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sábado, 9 de julho de 2011

O jovem não é indiferente - Entrevista Jornal Mundo Jovem

  Como é ser jovem e ser estudante em nossos dias? Em 2002 a Pastoral da Juventude propôs a Semana do Estudante.
     A ideia é trazer para o centro da escola e do espaço do jovem o debate sobre a educação, os grandes anseios da vida do estudante que se refletem na sociedade e relacionar todas as discussões estudantis com a realidade social. Conversamos com a jovem Tábata Silveira dos Santos.




















Tábata Silveira dos Santos, estudante de Direito, militante do movimento estudantil, ex-secretária e articuladora da Pastoral da Juventude Estudantil.
Endereço eletrônico: tabatapje@yahoo.com.br


Mundo Jovem: O que é ser jovem hoje?
Tábata Silveira: Para saber quem é o jovem é preciso um esforço, pois não é um conceito estagnado. Tudo está em movimento e vários fatores vão interferir. Por um lado, objetivamente falando, o jovem é desempregado ou mal empregado, sofre muita violência, há um grande número de jovens encarcerados, é estigmatizado pela sua condição de ser jovem, há uma sensação de desconfiança etc. E subjetivamente falando, o jovem se sente muito cobrado para produzir resultados, para ser alguém que nem sempre é o que ele deseja ser. E a reação a isso pode resultar numa certa passividade. Não é uma inércia total, mas uma resposta a uma ação externa.

Mundo Jovem: Como é ser jovem estudante?
Tábata Silveira: Penso que ser jovem estudante hoje é estar condicionado por uma espécie de disputa ideológica. Porque temos uma preocupação forte com o futuro. E sinto que o nosso futuro é disputado por forças: por um lado, o mercado de trabalho e, em alguns casos, a nossa família nos pressionando para que trabalhemos. E, por outro lado, temos um monte de sonhos, de vontade de ser o que de fato somos, vontade de seguir os nossos desejos. Ainda temos a televisão e as ferramentas desse sistema que vão nos condicionando a ser aquilo que não queremos ser.

     Outra coisa do ser estudante é que a escola nos impõe uma condição apenas de aprendiz, sem possibilidade de intervir. Somos considerados objetos da educação e não sujeitos dela, por mais que existam estudantes que se movimentem contrariamente a isso. Existem, sim, jovens que se organizam por uma educação diferente, mas sabemos que a massa estudantil de fato aceita a realidade da escola assim como ela é.

Mundo Jovem: Como o jovem gostaria que fosse a escola?
Tábata Silveira: Hoje, estudar é um dever, não é só um direito. Ser obrigado a ir à escola pode parecer chato quando significa entrar para a máquina e fazer parte da esteira dos iguais. Desde o golpe militar de 1964, temos um modelo de escola igual. Talvez nos últimos anos as escolas tenham andado alguns passos. Mas ainda não se promove o encontro, a partilha do saber... as coisas legais que gostaríamos de saber e de ser.

     Há uma tentação de acreditar que todos são iguais e que o jovem não pode nos dar esperança. Mas quando chegamos junto com os jovens, encontramos uma realidade bem diferente do que a televisão mostra. Porque o jovem é criativo, tem uma capacidade fantástica de inventar e surpreender. Não que o jovem seja a grande esperança do mundo; a humanidade inteira deve ser esta esperança. Porém essa discussão serve para reconhecermos o jovem como sujeito capaz de criar. O adulto deve romper com estes muros de achar que só ele detém o lado certo das coisas, e oportunizar ao jovem a sua capacidade de criar.

Mundo Jovem: A escola valoriza as culturas juvenis?
Tábata Silveira: De um modo geral, os estudantes não são convidados a trazer a sua cultura para a escola. Parece que estudamos uma cultura abstrata, que está pairando sobre a realidade da escola. Mas temos avançado, especialmente na escola pública, no sentido de poder acessar políticas públicas e ter mais presente a realidade das comunidades de onde vêm nossas origens. Esta é a proposta da Semana do Estudante: viver e acessar essas raízes da resistência e da diversidade cultural. Ainda se convive muito com o racismo, com a intolerância entre as diferentes culturas. E a escola, apesar de ser invadida pelos meios de comunicação, é um espaço privilegiado de acolher culturas, de aprender com o diferente, de se ver no outro, de ajudar o jovem a se encontrar e também a perceber que o Brasil é muito mais do que aquilo que a televisão mostra.

Mundo Jovem: É possível comparar o jovem de hoje com o dos anos 1960/70?
Tábata Silveira: O contexto é outro. Naquela época, o contexto era mais instigante, porque o inimigo era muito claro. Existia uma lógica mundial de ditaduras e de opressão ao Sul do mundo. Então, havia uma luta pela libertação, contra o Norte. Eu acho que essa confusão que se tem hoje, essa tentativa pós-moderna de colocar na cabeça do jovem que é tudo muito incerto, e que não necessariamente se devam fazer lutas, causa um certo mal-estar.

     Acredito que o movimento estudantil, mais do que nunca, tem um papel fundamental no sentido de romper com a ideia de que a educação deve estar a serviço do sistema que oprime a maioria. Mas é importante dizer que o movimento estudantil, além desse desafio maior, tem lutas específicas.

Mundo Jovem: Quais são essas lutas?
Tábata Silveira: Na universidade, há uma luta pela inclusão racial e social no Ensino Superior, que são as cotas. Apesar de ser uma lei já aprovada, ainda é um problema que requer reconhecimento. Há também a questão da mulher nos espaços de educação. Na verdade, a pauta do dia é contra as opressões, contra a homofobia, contra o machismo, contra o racismo.

     A questão da ecologia também está presente, apesar de ser uma pauta confusa, porque o meio ambiente está sendo afetado pelo sistema capitalista, todos sabem, e o jovem tem se indignado muito com isso, mas não tem alguém para ser “atacado” diretamente. É uma luta difusa e impessoal. Todos sentem que devem fazer alguma coisa, mas ninguém faz.

Mundo Jovem: E há resultados dessas lutas?
Tábata Silveira: Eu entendo que um grande desafio para o movimento estudantil é repensar a sua forma. O problema é o método, não é o conteúdo. E nesse sentido os resultados poderiam ser bem maiores. A cultura é um caminho de diálogo com o próprio estudante. Os grandes atos, as grandes manifestações que acontecem hoje em dia não conseguem agregar tanta gente e por isso são poucas vozes gritando, e que correm o risco de serem ridicularizadas pelos colegas. Transitando pelas escolas e universidades, o que se percebe é a questão da forma do movimento estudantil. Como é que vai fazer para dialogar com os estudantes para ser real e cumprir o seu papel, que é organizar os estudantes para lutarem por uma sociedade diferente?

Mundo Jovem: Então não dá para dizer que o jovem de hoje é indiferente?
Tábata Silveira: Não dá para dizer que o jovem é indiferente. Existe a tentativa de construir essa ideia de que o jovem é apático. Nas avaliações que as Pastorais da Juventude têm feito, a conclusão é que o jovem se incomoda muito porque sofre diretamente as consequências do sistema capitalista. E não tem como uma pessoa que sofre muito ser apática. Ser indiferente é não perceber que as coisas estão acontecendo. A dificuldade que existe é encontrar meios de organização.

     O jovem sente na própria pele, pela violência que existe hoje, principalmente nas periferias, a questão da discriminação, a dificuldade de conseguir emprego. Apesar de as estatísticas mostrarem que o índice de desemprego está diminuindo, parece que há uma certa desconfiança com relação ao jovem.

Mundo Jovem: A internet pode contribuir nas lutas do jovem?
Tábata Silveira: É evidente que a juventude é fortemente atraída pelas tecnologias, pela possibilidade de se comunicar através do computador. E eu acredito que isso é a manifestação de uma resposta a uma pergunta que nos fazemos: quem somos? A internet parece conceder esta liberdade para sermos exatamente o que somos. Podemos selecionar as melhores fotos para que as pessoas nos vejam do jeito que queremos ser vistos. Acho importante o jovem poder se projetar numa perspectiva ideal.

     Por outro lado, a internet traz o aspecto de que nos distancia fisicamente uns dos outros. E para a questão central do estudante, que são suas lutas, a internet é uma ferramenta limitada. Dá para dizer que a internet pode contribuir, mas nada consegue substituir o espaço de debate, de construção coletiva presencial.

Mundo Jovem: É possível mudar a realidade? Que caminhos trilhar?
Tábata Silveira: Os partidos políticos identificados com os movimentos sociais têm muitas pautas urgentes, muitas bandeiras. Há a questão da ecologia, questões raciais, das mulheres, dos trabalhadores etc. E quando se olha para essa diversidade de bandeiras, a sensação para quem é militante de movimento estudantil e de pastoral é de que a luta é dispersa, não é unida. Há uma luta, mas parece que não se sabe especificamente contra o que se está lutando. E isso dificulta a mudança. Por outro lado, há um pressuposto para a mudança. Paulo Freire dizia que é preciso acreditar que é possível mudar.

     Penso que podemos nos inspirar na forma de viver indígena, de sentar na roda, de um não ser mais do que o outro, de se compreender como se fosse uma grande família. Dessa forma, é possível traçar um projeto comum e caminhar lutando para que ele aconteça.

     Então, primeiro, acreditar que é possível mudar; depois, buscar uma unidade entre os movimentos. Se continuarmos numa postura de cada um lutar pelas suas bandeiras, caminharemos cada vez mais para o individualismo, que é totalmente contrário ao projeto de sociedade mais justa. E quando se fala na possibilidade, é importante lutar a partir do lugar onde se está. Quem está na escola, deve lutar dentro dela, sem esperar ficar maior de idade para entrar para a política etc. Quem já está trabalhando, pode lutar por um salário mais justo, pensar num sentido de trabalho humanizador. Todo o espaço é legítimo para a luta.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Entrevistas em campo minado, por Denise Bobadilha

As grandes empresas já não escolhem os futuros empregados usando fórmulas consagradas. Em vez de perguntas manjadas, aplicam um teste de paciência (a seleção pode durar meses!) e propõem desafios cabeludos. Você está preparada para isso? Nossa reportagem entrega os segredos para se dar bem.
Por Denise Bobadilha

 

Qual é o seu maior defeito?

