010

P.A.S., por Carlos Eduardo Richinitti*


Sou da geração que nasceu e se criou sob a égide da inflação, aquela que corroía salários e fazia com que o dinheiro valesse menos a cada pôr do sol. Em determinado momento, cheguei a pensar que jamais teria a possibilidade de viver em um país civilizado, onde o preço das coisas fosse o mesmo por meses, quando não por anos. Pois bem, o Brasil, após abandonar planos inconsistentes e aventureiros, a partir de um planejamento bem estruturado, que não pretendia resultados imediatos, praticamente acabou com o mal da inflação.

Este é o exemplo que devemos seguir para enfrentar a violência e a insegurança descontrolada que imperam em nosso país. Chega de discursos ou ações imediatistas. Observe-se que no Brasil, a cada morte violenta que impacta a nação, a reação quase sempre é a mesma, se faz uma passeata e depois se propõe aumento de penas, para depois tudo acabar em esquecimento, até que uma nova vítima da barbárie nos lembre do horror de nosso tempo.

Não tenhamos dúvidas, estamos sob o jugo de um exército de zumbis, filhos da droga, da natalidade irresponsável e da impunidade, verdadeiros monstros, para os quais matar ou morrer não faz qualquer diferença.

Para enfrentar esse verdadeiro estado de guerra, mais do que PAC, o que necessitamos é de P.A.S. (Plano de Aceleração da Segurança), em que haja um planejamento estruturado e competente, que busque resultados não só imediatos. Entre tantas outras medidas, carecemos de uma polícia valorizada, eficiente, atuando com inteligência, de forma concatenada e ostensiva. Afastemos o sentimento de impunidade que impera no país, colocando-se atrás da grade os marginais de gravata que desviam milhões dos cofres públicos e com quem quase sempre nada acontece. Precisamos de um Judiciário forte, que tenha prisões dignas para colocar criminosos e não calabouços medievais, verdadeiras fábricas de monstros, mas também que esteja atento à realidade das ruas, de forma que garantismo seja sinônimo de garantia de punição justa e não do interesse individual se sobrepondo ao de toda uma coletividade.

Vencemos a inflação e podemos acabar com a insegurança que aí está, basta que façamos o mesmo que acabou com aquele mal, estruturando, priorizando e executando um plano consistente, afastando-se soluções midiáticas e imediatistas que a nada levam. Isto é prioridade, até porque de nada adianta ter estabilidade econômica e poder de compra se cada vez for menor a probabilidade de se sair de casa pela manhã e voltar com vida à noite.


*Juiz de Direito

Fonte: Jornal Zero Hora
imagem em: resgatedahonra.blogspot.com

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Vem aí outro pastelão, por Percival Puggina*




“Quem luta pelo comunismo tem que poder lutar e não lutar, dizer a verdade e não dizer a verdade, manter a palavra e não cumprir a palavra etc.” (Berthold Brecht, comunista, em Die Massnahme).

Quando foi, então, que eles começaram a ter algum interesse na verdade? Essa súbita inquietude d’alma, expressa no desejo de criar a tal Comissão Nacional da Verdade, disputa prêmio no Festival da Mentira. Logo quem! Empilharam no planeta milhões de cadáveres, tanto para ocultar a verdade quanto porque as vítimas descriam das suas mentiras. Onde tomaram o poder acabaram com a imprensa livre, exatamente para que nenhuma verdade chegasse ao povo. Montaram o mais poderoso aparelho de mistificação que o mundo já viu. Conhecida por uma abreviatura que diz tudo, Agit- prop, essa máquina, cujas atividades iam desde a produção de livros infantis até o financiamento de autores e jornalistas no mundo inteiro, conseguiu convencer metade do planeta que o inferno soviético era, “na verdade”, um paraíso terrestre. Preocupados com a verdade?

No Brasil, todas as organizações que atuaram na clandestinidade, antes e depois de 1964, seguiam variantes do mesmo totalitarismo. Compunham uma miscelânea de alas, correntes, frentes, ações, dissidências, vertentes, grupos, tendências, núcleos, coletivos, ligas, uniões e partidos. Só estes últimos eram 14! Tais organizações, coisa de duas centenas, repartiam entre si, orgulhosamente, os rótulos de comunista, revolucionário, socialista, bolchevique, maoísta, marxista, leninista, trotskista e por aí vai. Democracia? Nem pensar. Lutando por algo infinitamente pior do que o regime que diziam combater, praticaram crimes tão graves quanto os de que reclamam. Crimes que não geraram indenizações e sequer são mencionados nesse súbito interesse por “direitos humanos” e pela “verdade” a respeito de um tempo em que eram tão rejeitados que desconfiavam da própria sombra. A falta de apoio popular, aliás, constituía o autodiagnóstico mais frequente em suas reflexões.