Como você se vê em cinco anos? Se espera responder a perguntas como essas na sua próxima entrevista de em prego, esqueça. Os processos seletivos nas grandes empresas mudaram bastante nos últimos tempos. Eles estão mais longos, mas também mais democráticos: o que conta é quem você é e o que pode oferecer para a companhia, e não o que tem a dizer durante a entrevista. "Antes, as pessoas se preparavam para a entrevista, não para o cargo", com para Augusto César Calado da Costa, diretor-geral da consultoria de recursos humanos Manpower, em São Paulo. As perguntas ficaram tão conhecidas que era possível até treinar respostas que supostamente agradavam aos entrevistadores. "O método se esgotou", resume. A palavra de ordem hoje nas grandes companhias é "entrevista por competência". As maneiras de aplicar essa avaliação variam, mas o objetivo é o mesmo: colocar o candidato em situações que ele pode enfrentar na nova função. Não literalmente, claro. Na maioria dos casos, isso é feito em forma de perguntas que mostram desafios hipotéticos ou reais do cotidiano da empresa e investigam como o candidato faria para resolvêlos. Há três anos, a multinacional Unilever aplica um método inovador para selecionar os trainees em seu programa anual. Os concorrentes - 28 mil para 30 vagas no ano passado - enfrentam primeiro um jogo virtual, disponível na internet.
Esse teste, que pode ser feito até em casa, simula uma típica situação do ambiente de trabalho. Se concluído com sucesso, o jogo leva o candidato à etapa seguinte do processo, que tem uma média de três dinâmicas de grupo e quatro entrevistas feitas sempre por uma dupla diferente de funcionários. As perguntas avaliam, entre outras coisas, conhecimentos gerais (a opinião do entrevistado sobre algum escândalo político atual, por exemplo) e as técnicas que utiliza para resolver dificuldades profissionais. "Procuramos em todas as etapas as competências que são adequadas à vaga, cotante  meçando pelo jogo virtual", explica Vera Durante, diretora de recursos humanos da empresa. Com pouca rotatividade, a companhia investe pesado no programa de estagiários e trainees: são quatro meses de trabalho apenas para elaborar as etapas de seleção. Segundo Vera, a Unilever não costuma buscar profissionais para cargos superiores no mercado com muita freqüência justamente porque tem um processo bem afinado de seleção. "Encontramos pessoas que fazem carreira dentro da empresa."

Perguntas pertinentes

Quanto mais conceituada a empresa no mercado, mais gente quer trabalhar ali - e, portanto, maior a necessidade de ferramentas precisas de seleção. A Siemens, uma das melhores empresas para se trabalhar no Brasil de acordo com o ranking de 2006 da revista EXAME, procura cinco grupos de habilidades básicas, entre elas capacidade de executar tarefas e de superar desafios, que são checadas logo na primeira entrevista. "O candidato tem que citar exemplos de situações que enfrentou na vida profissional", explica Daniella Camara, analista de recursos humanos sênior da companhia. Para se colocar entre os 10,3 mil funcionários brasileiros da multinacional, o concorrente passa por três ou quatro entrevistas feitas por pessoas diferentes (inclusive futuros chefes ou pares de trabalho). E como saber se você possui essas competências? Em primeiro lugar, é bom lembrar - embora possa parecer óbvio - que, se você está de fato preparada para o cargo que busca, provavelmente preenche os requisitos. Mas é importante ter em mente não apenas o que a empresa quer, mas o que você procura. "O candidato também tem direito a respostas", diz Eliane Aere, diretora de RH da Ticket Serviços, do Grupo Accor. "Ele pode avaliar a empresa e ver se está de acordo com o que deseja para sua carreira fazendo perguntas pertinentes ao entrevistador e, assim, mostrando interesse." Só não vale perguntar o feijão-com-arroz: todos os entrevistados para esta reportagem afirmaram que é fundamental estar informada sobre o posicionamento da empresa an tes de se apresentar para o primeiro contato profissional.

Valores pessoais


O  processo da Ticket Serviços envolve de cinco a oito entrevistas (dependendo do cargo), feitas por funcionários em posições diferentes. "O processo seletivo pode ser subjetivo, de forma que quanto mais pessoas envolvidas melhor", pondera Eliane. Essa pluralidade de encontros ajuda a avaliar os diversos aspectos da pessoa. Às vezes um candidato pode parecer tímido demais na primeira conversa e, depois, se soltar e mostrar que tem capacidade para assumir a função. O contrário também vale - alguém que se dá muito bem no início, mas acaba decepcionando. "É possível mudar uma primeira impressão desde que ela não seja gritante", acredita Maria Aparecida Fonseca, diretora de RH do Grupo Pão de Açúcar. Com quase 70 mil funcionários, o grupo trabalha com tipos variados de processos seletivos, conforme os cargos. Para posições de nível superior, a empresa costuma aplicar, em média, quatro entrevistas. A primeira já avalia competências específicas para a função usando ferramentas como exames grafológicos, testes psicológicos, de conhecimento técnico, de conhecimentos gerais, de raciocínio lógico, de poder de análise, de comunicação, de riqueza de vocabulário, domínio matemático etc. "Dependendo do cargo, temos até uma avaliação ética", complementa Maria Aparecida.
Os valores dos candidatos também estão em voga nos métodos atuais de seleção. As empresas procuram pessoas que estejam de acordo com a filosofia da empresa. Esse é um conceito muito amplo: para algumas empresas, a filosofia pode ser apenas "aqui se trabalha até tarde da noite"; para outras, "é preciso ter responsabilidade social e ambiental". Aí entra, novamente, o conselho de conhecer bem a empresa antes da entrevista. Ética é também ser verdadeiro e jamais fingir algo que não é. Ou seja, para se dar bem no novo modelo de processo seletivo, basta ser você mesmo - na sua melhor forma.

Parece um quebra-cabeça

Fez barulho há alguns anos o "método Microsoft" de avaliação. Na sede da empresa americana, em Seattle, os candidatos passam por testes de lógica, alguns praticamente impossíveis de resolver, outros relativamente fáceis, como este: por que as tampas de entrada de redes de esgoto são redondas e não quadradas? De acordo com William Poundstone, autor do livro COMO MOVER O MONTE FUJI? - COMO A MICROSOFT ESCOLHE SEUS PENSADORES MAIS CRIATIVOS (ED. EDIOURO), a empresa de Bill Gates recebe mais de 12 mil currículos por mês, o que a fez afunilar o processo. "Técnicas convencionais de entrevista falham quando a profissão muda depressa", escreveu Poundstone. Nesse caso, porém, a Microsoft não revolucionou os costumes mundiais: o método só funciona para algumas áreas. "Você pode descobrir um gênio da lógica, porém despreparado para determinada função", opina Eliane Aere, do Grupo Accor. Pensando ainda nas tampas de esgoto? Há mais de uma resposta: uma tampa redonda pode rolar para ser transportada; a rede de esgoto é redonda porque é mais fácil fazer buracos redondos.

A vaga é sua!

- O CURRÍCULO
Nunca, jamais, em hipótese alguma, minta ou altere uma informação. Se o seu inglês não é fluente, você não fará milagre aprendendo a língua até a data da entrevista. Elimine o excesso de informações: se fez um curso de barista e pleiteia uma vaga como advogada, deixe a experiência de lado nesse primeiro momento.

- A DINÂMICA DE GRUPO
É uma prática comum quando há muitos interessados. Vista-se bem e seja você mesma, sem forçar comportamentos. Você está sendo observada o tempo todo, portanto nada de brincadeirinhas ao lidar com concorrentes.

- A PRIMEIRA ENTREVISTA
Não queira parecer íntima do entrevistador - comunique-se naturalmente. Respostas prontas e de coradas pegam mal. "Também é frustrante quando o candidato fica em cima do muro: é preciso ter opinião sobre os assuntos", aconselha Vera Durante, da Unilever.
- AS OUTRAS ENTREVISTAS
Estude tudo que puder sobre a empresa, consultando a internet e veículos especializados. Se o entrevistador der espaço, mostre interesse fazendo perguntas pertinentes (nada de indagar sobre a política da empresa nos feriados prolongados!). Caso seja desafiada com alguma questão de lógica, não se desespere: saiba que será avaliada pelo raciocínio usado para chegar à resposta, mesmo que ela esteja errada. Procure usar roupas adequadas, sóbrias, com as quais se sinta bem. "A pessoa não precisa vestir algo que nunca pôs antes e que não a deixa à vontade", diz Maria Aparecida, do Grupo Pão de Açúcar.

Foto modelos Marjorie Locke e Miro Moreira, Elite, Karine Basilio.







domingo, 24 de janeiro de 2010

Entrevista - “Precisamos mostrar que temos posição própria” Boaventura de Sousa Santos, Sociólogo português

Aos 69 anos, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos será uma das grandes estrelas do FSM de Porto Alegre. Com o histórico de quem participou da primeira edição, em 2001, o professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra defende mudanças no formato do evento. Para ele, o FSM precisa assumir posições. A seguir, trechos da entrevista:

Zero Hora – Que balanço o senhor faz dos 10 anos?

Boaventura de Sousa Santos – O Fórum teve muito mais impacto na cena mundial do que se pode imaginar. O Fórum foi muito forte na América Latina e evoluiu na capacidade de chegar a outros continentes. Realizamos o evento na Índia e na África e descobrimos problemas que eram desconhecidos. Vimos que os africanos, ao contrário do que se pensava, tinham capacidade de organizar um evento tão amplo e grande.

ZH – Qual o futuro do Fórum?