Você acredita que a insistência em escrutinar aquele específico período da história reflita sincera paixão pela verdade? Se sim, por que pretendiam restringir os trabalhos apenas ao “contexto da repressão política”? Se sim, por que propõem meios de controlar a imprensa e a cultura no mesmo PNDH-3 que cria a tal comissão da “verdade”? Pois é. Verdade histórica? Direitos humanos? Qual o quê! É o velho Agitprop de terno Armani, aferrado a estatais e fundos de pensão. Parece que ainda não mentiram o bastante nas salas de aula, nos microfones, nos filmes e nos livros! Contudo, a imensa maioria dos sessentões brasileiros não deu e não dá força aos seus protagonistas. Por quê? Porque viveram à época desses fatos que alguns, agora, querem recontar com ares de super-heróis. Que pretendem, então? Conquistar adeptos entre os jovens, massa votante que hoje realmente conta no país, ora essa. E quanto mais ela for manipulada, quanto mais matérias gerarem, mais beneficiados serão os atuais comissários da História, posando como mártires da democracia. Mesmo que tudo seja falso. Prepare-se. Depois de O filho do Brasil, vem aí Os filhos da clandestinidade. Tão pastelão quanto o anterior. A real motivação de tudo está no mercado político. Na venda de ações de empresa falida. Na captura de corações e mentes. Na tentativa de cobrar no presente por méritos que não tiveram no passado. Perdoem-me aqueles, como eu, sinceramente interessados na verdade e com medular repugnância à tortura e ao terrorismo. Nós somos, neste caso, irrelevantes.

* Escritor

Fonte: Jornal Zero Hora

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O mundo pelo avesso, por Luciano Corrêa Iochins *



Às vésperas de chegarmos ao ano 2010, penso ser necessário fazermos algumas reflexões acerca dos acontecimentos que nos rodeiam.

Foram inúmeros os avanços tecnológicos nos últimos anos. Vivemos, atualmente, a era da informação, e do conhecimento. Com a criação da internet, os processos de comunicação ao redor do mundo tornaram-se instantâneos, o acesso às notícias foi facilitado e a busca por informação foi simplificada através dos “sites” de pesquisa.

Por outro lado, os jovens passaram a ler menos e deixaram o estudo em segundo plano. Os livros foram substituídos pelo Orkut, os cadernos de aula cederam espaço para o msn. E, como se não bastasse, ainda inventaram o tal do Twitter. Um “bombardeio” de criações que tornaram os adolescentes reféns da cultura inútil.

Leio nos jornais sobre os prédios imensos em Dubai; a construção da ponte mais longa do mundo pelos chineses; o encontro dos chefes de Estado, em Copenhague, para discutir a situação do clima no planeta; a escolha do Brasil para sediar os Jogos Olímpicos, em 2016, e a Copa do Mundo, em 2014; e, ao mesmo tempo, me questiono: que relevância tem isso se a mente humana não evolui?

Sinceramente, parece que o ser humano não faz questão de usar o seu cérebro para praticar o bem. Como explicar, por exemplo, a covardia dos acusados de introduzir, recentemente, cerca de 50 agulhas no corpo de uma criança, na Bahia? Como entender um bando de torcedores, nitidamente exaltados pelo fanatismo, que invade um campo de futebol para agredir os árbitros e os jogadores? E as torcidas que brigam entre si? Como compreender a demência de alguém que dispara um soco no rosto de uma autoridade? Como aceitar tanta selvageria em plena iminência do ano 2010? É muito complicado suportar a maldade dos indivíduos.

O que houve com o homem? Não há mais amor ao próximo, ninguém mais tem apreço pelos outros. Onde estão os valores? E a ética? Chega de violência! Adeus, radicalismos! Não podemos mais achar normal o aluno que bate no professor! Basta! Não devemos mais permitir brutalidades.

Quiçá possamos acreditar na vinda de um momento mais alegre para a população. Certamente, no ano que vem, não mudaremos o mundo; não obstante, se todos nós tentarmos ser pessoas melhores, já é o suficiente.

É preciso, sim, que continuemos os protestos, as reivindicações, as vaias, as indignações e a luta pelos nossos direitos. Contanto que não deixemos de lado duas palavras que estão em extinção no vocabulário do povo: respeito e limite! Feliz Ano-Novo!

* Jornalista e professor de língua inglesa e língua espanhola

Fonte: Jornal Zero Hora

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Viver para o consumo - Especialmente para os alunos da 2ª série do Ensino Médio



Obra do francês Jean Baudrillard, morto em 2007, critica o imperativo contemporâneo do consumir e das imagens que substituem a realidade. Obra do francês Jean Baudrillard, morto em 2007, critica o imperativo contemporâneo do consumir e das imagens que substituem a realidade.