Boaventura – O Fórum é hoje uma presença incontornável na medida em que mostrou que os partidos não tinham o monopólio da representação política dos cidadãos. O Fórum teve a capacidade de mostrar as organizações sociais como formas legítimas de representação política e, portanto, como uma forma de enriquecer a democracia. O Fórum sempre defendeu a luta política, mas uma luta pacífica. Por isso, não entraram grupos adeptos da luta armada.

ZH – O que o Fórum não conseguiu fazer ao longo da década?

Boaventura – Não fizemos algo que segue em discussão e que vai ser discutido em Porto Alegre. Para alguns, entre eles eu, seria muito importante que, em certas áreas de grande consenso dentro dos movimentos, o Fórum pudesse apresentar soluções, diagnósticos fundamentados e propostas de mudança.

ZH – Oded Grajew diz que o Fórum se tornaria ONG ou partido caso tivesse pauta de reivindicações. O senhor concorda?

Boaventura – Compreendo Oded e tenho discutido muito isso com ele. Penso que a identidade do Fórum não será prejudicada se algumas organizações se juntarem, seja por exemplo a Via Campesina, que tem uma presença mundial muito forte, e organizarem algumas ações em nível continental.

ZH – Como isso funcionaria?

Boaventura – O Fórum não tem de ter uma posição só. Gostaria que houvesse várias posições bem fundamentadas. O Fórum pode ser plural. Precisamos mostrar que temos posição própria.

ZH – Que temas estariam nessa pauta?

Boaventura – Temos de ir caminhando com o tempo. Não sou eu nem é ninguém individualmente que pode definir isso.


Fonte: Jornal Zero Hora

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os deveres garantem os direitos e a boa convivência

Jaques Alfonsin
“Os jovens só querem direitos e não aceitam deveres”. Em algum lugar nós já ouvimos esta afirmação. Na escola, em casa, no grupo, na comunidade a questão dos “direitos e deveres” é tema destacado dos debates e até de brigas.
Pois, nesta entrevista, queremos contribuir para uma “briga” saudável em torno deste assunto, que sugere muito debate teórico e opções de vida. Colabora conosco o advogado Jaques Alfonsin.

Jaques Alfonsin,
advogado, presta assessoria jurídica popular em Porto Alegre, RS, e coordena a ONG “Acesso Cidadania e Direitos Humanos”, em defesa de diversas entidades e dos pobres, em geral.


Mundo Jovem: Por que nós temos que ter deveres?

Jaques: O que está na base dos deveres é a própria exigência da convivência social. O princípio fundamental ético jurídico é o da reciprocidade, ou seja, a cada vantagem que eu tenho, para não usar diretamente o termo direito, pode haver uma desvantagem dos outros.

Então eu não posso exercer um direito, uma vantagem, na medida em que no próprio exercício dessa vantagem eu prejudique os demais. Na verdade, está contido nos deveres um preceito evangélico, pode-se dizer: “não faças nunca aos outros aquilo que não queres que façam para ti”, ou, faça sempre aos outros aquilo que tu queres que seja feito para ti.

Não se compreende nesse jogo de convivência o direito sem os deveres. A cada direito corresponde um dever, aliás,o filósofo Kant ja dizia isso bem claro.


Mundo Jovem: Os deveres não atrapalham a liberdade?

Jaques: Pelo contrário. Os deveres justamente, por este princípio da reciprocidade, eles favorecem a boa convivência, favorecem o bom relacionamento. Em vez de serem vistos como imposição, na medida em que eles são conscientizados pelos jovens, eles dão caminho, oferecem caminho para o exercício de uma liberdade que não fira outras liberdades.

Então, o dever deve ser visto como uma coisa positiva e não como uma coisa negativa, um cerceamento da liberdade. Na medida em que eu exerço a minha liberdade de maneira compatível com a liberdade alheia, todos nós seremos livres. Por isso que o mundo de hoje é tão carente de deveres. Porque um dos principais direitos, que é o direito de propriedade, não cumpre o seu principal dever que é sua função social.

O desequilíbrio moderno, da globalização, que gera tanta desigualdade e pobreza, é gerado pelo exercício do direito, um direito que extrapolou, que abusou do seu leito normal. É um direito que desrespeita o outro na medida em que é indiferente ao outro. A luta pela terra que está se travando atualmente no país é o melhor exemplo disso.


Mundo Jovem: Hoje se diz que os jovens têm direitos demais. Isto é verdade?

Jaques: Essa é uma crítica que o adulto faz. Mas, na verdade, ele está cuspindo para cima quando diz isso. O jovem de hoje se espelha no exemplo do adulto. Quando há muito excesso por parte do jovem, muitas vezes é uma reação ao que ele vê no excesso praticado pelo adulto.

Ele foge de uma sociedade que exige dele o cumprimento de deveres, quando ele vê toda a sociedade de adultos também em descumprimento de deveres. É um mundo todo regido por exigências sobre os outros, que não são cumpridas pelas pessoas que exigem.

Exigências dos grandes empresários, dos grandes banqueiros... chega-se a chamar isto de crédito. O direito mais protegido pela civilização é o fato de alguém estar sempre condicionando o outro na situação de devedor.

O jovem, inconscientemente, reage contra essa contínua cobrança de que ele é que deve as coisas. Ele também quer ter a sua liberdade.

E às vezes exagera, não há dúvida. Tem muito jovem que foge para a droga, para o excesso do álcool, para a libertinagem, para a violência. Mas, na verdade, ele também é levado a isso pelo exemplo que vê do adulto.


Mundo Jovem: Uma pesquisa constatou que cerca de 60% de brasileiros não conhecem nenhum direito da Constituição. É possível exercer a cidadania sem conhecer os direitos?

Jaques: Não. Essa é a maior das contradições. O artigo primeiro, parágrafo único da nossa Constituição diz: “todo poder emana do povo, que o exerce diretamente ou por seus representantes nos termos desta Constituição”.

Então, se todo poder emana do povo, nós teríamos que primeiro tratar de identificar esse povo, de quem nós estamos tratando aqui.

Caso contrário corremos o risco de a sociedade continuar mentindo para si mesma, colocando na Constituição uma coisa que todo mundo sabe que não é verdade. Hoje, se verifica que grande parte dessas expressões bonitas, como “todo poder emana do povo”, não são uma tentativa de transferência de poder para o povo, mas uma tentativa de legitimar a própria Constituição, ou seja, dizer que nós vivemos num estado democrático de direito, porque a Constituição diz isso.

Mas nunca vamos conferir que poderes tem este povo. Que poder tem o povo excluído, por exemplo? Quais são os poderes que derivam dos poderes sociais. Nós podemos bater na porta de um juiz e pedir comida ou casa ou coisa que o valha? Num estado efetivamente democrático de direito isto nem seria questionado. São direitos que fazem parte da vida da pessoa humana. O direito à vida pressupõe o direito aos meios de vida.


Mundo Jovem: E os direitos são garantidos para todos?

Jaques: Evidentemente que não. Os chamados direitos humanos de primeira geração, como a liberade de crença, a liberdade de opinião, de reunião... esses direitos pressupõem que o Estado não faça nada. Ele tem é que respeitar.

Agora, a maior parte dos direitos ligados à vida pressupõem uma ação do Estado e não uma omissão. Eu não posso ter educação, saúde, transporte, segurança... se o Estado não se mexer a meu favor e não der prioridade a isso.

O desequilíbrio entre o poder de ação do Estado a favor dos direitos sociais e o dever de omissão do Estado a favor dos direitos de primeira geração, dos direitos civis e políticos... esse desequilíbrio é toda a crise do Estado moderno; mostra que o Estado moderno falha na sua principal finalidade.

Porque não se pode dizer que os direitos humanos fundamentais, educação, saúde, segurança, transporte... estejam atrás, nem ao lado, nem na frente da lei. Eles estão acima da lei. O Estado e a lei existem em função destes direitos.


Mundo Jovem: Não existe o certo e o errado, o que existe é o chato e o divertido”, diz uma frase de um filme. E uma cantora brasileira dizia: “não existe o certo e o errado. Você faz o que gosta e acaba dando certo”. Neste ambiente, nesta mentalidade, como trabalhar a questão dos direitos e deveres?

Jaques: É um ambiente medíocre de ausência de valores. Talvez o principal dever do qual o jovem tem que ter consciência é de que ele é responsável pela construção da cidadania. A dignidade humana é indelegável. Ele não pode esperar isso do professor, nem do pai, nem da mãe. É ele que é responsável por isso e é ele que é responsável pelas gerações de amanhã.

Portanto, o principal dever do jovem é contestar esta desordem que está lá fora. Um princípio jurídico antiqüíssimo é de que a obra da justiça é a paz. Nós não temos paz porque não temos justiça.
Então, o principal dever do jovem é lutar pela justiça. Estou falando em justiça no sentido de dever, não é o judiciário, o juiz, o promotor. Este é o aparato público da justiça.

A justiça mora dentro de cada um de nós. O jovem que não sente crepitar dentro de seu coração esta chama ardente da transformação, está aderindo a este mundo de mediocridade. Ele tem que saber que toda a possibilidade de vida dele e futura depende dele exclusivamente, ele é que tem que dar essa resposta.

A dignidade humana não pode ser delegada ao puro diletantismo ao ponto de dizer que só existe o chato e o aborrecido. Isso aí é muito fácil de se dizer, mas sepulta toda possibilidade de humanidade futura.


Mundo Jovem: Não deveria fazer parte do curriculo escolar o estudo da Constituição?

Jaques: Há todo um movimento no país para se introduzir a chamada cadeira de Direitos Humanos no ensino médio e até no fundamental. Com a idéia de que desde o início as crianças e os jovens aprenderem que a Constituição é uma lei criada pelo povo e por isso eles têm que se valorizar a si mesmos e conhecer esses direitos.