POR MARCELO GALLI*


No dia 6 de março de 2007 morria aos 77 anos em Paris o filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard. Como ele, apesar de mais de uma dezena de livros e artigos e palestras em universidades no mundo todo terem feito o seu pensamento circular, tanto que até virou mote para um filme de Hollywood (Matrix), um olhar irônico sobre a sociedade e a força da crítica na formulação do pensamento filosófico se foram.
Contestador da afluente sociedade do consumo e dos objetos que fazem parte do seu universo exposto nas vitrines das lojas de departamento e shoppings centers das grandes cidades, Baudrillard também aponta sua pena para o mundo dos meios de comunicação de massa alimentado por imagens que não cessam de entrar e habitar o imaginário do homem nos tempos atuais.
Na visão da mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ondina Pena Pereira, a importância do pensamento de Jean Baudrillard é inestimável para aqueles que se recusam a embarcar de olhos vendados nas narrativas sedutoras da sociedade contemporânea.
"Somos (na obra dele) convidados a participar de um ponto de vista que torna irrisórios os argumentos em defesa da contemporaneidade: um mundo pragmático onde, sob o império da lógica econômica, da produção e da hegemonia dos códigos, cria-se um sistema capaz de neutralizar e tornar inútil toda a atividade crítica, inclusive a atividade crítica teórica", acrescenta.

OS PRIMEIROS PASSOS

Formado pela Sorbonne em língua alemã, ele lecionou a disciplina em diferentes escolas secundárias na França até 1966, além de traduzir para o francês, durante o período, textos de dramaturgos germânicos como Bertold Brecht e Peter Weiss. Em 1968, sob orientação do filósofo Henri Lefebvre, ele conclui a sua tese de mestrado "O sistema dos objetos", na qual problematiza o lugar que mesas, televisões, carros e bolsas, por exemplo, ocupam o cotidiano das pessoas.
Questiona Baudrillard no primeiro parágrafo da introdução do trabalho: "Poderemos classificar o luxuriante aumento do número de objetos como o fazemos com a fauna e flora, completo com espécies glaciais e tropicais, mutações inesperadas, e variações ameaçadas de extinção?" A resposta para a pergunta é sim, e o filósofo vai além. Para ele, quando alguém compra uma bolsa Louis Vuitton ou um tênis Adidas ou ainda uma televisão LG 48 polegadas com tela plana e um aparelho de DVD Blue Ray de última geração ou um aparente exclusivamente meio de locomoção (carro), na verdade leva para a casa ou deixa na garagem um símbolo. Isto é, expressa um estilo de vida, um modo de enxergar o mundo e diferenciar e distinguir e se afirmar uma pessoa da outra ou grupos de outras formações sociais, calibrando positivamente ou negativamente as escolhas.
Já parou para pensar o que representa um carro, além de te levar da casa ao trabalho ou para uma viagem pelo litoral? É o simbolismo do individualismo e espírito de liberdade defendidos pela modernidade, bem como um objeto que seduz, dá prazer, concede status, poder e desperta a ambição dos indivíduos. Tanto que o escritor italiano Luigi Pirandello (1867-1936) chegou a dizer que o fruto da engenhosidade da raça humana é na verdade criação do diabo. "Utilizando a sedução irresistível, o egoísmo e a ambição por status dos seres humanos, alcança o objetivo diabólico de gerar o caos nas cidades, o congestionamento das vias, a impossibilidade de estacionar, tudo seguido da paralisação da vida urbana", lembra o urbanista paulista Jorge Wilheim, em artigo na Folha de S. Paulo de 28 de julho deste ano, para comentar a situação do trânsito na maior cidade do Brasil.
Na visão do filósofo francês, o carro é onde é possível discernir com mais facilidade o conluio entre o nosso sistema subjetivo de necessidades e o sistema objetivo da produção. "O carro revela o objeto (...) a apresentação abstrata de qualquer finalidade no sentido de velocidade e prestígio, conotação formal, técnica conotação, diferenciação, catexia emocional, e projeção de fantasia", escreve. O homem se incorporando a uma máquina, o mito grego do Centauro atualizado e revisado.

SOCIEDADE

Durante algum tempo, Baudrillard se estabelece como docente da Universidade de Nanterre, local de onde emergiu importante movimento de contestação juvenil que desembocou no agitado Maio de 68 na França e no mundo, lecionando um curso sobre a disciplina. Permanece na instituição até 1986, quando se transfere para o Instituto de Pesquisa e da Informação Sócio-Econômica (IRIS), da Universidade de Paris-IX Dauphine.
Na sua obra seguinte, "Sociedade do Consumo: Mitos e Estruturas" , de 1970, o francês mergulha ainda mais fundo na dinâmica dos objetos no mundo contemporâneo e relaciona aqueles ao universo das compras: "É preciso deixar claro desde o início que o consumo é uma forma ativa de se relacionar (não só com objetos, bem como com a sociedade e o mundo), uma forma de atividade sistemática e resposta geral que sustenta nosso sistema cultural como um todo", revela. Ele vai mostrar na obra de que maneira as grandes empresas vão forjar irrepreensíveis desejos, criando novas hierarquias que substituem as tradicionais diferenças de classes. O ato de comprar, de ter coisas, transforma-se dessa maneira em um novo mito tribal, a moral dos tempos modernos, acrescenta.
Para ficar ainda no campo automotivo, o que Baudrillard quer dizer é o cerne da crônica descontraída dos cariocas irmãos Valle no disco "Mustang Cor de sangue, Corcel cor de mel", do final da década de 1960, quando o Brasil começa a entrar para valer na era do consumismo e da sociedade de massa: "a questão social, industrial, não quer que eu ande a pé, na vitrine um Mustang cor de sangue."
Dessa maneira, a informação é também uma mercadoria, ou ainda artífice de tendências de consumo ou "criadora" de modas. Os meios de comunicação também alimentam, assim, o sistema capitalista na sua essência mais profunda, isto é, de criar cada vez mais necessidades, para se elaborarem mais soluções e produtos, perpetuando a dinâmica dos meios de produção e fazendo o capital circular. E a indústria fonográfica, do cinema, em suma, do entretenimento, também fazem parte dessa máquina. Como escreveu Karl Marx no seu ensaio "Manuscritos econômico filosóficos", de 1884 - também conhecido como "Manuscritos de Paris", cidade na qual residia na época o filósofo alemão - no interior da propriedade privada: "Cada homem especula sobre como criar no outro uma nova carência, a fim de forçá-lo a um novo sacrifício, colocá-lo em nova sujeição e induzi-lo a um novo modo de fruição e, por isso, de ruína econômica."

MÍDIA

Sendo os meios de comunicação um dos pilares do sistema vigente, no caso o capitalismo, é de se esperar a difusão das suas ideias por meio dos seus veículos. E até o tempo livre e de lazer é travestido em momento de consumo. É a culpa de nada fazer versus o imperativo do consumo; e também tempo de não pensar e fugir do dia a dia.
Baudrillard também era fotógrafo. E, ironicamente, foi um ferrenho crítico da proliferação de imagens no mundo contemporâneo e sua influência no cotidiano dos sujeitos e de que maneira estes enxergam o mundo e a realidade, e desenvolveu a teoria sobre a simulação e simulacro em livro homônimo de 1981. Para ele, o fenômeno faz com que seja criada uma espécie de "hiper-realidade", que não é nem o objeto retratado nem tampouco a sua reprodução. "Atravessando um espaço cuja curvatura não é mais aquela do real, nem da verdade, a era da simulação é inaugurada pela liquidação de todos os referenciais", analisa.
Sendo o funcionamento da sociedade apoiada em um sistema desse tipo, a dominação torna-se mais fácil, mas que por sua vez opera por uma complexa lógica e que esconde tal condição, não distinguindo dominados e dominantes. Ondina explica que o que faz a distinção entre a dominação e a hegemonia é a falência da realidade: "A globalização, que na verdade nada mais é do que a hegemonia de uma potência mundial, só pode ocorrer nesse contexto do virtual e das redes", diz. Isso ocorre porque ela precisa simular uma homogeneidade, uma igualdade entre as culturas e entre os povos. "A simulação só acontece porque os signos estão esvaziados de sua substância", acrescenta.


A potência mundial em questão são os Estados Unidos, que a partir da queda do muro de Berlim, em 1989, e o fim do bloco soviético, afirmaram-se mundialmente como nação global e hegemônica. Na obra em questão, o filósofo diz que a Disneylândia é um modelo perfeito de todos os elementos do emaranhamento de uma obra de simulacro, com todos os seus "fantasmas e ilusões", como piratas e o mundo futurista, atraindo multidões porque representa ou emula um microcosmo social, uma miniatura dos prazeres da "América real", do idealizado modo de vida e pensar do estadunidense, com suas alegrias e repressões. E ao mesmo tempo o parque temático criado por Walt Disney e seus personagens, apesar de sustentarem uma ideologia, esconde a verdadeira América, com seus paradoxos e imperfeições.

PENSAMENTO INTENSO

Foi no começo dos anos 1990, momento em que o francês começa a escrever regularmente para importantes publicações da imprensa, principalmente francesas e anglosaxãs, que sua fama transpõe a fronteira acadêmica e ele se transforma em celebridade intelectual. Uma série de textos publicados no "Libération" e "The Guardian" entre janeiro e março de 1991, sobre a Guerra do Golfo, em que ele chega a negar a existência do conflito, contribuíram para que ele ganhasse ainda mais publicidade.


A guerra que se deu no Golfo Pérsico, porque o Iraque não acatou a resolução do Conselho de Segurança da Organizações das Nações Unidas (ONU) que exigia a retirada das tropas de Bagdad do Kwait, sendo invadido pelos Estados Unidos (com a ajuda de Reino Unido e outros países) logo em seguida, foi, para Baudrillard, ao menos se comparada com conflitos anteriores até então, não convencional, porque na verdade não foi travada homem a homem, mas sim, por parte dos ocidentais, através da tela do computador ou da televisão.
O conflito pela primeira vez na história recebeu cobertura televisiva 24 horas por dia e sete dias por semana pela CNN, que levava todos os dias aos lares cenas que remetiam a jogos de videogame e filmes de Hollywood, de alvo à distância sendo atingidos pelos armamentos ultramodernos, os chamados "ataques cirúrgicos" estadunidenses e britânicos. Nem um soldado morto no chão de batalha, ao menos do lado ocidental, o que, pelo efeito das imagens geradas, fez com que um evento sangrento e que matou milhares de iraquianos fosse considerado por alguns como "guerra limpa".
Um de seus últimos grandes debates foi originado mais tarde, quando dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, o filósofo provoca polêmica mais uma vez. Ele subverte a lógica de que o ataque às torres gêmeas em Nova Iorque tenha sido uma ação de resistência vinda de fora do mundo ocidental, no caso do Islã, como resposta aos desmandos das grandes potências contra países e povos cujo Deus é chamado de Allah e têm Maomé como profeta. Para ele, o incidente foi criado pelo próprio Estados Unidos, por esse motivo vai considerar que na verdade na manhã do dia célebre houve "o suicídio das torres gêmeas".