A ignorância sobre esse assunto favorece a reprodução de um sistema que tem interesse de manter a pessoa ignorante dos seus direitos. Grande parte da desordem estabelecida são atividades econômicas ilegais porque descumprem, por exemplo, esse princípio da função social da propriedade. Se a propriedade tivesse uma função social, ela não geraria os efeitos que está gerando em matéria de concentração de terra, destruição do meio ambiente, de ataque à vida ainda antes de nascer ou na hora de morrer.

Se o horizonte oferecido ao jovem for sempre um horizonte de mercado e a pergunta que ele faça quando entra na escola ou entra na universidade é “qual é o mercado que me espera”, isso não nos vai levar a lugar algum.

Vai acentuar a desordem que nós vivemos. A verdade é a seguinte: os adultos falam muito do jovem, mas o principal defeito está em não reconhecer que a atitude do jovem é uma reação à atitude do adulto. Nós temos que confiar no jovem.

Existe dentro dele um potencial de transformação. Eu vou dar um exemplo: todos os sábados de manhã se reúnem aqui alunos do Direito, usando um dia de descanso e diversão, para estudar os meus processos, para estudar e debater como melhor proteger o direito dos pobres.



Quando o direito gera desigualdade

A origem histórica dos direitos é muito discutível. Agora, uma coisa é certa: o direito sempre é necessário onde se ausenta o amor. Se todos nos amássemos, não precisaria haver direito. Rousseau, no seu livro “O princípio das desigualdades entre os homens”, chega a dizer que quando a primeira pessoa cercou um pedaço de terra e disse “isto aqui é meu”, deveria ter-se convocado toda a humanidade para dizer: “olha, aqui está nascendo o direito de propriedade, que vai gerar muita infelicidade”. Justamente porque tenho que respeitar o outro como outro, como pessoa humana...

O exemplo que a mãe dá em relação ao amor do filho é o melhor que existe. O amor materno não necessita de direitos.

Nós não necessitamos de direitos para saber que a criança, que vive em contato com a mãe, se alimenta do corpo da mãe desde que nasce, também reflete aquilo que está no evangelho, quando Jesus Cristo diz: “fazei isso em memória de mim”, ou seja, eu me deixo consumir pelo outro. Na medida em que há essa consciência, não há necessidade de direito.

O direito nasceu da falta de amor que existe entre as pessoas. Foi necessário para remediar a falta de amor. Se não nos amarmos uns aos outros, o direito vai ser necessário.


Fonte: Jornal Mundo Jovem - Entrevista Publicada na edição 340, setembro 2003

domingo, 20 de dezembro de 2009

Entrevista: Bjorn Lomborg - Podemos fazer melhor

O principal representante dos céticos diz que o combate ao aquecimento global tem de se basear em tecnologia, e não em mudanças no consumo


Por Ronaldo França, de Copenhague


 Andres Birch/Laif/Other Images

"Não sou um cético da ciência,
sou um cético das políticas
de combate ao aquecimento global"





O cientista político dinamarquês Bjorn Lomborg, de 44 anos, não tem carro. Usa bicicleta ou metrô para se deslocar em Copenhague. Lomborg é um dos mais respeitados entre os pesquisadores céticos em relação aos efeitos catastróficos do aquecimento global. Seus livros e artigos provocam a ira de ambientalistas, mas seus argumentos afiados também são ouvidos com atenção pelos cientistas. Sua descrença se dá em torno da histeria criada acerca do assunto e do que se pretende fazer para solucionar o problema da elevação da temperatura. "Não sou um crítico da ciência que prova o aquecimento. Sou um crítico da política de combate ao aquecimento." Ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA na sede da COP15, em Copenhague.

Qual foi o estrago do "climagate", o escândalo do vazamento de e-mails em que cientistas confessam a manipulação de dados para reforçar a tese do aquecimento global? 

O que está claro é que havia uma inclinação evidente para não compartilhar dados com pesquisadores cujos trabalhos não reforçariam a teoria do aquecimento global. Possivelmente, os dados foram mascarados, o que não significa exatamente uma falsificação.

Sim, mas mascarar dados não é suficiente para invalidar toda a pesquisa? 

Não. É um erro achar que esse escândalo invalida todo o trabalho que os cientistas do clima produziram nas duas últimas décadas. O aquecimento global está aí. É um desafio.

Então, o senhor aconselha a esquecer o episódio e continuar levando seus autores a sério? 

Não é isso. O escândalo não pode ser considerado apenas uma tempestade em copo d’água. O que eles fizeram é muito sério e perturbador. Tem implicações muito maiores. Esses cientistas formam uma máfia que se apossou da questão do clima. Tive muitos problemas com essa máfia do clima. Quando estava escrevendo meu livro, tentei me corresponder com alguns daqueles pesquisadores que detinham dados pelos quais eu tinha interesse. Recebi de volta algumas mensagens em cujo campo de destinatário eu fui incluído por engano. Foram mensagens reveladoras. Elas diziam: "Esse homem é perigoso. Não forneçam nenhum dado a ele. Devemos ter cuidado em não deixar que nossas informações apareçam em pesquisas públicas".

Por que o senhor é cético em relação às previsões sobre o aquecimento global?


Discordo da forma como as discussões sobre esse tema são colocadas. Existe a tendência de considerar sempre o pior cenário – o que aconteceria nos próximos 100 anos se o nível dos mares se elevar e ninguém fizer nada. Isso é irreal, porque é óbvio que as pessoas vão mudar, vão construir defesas contra a elevação dos mares. No entanto, isso é só uma parte do que tenho dito. Sou cético em relação a algumas previsões, sim. Mas sou cético principalmente em relação às políticas de combate ao aquecimento global. O problema principal não é a ciência. Precisamos dos cientistas. A questão é que tipo de política seguir. E isso é um aspecto econômico, porque implica uma decisão de gastar bilhões de dólares de fundos sociais. Em outras palavras, não sou um cético da ciência do clima, mas um cético da política do clima. Basicamente, digo que não estamos adotando as melhores políticas porque não estamos pensando onde gastar o dinheiro para produzir os maiores benefícios.

"ONGs verdes querem mudar a natureza humana, dizendo que não se deve querer ter ou gastar mais. É muito difícil. Prefiro ter tecnologia e fazer o que quiser, mesmo emitindo CO2"

O relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) diz que a humanidade é "provavelmente" responsável pelo aquecimento. O que significa esse "provavelmente"?

Os cientistas estão dizendo que têm 90% de certeza. Que há fortes evidências de que somos responsáveis em pelo menos 50% pela elevação da temperatura. É a partir daí que temos de elaborar as políticas. Se a maior parte dos cientistas diz que algo provavelmente vai acontecer, temos de agir de acordo com essa informação. O que não significa que não se deva garantir financiamento às pessoas que trabalham para descobrir erros nessa proposição. Deveríamos gastar dinheiro com as pesquisas dos céticos justamente para aperfeiçoar a informação que tem dominado os debates.

Com que cenários é razoável trabalhar quando se fala da elevação do nível dos oceanos? 

Quando perguntamos aos cientistas do IPCC qual seria o resultado mais provável do aquecimento sobre o mar, eles disseram que o nível das águas subiria entre 18 e 59 centímetros. Esse é o parâmetro mais aceitável. Não faz sentido trabalhar com cenários de até 6 metros, como quer o Al Gore, ex-vice-presidente americano. Porque é tão improvável que isso aconteça quanto que não haja elevação alguma. As pessoas que fazem projeções catastróficas acreditam que fazer mais alarde estimula a população a agir. Mas vale lembrar: análises e argumentos baseados no pior dos piores cenários induzem ao pânico, e o pânico não é a melhor forma de fazer um bom julgamento. Esse foi o mesmo argumento que George W. Bush usou quando invadiu o Iraque. Ele disse que estava absolutamente certo sobre a localização das armas de destruição em massa, e o resultado foi o que se viu. Por isso prefiro trabalhar com os impactos mais prováveis.

Quais são esses impactos? 

Costumamos esquecer que a maioria dos lugares ricos no mundo conseguirá lidar com o aquecimento global. Sabemos disso porque é o que os holandeses vêm fazendo desde o século XVII. A Holanda tem 60% de sua população vivendo abaixo do nível do mar. O principal aeroporto de Amsterdã fica 3 metros e meio abaixo do nível do mar. É simplesmente uma questão de tecnologia. Ninguém que vai à Holanda fica pensando: "Ai, meu Deus, estou abaixo do nível do mar". Não que isso não seja problemático ou custoso. Mas é um custo que chega a 0,5% ou no máximo 1% do PIB. Então, é bom enfatizar, o Rio de Janeiro nunca vai submergir, tampouco Nova York. Nos últimos 150 anos, o nível do mar subiu 30 centímetros. Pergunte a uma pessoa muito idosa quais as coisas mais importantes que aconteceram no século XX. Ela vai mencionar as guerras mundiais, ou talvez a revolução tecnológica. Sua resposta não vai ser que o nível do mar subiu.

"Tive problemas com a máfia do clima. Quando escrevi meu livro, recebi por engano, de pessoas a quem pedi informações, mensagens que diziam: ‘Esse homem é perigoso, não lhe forneça nenhum dado’"

Fala-se muito do impacto causado pela forma como as pessoas desperdiçam produtos e energia. Como o senhor faz no seu dia a dia? 

Há muita confusão em torno desse debate sobre consumo ético, como se a questão toda se resumisse ao que a pessoa faz. É uma visão torta porque, no fim das contas, o que nós fazemos está profundamente regulado pela forma como a sociedade funciona. Posso pegar um ônibus em vez de um carro na Dinamarca (eu nunca tive carro). Mas não poderia fazer isso nos Estados Unidos. Por isso, acho que reduzir tudo à ideia de que você deve fazer algo sobre seu consumo não é o melhor caminho. Para dar uma noção de proporção, se todos no mundo ocidental trocassem suas lâmpadas atuais por um modelo mais econômico, ao final de um ano as emissões se reduziriam apenas o equivalente à quantidade de CO2 que a China joga na atmosfera em um dia. Acho inútil adotar o argumento de que não se deve agir desta ou daquela maneira porque é imoral. Resumindo: organizações verdes querem mudar a natureza humana, dizendo que não se deve querer ter ou gastar mais. É muito difícil mudar a natureza humana. Prefiro mudar a tecnologia. Assim, poderemos fazer o que quisermos, mesmo emitindo CO2.