*Marcelo Galli é jornalista


-----------------------------------------------------------------
 
Olhos vendados

Para Ondina, o que Baudrillard fez, tendo em vista os efeitos gerados pelo universo virtual, não foi criticar, mas sim prever o que poderia acontecer quando do seu uso fosse massivo. Para o filósofo francês, sempre era possível reverter tais efeitos ao usar o instrumento de outra forma, politizando-o para realizar por meio dele um contraefeito ou um contraobjetivo.

"Sociedade do Consumo: Mitos e Estruturas"

"O corpo ajuda a vender. A beleza ajuda a vender. O erotismo promove igualmente o mercado. E não é este o menor dos motivos que, em última instância, orientam todo o processo histórico de 'libertação do corpo'. Com o corpo acontece a mesma coisa que com a força de trabalho. Importa que seja 'libertado e emancipado' de modo a ser racionalmente explorado para fins produtivistas. Assim como é necessário que atuem a livre determinação e o interesse pessoal - princípios formais da liberdade individual do trabalhador - para que a força de trabalho possa mudar-se em procura salarial e valor de troca, também é preciso que o indivíduo consiga redescobrir o próprio corpo..."

Meios de comunicação

Baudrillard criticava a mídia de massa e a realidade virtual criada no universo da internet. Porém, pode-se dizer que o veículo também criou novos mecanismos para os sujeitos se expressarem (muitas vezes criticamente), como ocorreu recentemente no caso das eleições do Irã, em que o site de microblogging serviu de arauto para descontentes de um pleito que reelegeu Mahmoud Ahmadinejad.

Resistência

No ano seguinte ao atentado, quando o terrorismo torna-se pauta principal da política interna e externa dos Estados Unidos, ele lança o ensaio "O Espírito do Terrorismo", em que analisa a reação aos ataques, que chegou a ser comemorado por ser uma resposta justa para anos de prepotência ianque, e defende que manifestações do tipo poderiam esconder um desejo coletivo pelo que aconteceu.

Fonte: Revista de Filosofia
Publiquei no blog Suciologicus

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Ditadura do que mesmo?, por Sérgio Peixoto Mendes*



A expressão “ditadura do proletariado” foi utilizada pela primeira vez por Marx em 1870 quando este precisou definir a fase intermediária entre a destruição completa do Estado burguês e o surgimento de uma sociedade sem classes. Abolir a burocracia, a polícia e o exército permanente, mesmo que para isso fosse necessário o uso da violência armada, fazia parte do plano de eliminar a máquina opressora do Estado, uma vez que este último era visto como um instrumento de opressão de uma classe por parte da outra. Então, tinha-se de um lado o burguês no poder e do outro lado o proletariado como classe oprimida. A revolução prometia a inversão dos papéis e o que mais mesmo?

Portanto, ditadura, na sua concepção original marxista, nunca foi um regime político, mas, sim, um símbolo claro e evidente de uma fase em que o uso da força é que dá tom e o resto dança conforme a música. Ditadura é luta.

Depois desse período, o mundo já deu muitas voltas, a ditadura voltou a ter novos momentos no auge, por exemplo, com os militares no Brasil, que também passaram. O império americano impôs a sua, disfarçada de liberalismo democrático, foi um longo período de dominação econômica, mas acabaram explodindo como bolhas de sabão. Os xeiques do petróleo tentaram anuviar o mundo, mas também falharam e se perderam na fumaça negra das refinarias fora de uma vertente sustentável. A moda dita a magreza dura. Também vai passar. São todos períodos de luta, algumas armadas, outras ideológicas, mas lutas.

Hoje, o magro oprime pacificamente o gordo, o virtual oprime o real, e o mundo gira numa velocidade espantosa para “alimentar” o desenvolvimento econômico. As favelas invadem as cidades e o campo se automatiza. A soja é transgênica e as frutas dobraram seu tamanho. Até o vinho já é orgânico e o crack virou tóxico. Nos estádios, não se pode beber e no reservado não se pode fumar. Tudo vai para o ar, livre.

O bandido tem mais direitos do que o cidadão. E os cargos políticos viraram proteção. O Executivo legisla e o Legislativo fisga o seu quinhão. A dita linha dura vira a casaca pelo avesso e o verde há tempo deixou de ser oliva. Tempos modernos estes, apesar de alguns manifestos comunistas.