As empresas estão fazendo sua parte?


A maioria das coisas que se veem por aí é marketing. É o chamado banho verde. Estão fazendo economia de energia como sempre fizeram, desde o início do século XIX, de quando datam as estatísticas. Todas as empresas, em todos os lugares, inclusive nos Estados Unidos e na Europa, vêm reduzindo o desperdício de energia. Ou usando cada vez menos energia para cada dólar que produzem. O que é uma das maneiras de manter a liderança no mundo dos negócios. Cada vez que conseguem essa redução, anunciam que estão economizando CO2. Mas é óbvio que o que estão economizando são dólares. Não há nada de errado nisso. Só não devemos achar que elas estão salvando o planeta.

Por que o crescimento populacional não é levado em consideração nas discussões sobre clima?
 
Se fosse possível limitar substancialmente o crescimento da população mundial, provavelmente as emissões não aumentariam tanto. Mas você só consegue alterar essa variável dramaticamente num regime autoritário como o da China, onde o governo determina que os casais só podem ter um filho. Não acho que se vá reduzir a taxa de natalidade com informação. As pesquisas mostram que as pessoas agem de forma muito racional sobre o número de filhos que têm. Para os pobres, crianças são fonte de renda. Para os ricos, representam despesa. Então você pode interferir no tamanho da prole tornando as pessoas mais ricas. Independentemente disso, é preciso lembrar que a principal razão para os nascimentos até 2050 não é que muitas pessoas têm muitos filhos, mas porque há muitos jovens que ainda não têm filhos e querem ter. Até lá teremos provavelmente mais 2,5 bilhões de pessoas. Há muito pouco que se possa fazer sobre isso.

Se o senhor tivesse filhos, estaria preocupado com o futuro?

Tenho primos que têm filhos, e alguns dos meus melhores amigos também têm. Claro que desejo que eles tenham uma vida boa. E eles terão. Vão ficar bem, serão ricos. Porque todos os filhos geneticamente gerados que conheço são brancos. Não é com eles que temos de ficar mais preocupados. É com os outros três quartos das pessoas deste planeta, a quem não sou intimamente ligado, que não são brancas, são pobres e vivem hoje uma situação difícil. O paradoxo é que a ONU espera que todos enriqueçam. Os filhos dos meus primos estarão entre quatro e oito vezes mais ricos no fim do século. As pessoas nos países em desenvolvimento estarão 35 vezes mais ricas. A média das pessoas em Bangladesh não será pobre em 2100, mas classe média alta. Ou seja, estamos pensando em ajudar pessoas que serão ricas daqui a 100 anos, mas deixando de ajudar as pessoas pobres que estão aqui agora, hoje. Esse é, para mim, o grande dilema ético: nós nos importarmos tanto com os ricos do futuro e tão pouco com os pobres do presente.

O senhor pode dar um exemplo? 

O caso dos países insulares é claro. Se você olhar para Tuvalu, que tem 12 000 habitantes e pode desaparecer, verá que as pessoas de lá não vão sumir. Elas terão de se mudar, o que será triste. Mas é curioso lembrar que a cada sete horas e meia um número equivalente de pessoas morre no mundo em decorrência de doenças infecciosas facilmente curáveis. São cerca de 15 milhões de pessoas que morrem desta maneira todo ano no mundo. As pessoas de Tuvalu terão apenas de se mudar. Para mim, é muito curioso que estejamos gastando tanto dinheiro para ajudar as pessoas de Tuvalu e fazendo tão pouco pelas 12 000 que morreram nas últimas sete horas e meia. Fala-se muito em aquecimento global. Mas as pessoas de verdade têm problemas mais urgentes. A maioria das pessoas nos países em desenvolvimento, ou três quartos da população mundial, quer saber como vão sobreviver até a semana que vem.

O que se pode esperar das decisões tomadas na conferência? 

Quando 120 líderes se reúnem, eles não podem não fazer um acordo, em torno de números que soam agradáveis. O problema é que não conseguiremos cumpri-lo. Faremos um lindo documento, todos vão brindar com champanhe, depois vão para casa, e nada vai acontecer. Vem sendo assim nos últimos dezoito anos. Não cumprimos o que foi acertado no Rio de Janeiro em 1992. Em Kioto, houve um compromisso legalmente assumido, no qual se prometeu cortar ainda mais, e ainda nada foi feito. Acreditar que Copenhague será diferente me parece uma fantasia política.

Fonte: Revista Veja

domingo, 1 de novembro de 2009

Jeffrey Williamson: "A vontade política é crucial para reduzir a desigualdade

Em entrevista a ÉPOCA, o historiador econômico, professor emérito da Universidade Harvard, analisa a realidade e as perspectivas da desigualdade social na América Latina

José Antonio Lima
Ismael do Rosário / Divulgação FEA

AULA O historiador econômico Jeffrey Williamson dá palestra na FEA, em São Paulo. Ele defende que o investimento na educação seja um dos principais no combate à desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres.

O historiador econômico Jeffrey Williamson é um fenômeno de produção literária. Em 47 anos lecionando nas universidades Vanderbilt (1961 a 1963), Wisconsin (1963 a 1983) e Harvard (1983 a 2008), ele escreveu 24 livros e publicou mais de 200 artigos. Em julho de 2008, aposentou-se como professor emérito das últimas instituições, mas continua pesquisando e ministrando palestras e cursos em diversos países.

Aos 74 anos, esse nativo de New England se diz um "liberal reclamão", mostra descrença sobre a possibilidade de a economia americana e mundial ser reformada após a crise e lamenta não ter estudado "a vida toda" a desigualdade social, assunto ao qual tem se dedicado.

Na semana passada, enquanto ministrava o curso "Crescimento, Desigualdade e Globalização em Perspectiva Histórica" na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), Williamson conversou com ÉPOCA sobre a situação e as perspectivas da desigualdade social na América Latina e no Brasil.

ÉPOCA – No artigo “Cinco Séculos de Desigualdade na América Latina” o senhor contraria a tese de que a região sempre foi uma campeã da desigualdade e diz que a diferença de renda entre os mais ricos e os mais pobres era menor que a da Europa antes da Revolução Industrial. A desigualdade só teria começado a crescer no fim do século 19 e explodido no início do século 20. O que causou o crescimento da desigualdade?
Jeffrey Williamson –
Essa é a pergunta mais difícil. O que distingue a América Latina de seus competidores da América do Norte e da Europa é que estes locais viveram uma revolução com o surgimento do Estado de bem-estar social e com a queda abrupta da desigualdade social nos anos 40, 50 e 60. Foi um período de mudanças dramáticas, que a América Latina perdeu.

ÉPOCA – Por que a região não participou dessas mudanças?
Williamson –
São duas razões. A primeira é que não havia a mesma vontade política, ou demanda política se você preferir, para instituir essas mudanças, afinal na Europa e na América do Norte as classes trabalhadoras tinham poder de voto e pressionavam muito pelas reformas, que foram favoráveis àqueles que estavam no patamar mais baixo da distribuição. Enquanto isso, o Brasil, o México e outros países não escolheram essa rota. Agora as diferenças estão claras. As nações industrializadas têm, por exemplo, uma distribuição de educação muito mais igualitária que os latino-americanos, e sabemos que isso é muito importante na distribuição de renda. A segunda razão tem a ver com as estratégias políticas e econômicas daquele período. A política de Industrialização de Substituição de Importações era antiglobal, mas também antimercado dentro do país. Isso tendia a favorecer sindicatos e burocratas e tendia a aumentar os ganhos dos que já estavam em posições muito favoráveis, como grandes produtores rurais. Isso aumentou ainda mais a distância entre ricos e pobres. Para piorar, a América Latina chegou ao século 20 com um nível de desigualdade incrivelmente alto.

ÉPOCA – Como o senhor vê o futuro da desigualdade?
Williamson –
Se você me perguntar sobre a desigualdade entre os países, a resposta é que vai diminuir. Com nações como China, Índia, Brasil e Indonésia, com grandes populações, crescendo de forma significativa, a tendência é que a diferença de renda caia. Mas dentro dos países a situação é diferente. Os Estados Unidos, por exemplo, desde os anos 70 têm visto a desigualdade crescer e isso deixou uma marca na política. A política afeta a desigualdade social e a questão é como você vai mudar isso? É complicado. Basta ver como o presidente Barack Obama, presidente do país mais rico do mundo, tem dificuldades para aprovar uma legislação que propõe um sistema de seguro de saúde para os mais pobres, como o que existe na Europa. O debate é dirigido politicamente, ele não vai conseguir o que quer e terá que esperar alguns anos. Essas coisas demoram para mudar. Você é brasileiro e eu não, mas a política é sempre igual. É difícil mudar as atitudes e criar, por exemplo, um sistema de educação que seja acessível aos mais pobres e aos moradores das áreas rurais. Se essas crianças não tiverem boa educação, não chegarão a lugar algum.

ÉPOCA – O Brasil é um grande exportador, pode se tornar um grande produtor de petróleo, a economia parece mais confiável, mas a desigualdade ainda é um problema gravíssimo. O senhor diria que esse é um momento ideal para agir contra a desigualdade?
Williamson –
É um país mais rico, que está crescendo e o impacto da recessão foi menor do que na maioria dos países. Isso mostra que o Brasil está em uma posição para agir contra esse problema, mas ter os recursos não é crucial. O que é crucial é ter vontade política. O Brasil tem vontade política para isso? Eu não sei.

ÉPOCA – O Brasil convive com o ditado irônico de que “é o país do futuro e sempre vai ser”. O senhor acha que o Brasil tem, finalmente, a chance de ser o “país do futuro”?
Williamson –
O Brasil já é o país do futuro. O Brasil e o México são, como sempre foram, os líderes da América Latina. Como turista, após visitar a Cidade do México, ao vir para São Paulo é possível ver que a cidade é muito mais rica do que a capital mexicana. É mais vibrante, a economia funciona melhor. Eu não conheço tão bem o resto do país, mas essa comparação sugere que o Brasil está em uma posição mais favorável. Além disso, o Brasil não tem os fardos de ter os Estados Unidos como vizinho. Outra comparação importante é sobre o petróleo. O México nacionalizou sua indústria petrolífera há muito tempo, e não deu muito certo. Ela é muito improdutiva e a renda, que é crítica para o governo, está desaparecendo. O Brasil deve ter muito cuidado para não fazer a mesma coisa. É preciso tirar partido das forças privadas para ter certeza de que o Estado e a população ganhem o máximo possível desses recursos e que eles sejam distribuídos, em vez de ficarem nas mãos de alguns poucos.

ÉPOCA – Existe uma receita para reduzir a desigualdade?
Williamson –
Não, não existe. Cada país fez de sua maneira, alguns nunca fizeram. Para vários países, principalmente entre os industrializados, houve reversões nas últimas décadas, muitas motivadas por forças do mercado, que acabam por premiar algumas pessoas em detrimento de outras, criando mais desigualdade. Em alguns países as pessoas dizem: ‘a desigualdade é uma pena, mas temos que deixar o mercado funcionar’ e outros dizem ‘eu não confio tanto no mercado, e quero intervir para redistribuir’. Mas o ponto é que há forças sobre as quais o país não tem controle que podem influenciar. No caso do Brasil, por exemplo, quando há um boom no preço da soja, quem ganha é o grande produtor, e não o pequeno agricultor. É bom para a economia do país, pois amplia a entrada de moeda estrangeira, aumenta a arrecadação do governo, mas a maior parte dos ganhos vai para quem está no topo. Mas se houver um boom na demanda pelos manufaturados feitos no Brasil, o emprego cresce e há uma influência um pouco mais igualitária. Há vários fatores internos, como a qualidade da educação e o nível de intervenção, que atuam sobre a desigualdade, assim como fatores externos como os citados.

ÉPOCA – O senhor sempre cita a educação como fator importante neste debate. Qual é o papel dela para reduzir a desigualdade?
Williamson –
É fundamental, especialmente a longo prazo, em um período de duas, três gerações. Se a educação for correta, ela capacita jovens para migrar, ir para as cidades, procurar empregos melhores. Eles podem melhorar suas habilidades e ganhar melhores salários, em vez de serem excluídos do mercado por serem analfabetos. Mas apenas manter as crianças na escola não é suficiente. Por acaso estamos mandando os melhores professores para dar aulas às crianças mais pobres? Acho que não. Como você muda isso? É muito difícil.

ÉPOCA – Existe um grande exemplo de um país que reduziu muito a desigualdade?
Williamson –
Há as revoluções sangrentas, como as de Rússia, Vietnã e China, mas é possível fazer isso sem banhos de sangue! Os grandes exemplos foram os que ocorreram entre as décadas de 1920 e 1950 na América do Norte, na Europa e na Austrália. Foram mudanças muito profundas de distribuição de renda, implementadas por sistemas progressivos de impostos, intervenção pública na educação para torná-la acessível. Todos esses dispositivos que hoje muitos desprezam foram introduzidos em um determinado período de tempo na primeira metade do século 20 e tiveram um resultado espetacular. Não ocorreu da noite para o dia, levou três décadas. E as taxas de crescimento eram espetaculares, então parece que esse tipo de prática não afeta o crescimento, pelo contrário.

ÉPOCA – Como o senhor avalia os governos de esquerda da América Latina, como os de Hugo Chávez, na Venezuela, e Evo Morales, na Bolívia? Eles fazem algo para diminuir a desigualdade?
Williamson –
Chávez... eu não sei. Mas é claro que a América Latina se lembra do fim da era Substituição de Importações, quando foi persuadida pelo resto do mundo a mudar seu posicionamento político-econômico. Os países fizeram isso a partir dos anos 1970, se abriram, se tornaram pró-mercado e os resultados não foram positivos como todos esperavam. Por isso é possível entender que exista preocupação com os efeitos da globalização. E essa era uma reação previsível que emergiu. Eu não me surpreendo pelo fato de vários países terem trocado governos de direita pela extrema esquerda, mas não acho que a América Latina vai nessa direção. O Brasil certamente não vai virar a Venezuela. E ninguém vai assumir a posição de Cuba, que é um fracasso social. Vai ser algo no meio do caminho. Na América Latina vai emergir uma mistura que é latina e que serve à América Latina, diferente da que existe nos Estados Unidos e na Europa. E não há problema nenhum com isso.

ÉPOCA – Os líderes mundiais estão tendo dificuldades para implantar novas normas de regulação para a economia, aspecto apontado como fundamental para a crise atual. O senhor acha que há um risco de nada ser feito para prevenir futuras crises?
Williamson –
Eu tenho uma visão desanimadora sobre isso. O impacto dos lobistas é tão forte que às vezes eu penso que estamos perdendo a democracia como resultado disso. Vamos novamente ao exemplo do novo sistema de saúde que Obama quer implementar nos EUA. A legislação foi proposta pelo partido Democrata, que está no governo, então seria correto imaginar que eles conseguiriam aprovar a lei. Mas os lobistas, desde o início, têm atirado contra a nova lei. Os lobistas são os médicos, que temem que sua renda será corroída. Bom, é óbvio que ela vai ser corroída [se o plano for aprovado]! É isso que queremos! Também fazem lobby as empresas de plano de saúde, que verão seus lucros diminuírem. Essas duas forças se mostraram muito fortes e o que vai ser aprovado é muito mais modesto do que o projeto inicial. Estou pessimista sobre todas as possíveis políticas que poderiam ser colocadas em prática para mudar o rumo dos Estados Unidos.

Fonte: Revista Época

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Viver para consumir ou consumir para viver?

Euclides André Mance
O consumismo é, certamente, um dos problemas centrais da juventude atual.

A publicidade aposta nos jovens para vender seus produtos. Muitos já não encontram sentido na vida por não poderem consumir, enquanto outros descobrem um "sentido" consumindo compulsivamente. Parece que não existe saída. De fato, consumir para o bem-viver e para a solidariedade é andar na contramão desta “roda viva”.
São propostas que estão surgindo e ganhando força nas redes de economia solidária.

Euclides André Mance,
autor do livro “A Revolução das Redes: a colaboração solidária como uma alternativa pós-capitalista à globalização atual”.


Mundo Jovem: Qual o lugar que o consumismo tem na economia capitalista hoje?

Euclides: O fundamental da economia capitalista, a impressão que dá, é que querem gerar o prazer, a satisfação. Mas o que geram mesmo é a insatisfação. Ou seja, por que as pessoas vão correr atrás daquele produto que a mídia propaga? Porque elas estão insatisfeitas com aquela situação de consumo que vivem. Por mais que consumam, consumam, elas nunca estão satisfeitas, porque sempre vai aparecer um outro desejo.

Mas, no fundo, a busca deste consumismo mostra uma frustração da sociedade, porque é um consumo alienado. Se o consumo fosse para o bem-viver, as pessoas estariam refinando os seus desejos para realizarem-se de maneira humana.

Na lógica da publicidade, eles manipulam os desejos: o desejo da família feliz, de ter uma namorada, de ter amigos, de viver o prazer, a felicidade.

Tudo isso a gente vê nas propagandas. E são muitas delas. Você vê a imagem da família para vender a margarina, a imagem do namorado e a namorada para vender um desodorante, a imagem de um grupo de jovens para vender um tênis, e por aí a fora.


Mundo Jovem: A gente pode dizer que os jovens estão sendo enganados pela propaganda?

Euclides: Existe um estudo super interessante falando da psicopatologia do subdesenvolvimento. As pessoas ficam agenciadas: consuma isto, compre aquilo... só que elas não têm dinheiro para comprar e consumir. Então aquele desejo insatisfeito causa uma frustração na vida destas pessoas e isto vai ser descarregado de outras formas.

O que a gente vê de casos de jovens que morrem por um par de tênis, é um absurdo. É a idéia de que, se não pode ter aquele par de tênis, não pode ser feliz, não pode se realizar como pessoa. Na verdade, as coisas se tornam mais importantes do que as pessoas. Então se a pessoa tem aquelas roupas, aqueles relógios, aquelas coisas todas, ela tem valor. Aí se você tira aquelas coisas que ela tem, ela já não vale mais nada.

Quer dizer, um relógio, um tênis, uma calça valem mais do que a pessoa. Isto é uma distorção total do que é o sentido da vida. Já não é mais a relação de pessoa-pessoa, já não é mais a tua felicidade, a tua realização humana, mas é o ter ou não ter uma etiqueta numa calça, num tênis que dão ou não sentido à vida.


Mundo Jovem: E as conseqüências disso para a formação do jovem?

Euclides: São graves. A gente vê hoje, por exemplo, uma tentativa de competir no mercado, de disputar, porque é o sentido deste consumismo. Não existe um projeto de vida, em que as pessoas possam, de fato, construir valores, que seja o refinamento da sua singularidade. Félix Guatary fez uma reflexão superinteressante.

Diz assim: há dois caminhos na individuação das pessoas: elas podem ir por um individualismo, assumindo as referências da cultura de massa, onde se renuncia à liberdade para ser aquilo que a mídia diz que tem que ser, para comportar-se do jeito que a propaganda, que a cultura dominante diz que você deve ser.

Ou então, você assume a liberdade de ser você mesmo, de maneira autêntica. E nesse caso você vai para o que ele chama de uma singularização. É a tua singularidade, o teu desejo, é a tua imaginação, a tua criatividade, é tudo isso que tem que desabrochar na tua vida. E é esta tua criatividade, singularidade, que na verdade vai dar um sentido para a tua existência.