*Filósofo

Fonte: Jornal Zero Hora - 12 de outubro de 2009 - N° 16122

Imagem: Aqui

quinta-feira, 25 de junho de 2009

"Eu não sabia de nada...". "Que país é esse?"

Afinal de contas, que país é esse?
"Não sei de nada..."
...e fica por isso mesmo.

Que País é Este

Legião Urbana

Composição: Renato Russo

Nas favelas, no senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
No Amazonas, no Araguaia iá, iá,
Na Baixada Fluminense
Mato Grosso, nas Gerais e no
Nordeste tudo em paz
Na morte o meu descanso, mas o
Sangue anda solto
Manchando os papéis e documentos fiéis
Ao descanso do patrão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Terceiro mundo, se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?


Não deixe de ver o vídeo.

Fonte: Jornal Zero Hora - Nº16011 - 25 de Junho de 2009.
http://www.youtube.com/watch?v=mcrCUkI88VQ

quinta-feira, 11 de junho de 2009

O Vaivém dos Helicópteros

Por Maria Lucia Barbosa

A tragédia do voo 447 da Air France continua a repercutir de forma incessante. Dia e noite as TVs se revezam no afã de apresentar o que até agora é inexplicável. Não existem explicações para a causa da queda do avião, uma espécie de Titanic voador mais que perfeito. Não há ainda identificação dos corpos achados. Não foi localizada a caixa preta e é difícil que o seja.

Apenas permanece o horror das vidas ceifadas na celeridade de poucos minutos. Soam advertências de como carreiras promissoras, promessas de felicidade, sonhos são sepultados inexoravelmente no túmulo imenso e frio do oceano. A tragédia coletiva relembra de como somos frágeis e impotentes diante da morte.

O terrível acidente, entretanto, é mais do que luto e dor. Serve ao propósito de acobertar fatos inconvenientes para o governo, distrai atenções, alimenta conversas. Não se fala mais da gripe suína. Desapareceram como por encanto dos noticiários as enchentes do nordeste com suas vítimas anônimas. Não se toca na tragédia pessoal dos que morrem cruelmente sem atendimento em corredores de hospitais inadequados.

Omite-se o aumento da violência urbana, a ser incrementada especialmente no Rio Grande do Sul porque juízes decretaram que bandido nenhum vai preso porque faltam prisões. Ninguém sabe como anda o caso Cesare Battisti, o terrorista e assassino italiano que o Brasil teima em proteger.

Assuntos, escândalos, espantos aparecem, somem e se perdem rapidamente na memória coletiva, que de resto retém muito pouco do que é noticiado. Desse modo, é de duvidar que ainda se pergunte: Existe mesmo um membro da alta hierarquia do Al-Qaeda vivendo em São Paulo? É verdade que a China tomou nosso comércio com a Argentina, apesar dos negócios da China que Lula da Silva foi fazer com pompas e honras naquelas terras distantes onde autoridades estão se lixando para direitos humanos?

Aquele deputado castelão sofreu alguma punição ou foi mais um a se safar entre mensaleiros, sanguessugas, falcatruas num Congresso onde Renan Calheiros é exemplo a ser seguido, e o senador Sarney não sabe se recebe auxílio moradia sem disto necessitar? E sobre a CPI da Petrobrás, que inspira terror pânico aos companheiros presidenciais, vai ser de novo adiada por manobras governamentais? Vai acabar em nada como todas as outras? Para trás, sem abrir, vão ficando as caixas pretas da política nacional.

Além do terrível acidente do Airbus da Air France prevalece no momento outro assunto que entretém a massa: a Copa de 2014. Já se nota que serão cinco longos anos de massacrante e tediosa propaganda. Pão e circo funcionavam na Roma Antiga.

No Brasil Futebol e cerveja bastam para a felicidade geral. Diga-se de passagem, que parecemos um país de bêbados, pois em quase todos os acidentes de trânsito se diz que o chofer estava bêbado, como no caso do deputado estadual paranaense, Fernando Ribas Carli Filho que, bêbado, matou dois rapazes e, certamente, ficará impune.

Contrastando com a overdose sobre o acidente aéreo a indiferença do presidente da República. Bem diferente na França onde o presidente Sarkozy, pessoalmente, prestou solidariedade às famílias das vítimas. Lula da Silva estava viajando para variar quando ocorreu a tragédia, mas mesmo em sua volta preferiu enviar seu dedicado chanceler Celso Amorim para prestar condolências em missa celebrada em memória dos que se foram. Tampouco Marco Aurélio Garcia, o mentor de nossa desastrada política externa, se pronunciou. Ainda bem, pois poderia fazer gestos obscenos.

Destacou-se no sinistro episódio o ministro da Defesa, Nelson Jobim, nosso “general da banda” que, fissurado por fardas as enverga sem a menor cerimônia. Idiólatra por natureza, falastrão por excelência, o ministro deixou correr a imaginação e pontificou para o mundo sacudindo uma vareta professoral.