Mundo Jovem: E a questão das marcas?

Euclides: O consumo, por exemplo, de refrigerantes e sanduíches de multinacionais gera o seguinte: a pessoa vai comer uma batata frita, e aí vem dentro de uma caixinha, com uma marca daquela rede; aí você abre, e dentro tem um outro envelope com a etiqueta daquela rede. No fundo, a pessoa não está indo lá para comer a batata frita, mas para comer a etiqueta.

Quando alguém usa uma camiseta que tem uma estampa de um super-herói norte-americano, vai dinheiro embora do Brasil para os EUA, simplesmente porque é usada aquela logomarca.

Eu não estou dizendo que não seja importante o comércio internacional. Agora, a juventude tem que se dar conta de que quando ela vai lá naquela lanchonete, porque viu na propaganda, no fundo, uma parte do dinheiro que podia ficar no país, gerando emprego para ela própria, para a família dela, está indo embora do Brasil.

Então a pessoa está contribuindo para gerar desemprego, porque uma parte daquele recurso que poderia ficar aqui, está indo embora. Ou seja, se você comer a mesma batata frita, sem tantas embalagens até para evitar de poluir o ecossistema, você teria condições de gerar postos de trabalho na própria comunidade e o excedente ficaria na própria comunidade, permitindo gerar novas empresas, ativar a economia local.


Mundo Jovem: O que os jovens podem fazer diante desta situação?

Euclides: A juventude tem a vida inteira para viver. E quando a gente tem a vida inteira para viver, tem que parar e pensar assim: o que eu quero fazer da minha vida? Que mundo eu desejo? Desejo continuar destruindo o planeta, como está sendo feito? Desejo destruir os rios, a natureza? Que tipo de relação humana, de equilíbrio, eu quero buscar? E aí sim, a saída é coletiva. As saídas são coletivas. Jovens que estão por aí, desempregados, não sabem o que fazer da vida, organizem-se em cooperativas, vão trabalhar em conjunto.

Se os centros acadêmicos, por exemplo, organizassem cooperativas de consumo nas escolas teriam um consumo tão grande das coisas que eles compram, que eles poderiam ter recursos suficientes para organizar suas próprias cooperativas.

A economia solidária tem outros aspectos. O aspecto ético: é justamente colocar a pessoa em primeiro lugar, nunca as mercadorias, e a partir disso, a gente pensa no produtor, no consumidor, no bem-viver das pessoas.

Quanto ao aspecto político, nós estamos construindo uma outra sociedade, uma outra economia, uma outra cultura de solidariedade, uma outra forma de gestão do poder, uma auto-gestão, onde as pessoas participam, decidem, com democracia, com informação, com conhecimento.

Então, a juventude tem muito para construir aí. Não existe receita nenhuma. A economia solidária é isso. A cada dia nós vamos descobrindo coisas novas, nós vamos criando novas formas de consumir e de produzir para garantir o bem-viver das pessoas. E a juventude tem uma criatividade fantástica, fabulosa, porque ela tem que ser ela própria, usar sua criatividade para construir uma sociedade diferente, com uma vida melhor para todos. Cada um pode colaborar à sua maneira, com autonomia, com liberdade.


Mundo Jovem: E aqueles que estão condenados à “infelicidade” porque não podem consumir?

Euclides: Há uma frase histórica na América Latina: “A maior virtude de um revolucionário é sentir na própria pele a injustiça que se comete contra qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo”. Quando a gente vê uma pessoa excluída do consumo, a gente tem que sentir na própria pele o drama dessa pessoa, como se fosse o drama da gente. E a gente tem que fazer alguma coisa por essa pessoa.

A gente tem que contribuir de algum modo para a geração de postos de trabalho e distribuição de renda. Toda vez que a gente compra um produto de uma empresa de economia solidária, a gente sabe que aquele excedente que está sendo gerado vai ser reinvestido de maneira coletiva, o que vai gerar novos postos de trabalho.

Ou seja, existem alternativas comunitárias, solidárias, que viabilizam formas de as pessoas gerarem renda com o seu trabalho. O que importa é resgatar a dignidade de cada pessoa. Não se trata simplesmente de dar uma esmola a alguém, ainda que em muitas situações a gente não tem outra alternativa a não ser isto mesmo. Mas o ideal é criar uma forma para que a pessoa possa trabalhar e gerar com o seu trabalho, a renda que garanta a sua própria vida.






Consumo: da alienação à solidariedade


Quando pensamos no consumo, podemos considerar no consumo final e no consumo produtivo. O consumo final é aquilo que todos nós praticamos, quando tomamos café, compramos uma roupa, por exemplo.
Consumo produtivo é a compra dos insumos que são necessários para produzir alguma coisa. Por exemplo, se a gente consome um bolo, temos que comprar ovo, farinha, açúcar etc. Pois bem, o consumo final podemos analisar de quatro formas:
* Consumo alienado: esse é o consumo que a mídia propõe: que as pessoas devem comprar, comprar e consumir, e de uma forma absurda, sem ter um sentido para isso. Para gerar lucro, a empresa fica manipulando os desejos das pessoas para vender, vender e ter cada vez mais lucro.

* Consumo compulsório: acontece quando a pessoa entra no supermercado com pouco dinheiro, tentando levar o máximo que puder para casa, e não liga para etiquetas ou marcas: o importante é a quantidade, pois precisa atravessar o mês com aquele dinheiro. O drama do consumo compulsório é quando a pessoa não tem dinheiro nenhum. É quando ela tem que procurar comida na lata do lixo.

* Consumo para o bem-viver: é quando a gente escolhe o produto ou o serviço que a gente precisa, nunca pensando na mídia, na propaganda, mas para garantir o nosso bem-viver. Compra porque aquele alimento é saudável, é saboroso, porque aquela roupa é agradável, confortável.

* Consumo solidário: é quando o consumo, além de garantir o bem-viver do consumidor, também garante o bem-viver do produtor. Por exemplo, se eu compro um produto de uma empresa que explora o trabalhador, destrói o meio-ambiente, eu também estou colaborando para a destruição do meio-ambiente e exploração daqueles trabalhadores.

Porém, se eu compro um produto de uma empresa da economia solidária, estou colaborando para que aquele produtor possa viver do seu trabalho, sem exploração.

O que nós propomos nas redes de economia solidária é justamente a prática deste consumo solidário. Quando as pessoas, praticando o consumo solidário, compram em conjunto, elas podem comprar grandes quantidades e elas pagam mais barato. Por outro lado, os pequenos produtores, como vão vender em grandes quantidades, eles têm condições de manter o seu empreendimento funcionando, porque nós montamos uma rede entre consumo e produção.

Com isso, a rede, articulando consumo e produção, tem condições de gerar novas cooperativas, novas empresas, gerar novos postos de trabalho, pessoas que estavam excluídas vão poder produzir dentro dessas redes e desse modo vão poder receber pelo seu trabalho. Não se trata de consumir mais e mais. Trata-se de consumir para garantir o bem-viver. Esse é o sentido maior dessas redes de economia solidária.


Fonte: Entrevista do Jornal Mundo Jovem publicada na edição 320, setembro de 2001.

sábado, 3 de outubro de 2009

Entrevista Yoani Sánchez - As três mentiras de Cuba


A blogueira cubana diz que as chamadas "conquistas da revolução" são um mito e que só quem nunca morou na ilha pode ter admiração por seu regime


Duda Teixeira

 Alejandro Ernesto/EFE


"Convido quem vê Cuba como um exemplo a vir para cá, sentir na pele como vivemos"



A cubana Yoani Sánchez, 34 anos, foi convidada a falar no Senado brasileiro e a comparecer ao lançamento de seu livro De Cuba, com Carinho (Contexto), em São Paulo. A obra, que chega às livrarias neste fim de semana, é uma coletânea de textos publicados por ela no blog Generación Y, o primeiro a ser criado em Cuba. Na internet, Yoani discorre livremente sobre o cotidiano do povo cubano, a ausência de liberdade e a escassez de gêneros de primeira necessidade – mas, bloqueado pelo governo, seu blog (desdecuba.com/generaciony) só pode ser acessado fora da ilha. Sua vinda ao Brasil, na segunda quinzena de outubro, depende de improvável permissão do governo cubano. Nos últimos doze meses, ela solicitou visto de saída em dez ocasiões para atender a convites no exterior. O visto foi negado em três delas. Nas demais, os trâmites burocráticos demoraram tanto que ela desistiu. Com 1,64 metro e 49 quilos, Yoani é formada em letras e vive em Havana com o filho e o marido. Ela conversou com VEJA pelo celular.

Em discurso a respeito do seu pedido de visto, o senador Eduardo Suplicy citou o que considera três conquistas da revolução cubana: a alfabetização, o aumento da expectativa de vida e a medicina de qualidade. Se pudesse, o que você diria sobre isso em Brasília?

Eu diria que os laços entre países não devem ocorrer apenas entre governantes ou diplomatas. Quando se trata de Cuba, as estatísticas oficiais divulgadas pelas nossas embaixadas não podem ser levadas a sério. Sou defensora da diplomacia popular, aquela que se inteira da realidade diretamente com o cidadão. Não sou uma analista política. Não sou especialista em nenhum tema. Não sou diplomata. Simplesmente vivo e conheço a realidade do meu país. Aqueles que roubam o estado, que recebem dinheiro enviado por parentes do exterior ou fazem trabalhos ilegais vivem melhor que os demais. Uma pessoa que escreve em um blog pode ser condenada sob a acusação de fazer propaganda inimiga. Os outros países não podem repercutir o clichê de que Cuba é uma ilha de música e rum. É preciso olhar para o cidadão. Aqui, nós vivemos e morremos todos os dias.

"Sou totalmente contra o embargo. Não porque ache que as coisas seriam muito diferentes se ele deixasse de existir, e sim porque seu fim acabaria com o argumento oficial de que vivemos em uma praça sitiada e, por causa disso, o povo deve aceitar as mazelas cubanas"


Mas é verdade que 99,8% da população
cubana é alfabetizada?


Antes da revolução, nosso país já ostentava um dos menores índices de analfabetismo da América Latina. Uma das primeiras ações do governo autoritário de Fidel Castro foi ensinar o restante da população a ler e escrever. A questão principal hoje não é a taxa de alfabetização, e sim o que vamos ler depois que aprendemos. A censura controla totalmente o que passa diante de nossos olhos. E isso começa muito cedo. As cartilhas usadas na alfabetização só falam da guerrilha em Sierra Maestra ou do assalto ao quartel de Moncada pelos guerrilheiros barbudos. Meu filho tem 14 anos. Na sala de aula dele há seis fotos de Fidel Castro. Tudo o que se ensina nas escolas é o marxismo, o leninismo, essas coisas. Não se sabe o que acontece no resto do mundo. A primeira vez que vi imagens da queda do Muro de Berlim foi em 1999, dez anos depois de ela ter ocorrido. Foi num videocassete que um amigo trouxe clandestinamente. Para assistir às imagens do homem pisando na Lua, foi necessário esperar vinte anos.

A expectativa de vida realmente aumentou?

É uma estatística oficial, sem comprovação, que não resistiria a um questionamento mínimo feito por uma imprensa livre. Pelo que vejo nas ruas, é difícil acreditar que os cubanos possam sobreviver tantos anos. Os idosos estão em estado deplorável. Há uma avalanche de dados que poderiam ilustrar o que digo, mas estes nunca são divulgados. Jamais fomos informados sobre o número de pessoas que fogem da ilha a cada ano. Ninguém sabe qual é o índice de abortos, talvez o mais alto da América Latina. Os divórcios são inúmeros, motivados pelas carências habitacionais. Como há cinquenta anos quase não se constroem casas, é normal que três gerações de cubanos dividam uma mesma residência, o que acaba com a privacidade de qualquer casal. Também nunca se falou do número de suicídios, um dos mais altos do mundo.

Cuba tem mesmo uma medicina avançada?

O país construiu hospitais e formou médicos de boa qualidade na época em que recebia petróleo e subsídios soviéticos. Com o fim da União Soviética, tudo isso acabou. O salário mensal de um cirurgião não passa de 60 reais. A profissão de médico é hoje a que menos pode garantir uma vida decente e cômoda. A carência nos hospitais é trágica. Quando um doente é internado, todos os seus familiares migram para o hospital. Precisam levar tudo: roupa de cama, ventilador, balde para dar banho no paciente e descarregar a privada, travesseiro, toalha, desinfetante para limpar o banheiro e inseticida para as baratas. Eles não devem esquecer também os remédios, a gaze, o algodão e, dependendo do caso, a agulha e o fio de sutura.

Por que o modelo cubano continua sendo admirado na América Latina?

Cuba só é reverenciada por quem nunca morou aqui. Eu já conheci um montão de gente que idolatrava Fidel e, depois de um mês vivendo conosco, mudou de opinião. Quando as pessoas descobrem como é receber em moeda sem valor, enfrentar as filas de racionamento ou depender do precário transporte público, começam a pensar de modo mais realista. Não estou falando dos turistas que ficam uma semana, dormem em hotéis cinco-estrelas e andam em carros alugados. Convido quem vê Cuba como um exemplo a vir para cá, sentir na pele como vivemos.

Como o governo tem reagido a seu blog?

O portal Desdecuba.com, em que o site está hospedado, está bloqueado há mais de um ano para quem tenta acessá-lo de Cuba. Há algumas semanas, cancelaram o site Voces Cubanas, que possuía vários diários virtuais, incluindo uma cópia do meu. O governo também se esforça para me transformar em uma pessoa radioativa. Membros da polícia política me vigiam todo o tempo e dizem a meus vizinhos, amigos e parentes que sou perigosa. Falam que quero destruir o sistema e sou uma mercenária do império. Em um país onde todo mundo trabalha para o estado ou depende da ajuda do governo, esse método surte efeito. Muita gente já se afastou de mim. Alguns nem me telefonam. É uma luta desigual. Todo o poder de um estado recai sobre mim. Até minha mãe tem sido vítima dessa campanha atemorizante. Eles a pressionam no trabalho. Ameaçam tirar seu emprego. Ela não faz nada especial, que possa desestabilizá-los. Não tem blog. Não é jornalista.

Qual é o trabalho de sua mãe?

Ela preenche formulários em um ponto de táxi.

Como os cubanos veem Hugo Chávez, hoje o maior benfeitor do regime comunista?

Hugo Chávez é o grande responsável pela perpetuação do regime cubano. Cuba seria hoje muito diferente sem esse aporte de petróleo e de dinheiro da Venezuela. O que me preocupa é o componente de autoritarismo e de messianismo de governos como os da Venezuela, Bolívia e Equador. Chávez reprime brutalmente a liberdade de expressão, e temo que os outros sigam essa abordagem, de cujas consequências parecem não ter a menor ideia. Em lugar da linha de Chávez, Evo Morales ou Rafael Correa, prefiro a da chilena Michelle Bachelet e a de Lula. Eles perseguem mudanças menos traumáticas e não criam conflitos viscerais entre grupos sociais.

O presidente Lula tem condenado com insistência o embargo comercial americano a Cuba. O que você acha disso? 

Se o objetivo do embargo era enfraquecer a ditadura, não funcionou. Essa política não afeta os governantes, que continuam vivendo muito bem e importando os produtos que desejam. Tampouco se plantou na ilha uma semente de insatisfação capaz de desestabilizar o governo. A maior parte das pessoas que eram contra o regime já escapou da ilha. Acima de tudo, o embargo tem sido o maior pretexto do governo cubano para justificar o descalabro econômico no país. Diante de cada coisa que não funciona, o partido comunista diz que a culpa é dos americanos. Sou totalmente contra o embargo. Não porque ache que as coisas seriam muito diferentes se ele deixasse de existir, e sim porque seu fim eliminaria o argumento oficial de que estamos em uma praça sitiada e, por causa disso, o povo deve aceitar as mazelas cubanas.

Você acha possível que um dia Cuba libere a viagem de cubanos ao exterior?

Tenho escutado esses boatos, mas é improvável que isso ocorra. O controle de entrada e saída é talvez a mais importante arma do governo para manter a fidelidade ideológica. Imagine o que pensaria meu vizinho, um militante do partido que ganha em moeda nacional, se eu fosse ao Brasil, conhecesse várias cidades e voltasse cheia de histórias para contar sobre o que vi e comi. Seria um golpe muito forte no estado. No mais, essa questão é antiga. Eu até coloquei no blog uma foto de uma revista espanhola de 1991 na qual uma autoridade cubana fala da iminência da liberação das viagens. Já se passaram dezoito anos desde então, e nada mudou.

"Vivo o dilema da mãe cubana: manter o filho aqui mesmo sabendo que um dia ele terá problemas com o governo ou deixá-lo ir embora para realizar seus sonhos. Eu ficaria feliz se Teo não precisasse sair, mas creio que ele será um emigrante"


Caso consiga permissão para vir ao Brasil, você pensaria em ficar e trabalhar aqui?


Não tenho esse plano. A matéria-prima do meu trabalho é a realidade cubana. Não quero e não posso ficar longe das minhas histórias. Se pudesse viajar, eu certamente o faria, mas não seria apenas para o Brasil. Tenho de passar nos Estados Unidos e na Espanha para receber os prêmios que ganhei. Talvez desse um pulo à Alemanha e à Suíça. E só. Faz tempo que aprendi que a vida para mim não está em outro lugar a não ser em Cuba. Para o meu país eu voltarei sempre.

Raúl tem 78 anos e Fidel está à beira da morte. Quem vai assumir o poder em Cuba quando eles forem embora? 

Os futuros governantes de Cuba serão pessoas comuns, que não conhecemos. Não mostram publicamente suas ideias reformistas por medo de que aconteça a elas o mesmo que ocorreu com Carlos Lage, o médico que era vice-presidente e foi condenado ao ostracismo. Quando a velha-guarda deixar o poder, muita gente carismática e talentosa sairá das sombras. Será como na União Soviética. Até assumir a Presidência, Mikhail Gorbachev tinha uma trajetória cinza. Era um funcionário a mais, fiel ao partido. No Kremlin, destacou-se como um transformador.

Seu filho completou 14 anos. Qual é o futuro que o espera?

Teo é um garoto inquieto. Foi criado em clima de tolerância e liberdade. Ele terá muita dificuldade se Cuba continuar assim. Cedo ou tarde, vai esbarrar nesse muro e pensará em sair. Isso me dói muito. Vivo o dilema da mãe cubana: manter o filho aqui mesmo sabendo que um dia ele terá problemas com o governo ou deixá-lo ir embora para realizar seus sonhos. Eu ficaria feliz se Teo não precisasse sair, mas creio que ele será um emigrante.

Como é a situação econômica atual comparada à grande crise ocorrida quando Cuba perdeu a mesada da União Soviética?

A crise contemporânea ainda não se compara com a dos anos 90. Naquele tempo meus pais me mandavam ir dormir mais cedo porque não tínhamos o que comer. Minha magreza é, em parte, uma sequela daquele período de fome. Hoje certamente há uma recaída econômica muito forte. A produção nacional é ínfima e obriga Cuba a importar 80% dos alimentos que consome. O problema é que o país não tem liquidez para comprar no exterior. A queda, contudo, está sendo amortecida pelo turismo, pelo dinheiro enviado por cubanos do exterior e pela possibilidade de exercer uma profissão ilegal.

A liberação de viagens de americanos para a ilha já mudou alguma coisa?

Essa foi uma notícia magnífica para os cubanos, que agora podem reencontrar seus parentes. Essas visitas ajudam também com palavras de estímulo, dinheiro e produtos básicos. Lamentavelmente, nunca fomos tão dependentes dos Estados Unidos.


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