Diferente de suas inspeções em navios, quando deu aulas sobre o que não entende, a fala teve repercussão em outros países, mas não como desejava o ministro, pois foi tachado de “bavard”. Mais um vexame para nosso bestialógico internacional já bem recheado com os discursos presidenciais.

Na TV, entre helicópteros trazendo restos das vítimas, eis que surge o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Em mais um malabarismo verbal ele saudou a queda do PIB no primeiro trimestre, dizendo que foi menor do que esperava. Aproveitou e renovou a promessa de que no próximo trimestre tudo será melhor.

O ministro que afirmou que o Brasil cresceria 5% em 2009, não se peja em cair constantemente em contradição. Afinal, quem vai se lembrar do que ele disse? Vale a palavra do presidente: é marolinha e ponto final.

Com Dilma ou Lula em terceiro mandato o PT pretende continuar no poder. Seus marqueteiros sabem que fatos são apenas versões, que mitos podem ser construídos com pinceladas de grossas mentiras. O PT se superou na arte da manipulação e compreendeu que opinião pública não existe. Portanto, para que respeito às vítimas do voo 447 e aos seus familiares? Basta mostrar o vaivém sinistro dos helicópteros e os futuros e virtuais estádios da Copa 2014.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.


Leia também: Edição de Artigos de Quinta-feira do www.alertatotal.net

Fonte: Blog Alerta Total - Data 11/06/2009

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A gente se acostuma. Eis a questão!


A GENTE SE ACOSTUMA

Marina Colassanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma e não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.

A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O poder transforma o ser humano


Pergunto:
Por que cada "ser humano" quer levar vantagem em tudo?
Acaba indo contra os seus princípios, só para levar vantagem.
Por que somos tão gananciosos ?
Na política, todos falam que quando "chegarem lá" , não serão iguais aos que estão no poder.
Na prática o poder sobe a cabeça.
O que tem por trás do poder?
Esse poder que transforma cordeirinho em lobo mau.
Para ter uma noção de como o poder transforma, assista o filme alemão: "A Experiência"

Título: A EXPERIÊNCIA (Das Experiment / The Experiment - Alemanha - 2001).
Duração: 124 min.
Direção: Oliver Hirschbiegel
Roteiro: Don Bohlinger, Christoph Darnstadt e Mario Giordano


É interessante como o ser humano muda seu jeito de pensar e agir conforme a sua colocação na sociedade também é mudada, uma boa mostra disso está no filme alemão "A Experiência" (2001) do diretor Oliver Hirschbiegel, onde um grupo de 20 presidiários é recrutado para uma experiência psicológica, onde todos serão divididos entre guardas e presos numa penitenciária.

Baseado em uma história real, chamada "Experiência da Prisão de Stanford", é visto como o comportamento dos presos é modificado após mesmo sendo uma experiência alguns deles assumem o cargo de guardas e outros continuam como presos, amizades a parte, o poder sobe a cabeça e os detentos (guardas) cometem o mesmo "erro" que achavam que sofriam. Este filme foi o representante alemão do Oscar 2002 de melhor filme estrangeiro.

Fonte: Charge - Jornal Zero Hora - Nº 15994 - 08 de Junho de 2009 -
iotti@zerohora.com.br
http://blogs.abril.com.br/asetimaarte/2009/02/filme-semana-experiencia.html

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Migalhas...


Esmola, migalhas são a realidade... não é necessário esperar 2014.
2014???? O que será???

Fonte: http://jboscocartuns.blogspot.com/

segunda-feira, 1 de junho de 2009

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O Analfabeto Político


Bertolt Brecht

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

domingo, 17 de maio de 2009

Não esmoreça...

"Trabalhe duro! Milhões de pessoas que


vivem do Fome-Zero e do Bolsa-Família,


sem trabalhar, dependem de você."


(Frase em para-choque de caminhão)


sexta-feira, 8 de maio de 2009

Império do medo, por Aloyzio Achutti*

O susto, a surpresa, a insegurança e o medo atrapalham qualquer um, dificultando as reações de defesa e a tomada de decisões racionais e as mais adequadas. Quando incidem sobre uma multidão, ou atingem a população, seus efeitos se potencializam e podem assumir proporções catastróficas.

A julgar pelas manchetes, parece que se está vivendo no império do medo: gripe suína, febre amarela, dengue, crise financeira, quebra da bolsa, sequestro da poupança, desemprego, despejos, falência das instituições, chantagem, propaganda enganosa, cascata de corrupção, difamação, ruína da família, descrédito na Justiça, deportações, atentados, terrorismo, pânico, homens-bomba, sequestro relâmpago, rapto, estupro, assaltos, invasões, arrastão, assassinatos, bala perdida, genocídio, guerra, armas de destruição em massa, bomba atômica, aquecimento global, poluição ambiental, espécies em extinção, agrotóxicos, inundações, seca, raios, tornados, ciclones, queda de meteorito, desmatamento, desertificação, contaminação dos mananciais, racionamento de energia e de água, fome, obesidade, câncer, infarto do miocárdio, aids, tuberculose, hepatite, Alzheimer, loucura, morte súbita, acidentes de trânsito, tráfico de drogas, e outras tantas barbaridades...

Tem para todos os gostos e sensibilidades, e contemplando globalmente é um terror.

O medo deveria ser um mecanismo de proteção, mas exagerado estraga com a vida e pode provocar respostas piores do que o mal que o gerou. Terá valido a pena todo o aparato contra o terrorismo internacional?

Se não for o império, é ao menos a cultura do medo que se observa. É possível que o volume de informação circulante e o nível progressivo de estímulo a todos os sentidos tenham propiciado este fenômeno.

Existe uma tese que tenta explicar a necessidade crescente de se expor a situações de risco (que causam medo e liberam “adrenalina”) como uma reação inconsciente contra a depressão difusamente presente em todo a sociedade, consequente ao aumento populacional e às frustrações pelo homem mesmo fabricadas. Nossos mecanismos de reação ao perigo (que causa medo) se acompanham de concentração da atenção e certa euforia e disponibilidade transitória de mais força para facilitar a superação. Estes mecanismos fisiológicos podem ser comparados ao efeito da nicotina e o de outras drogas sobre o organismo. Isto tem a ver não somente com a disseminação do uso de substâncias psicoativas como também com a busca de situações apavorantes reais ou imaginárias. Até a prevalência maior de hipertensão em populações urbanas poderia ter aí uma de suas explicações.

Certamente, há também os que se aproveitam da situação para tirar ganhos econômicos, exercício de dominação/dependência, discriminação e xenofobia. A cultura do medo oportuniza manipulação social e gera progressiva insensibilidade, que pode desmoralizar os sinais de alarme e retardar a resposta quando ela realmente se fizer necessária.

Pode-se ter esperança em ganhos secundários: alguns simples como hábitos de higiene e de civilidade (lavar as mãos e evitar o contágio pela tosse e pelo espirro sem proteção). Quem sabe, também, se ficar evidente que quase tudo que causa medo não acontece por acaso ou por obra de demônios, mas sim do próprio homem, invista-se mais em educação e na cultura da racionalidade e do diálogo, já que violência somente leva à destruição e à infelicidade.

*Médico

Fonte: Jornal Zero Hora,
08 de maio de 2009 - N° 15963

terça-feira, 21 de abril de 2009

Custa quanto? Os olhos da cara...


Um cartaz publicitário [...] estampa apenas a imagem de um par de olhos em que dois cifrões tomaram o lugar das pupilas.

Quer dizer: o único objeto visível para esses olhos é o valor, porque os próprios olhos transformaram-se em valor; olhar só pode ser, então, avaliar e valorizar.

No capitalismo, olhar é calcular o que se vê, operação que não tem sentido senão o de adicionar novas quantidades abstratas a outras quantidades abstratas.

A seu modo, o cartaz publicitário é, portanto, extremamente realista, pois mostra a realidade do capitalismo – um processo em que a visão vê o que deve ser visto: a destruição de todos os códigos, de todos os territórios, de todos os sentidos, e a realização do valor.

Laymert Garcia dos Santos - Cientista Social e Professor da Unicamp

Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=1290

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Ser humano: mero transformador de recursos

por Hugo Penteado

“O ser humano acha que ele é capaz de produzir alguma coisa. Infelizmente, a má notícia que eu tenho para dar é que o ser humano não produz nada. O ser humano não produz nem matéria, não produz energia. Ele é um mero transformador dos recursos. E isso significa que tudo que está em nossa volta, sem exceção, veio da natureza, inclusive o sistema econômico. Então não dá para escapar disso. As duas coisas estão extremamente interligadas e interdependentes. E a outra má notícia é que o sistema econômico não é a ponta forte. É a ponta fraca porque o meio ambiente oferece serviços que nós não somos capazes de produzir e que estão sendo abalados por causa da nossa atuação precária e descuidada em relação ao ecossistema. Basta lembrar dois fenômenos globais: o maior processo de extinção da vida nos últimos 65 milhões de anos, causada pela destruição do ecossistema, e o aquecimento global. Lembrando que esses não são os nossos únicos problemas. Tudo isso está ocorrendo porque a gente criou a economia do descarte, nós vivemos o mito do jogar fora. A gente acha que consegue jogar fora alguma coisa, mas o planeta é um sistema fechado. Nada pode ser jogado fora. Nós transformamos o planeta numa enorme lixeira conosco dentro”. “[...] esse planeta passou milhares de anos acumulando materiais embaixo da terra. A nossa vida aqui só foi possível por causa do acúmulo desse material. Hoje, estamos fazendo um processo reverso, atirando na superfície da terra uma série de materiais (mercúrio, dióxido de carbono, ouro) com os quais o seu processo geológico de bilhões de anos não sabe como lidar. O sistema planetário é finito, regenerativo e circular. O sistema econômico é infinito, degenerativo e linear: extrai, produz, descarta”.


http://www.nuep.org.br/jor001.php?jor=218
Blog Widget by LinkWithin