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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Zumbis craquelados, por Greyce Ávila*



As crianças e os jovens de hoje têm toda uma parafernália tecnológica a seu dispor. Até os desprovidos de berços rendados adejam nas lan houses, como moscas no doce. Existem, ainda, os totalmente esquecidos, os marginalizados, a quem falta tudo. São os zumbis craquelados à espera da pedra e da morte.

Há os que cobram e brigam e xingam. Pais, avós, professores, vizinhos, rivais, todos agredidos por pensamentos, palavras, obras e omissões. Com licença, por favor, muito obrigado, nem pensar. Afinal não pediram para nascer. “Lutam por seus espaços!”, dizem uns; “Têm personalidade forte!”, iludem-se outros. Respeito e limites, palavrinhas mágicas esquecidas.

E já nem falo na total falta de espiritualidade na vida das pessoas. Vai longe o tempo em que as famílias iam à missa, ao culto, ao terreiro, não importa o credo. Tempo em que o almoço de domingo era encontro sem desculpa, beijos com molho de macarronada e abraços doces como sobremesa.

Não basta a borracha na consciência que troca o computador e o celular todos os anos, que dá o tênis de marca, mesmo colocando em risco a vida do próprio filho, numa tentativa de compensar o não ser com o ter.

Num mundo onde grassam violência, drogas, pedofilia e tantas outras pragas, onde o som mais bonito é o barulho da chave na fechadura quando os filhos chegam em casa ou o toque do telefone quando, maiorzinhos, dão o sinal de que chegaram bem, o esmeril é necessário. Nossos jovens são diamantes brutos, são joias que transformamos em cascalho. São telas destinadas a obras de arte. Mas que tintas fornecemos? Viram borrões desconexos, pichamos nosso futuro.

Alguém já disse que a grande indagação não deve ser que planeta deixaremos para os nossos filhos e, sim, que filhos estamos deixando para o planeta.

Passamos do “nada pode” para o “tudo pode”. Não conseguimos alcançar o equilíbrio. O meio-termo.

Antes eram repressões, repreensões, proibições. “Isto não se faz!”. “Isto não se diz!”. “Coma, beba, faz bem para a saúde!”. “Não coma, não beba, vai te dar dor de barriga!”. “Varre a casa, lava a louça, já és uma moça!”. “Não, não podes sair, não passas de uma pirralha!”.

Ufa! Foi difícil! Mas valeu a pena.

Nas ruas da minha vida, foram raros os brilhantes. Não dariam para ladrilhar meio quarteirão. Sobrou paralelepípedo, isso sim. Mas não perdi tempo atirando o pau no gato, não briguei nem feri o cravo. Eu não nasci para ser rosa despetalada. Não marchei, não fui presa pro quartel e minha canoa não virou. Não caí, não fui acudida por meu pai ou meu irmão (até mesmo porque nunca me chamei ou me chamaram Teresinha de Jesus) e àquele que dei a mão, logo, logo, mandei passear.

E, hoje, ao olhar uma criança, sempre penso e, se puder, eu digo: não tenhas medo do boi da cara preta, a cuca não vai te pegar, não te chamas sambalelê e não és pobre, pobre, pobre de marré, marré, marré. Ao contrário, com estudo, disciplina, tolerância e respeito pelo outro, mantendo esperança, autoestima e um caráter íntegro, até podes chegar a ser rico, rico, rico de marré de si!

A solução está no equilíbrio dos cinco sentidos. Olho no olho, disposição de ouvir, dialogar, cheirar, tocar nossas crias, acarinhando-as ou, se necessário, perdoem-me os conselheiros tutelares e os psicólogos de plantão, dando-lhes umas boas palmadas. O que realmente importa não é a quantidade de tempo que passamos com nossos filhos, mas, sim, a qualidade do nosso afeto. Do contrário, à primeira dificuldade, ao primeiro “não” dito pelo mundo lá fora, o traficante lhe dirá “sim”. Futuros zumbis craquelados. Nossos filhos não merecem isso!


*Escritora

Fonte: Jornal Zero Hora
Imagem em: pplware.sapo.pt/.../

domingo, 20 de dezembro de 2009

Entrevista: Bjorn Lomborg - Podemos fazer melhor

O principal representante dos céticos diz que o combate ao aquecimento global tem de se basear em tecnologia, e não em mudanças no consumo


Por Ronaldo França, de Copenhague


 Andres Birch/Laif/Other Images

"Não sou um cético da ciência,
sou um cético das políticas
de combate ao aquecimento global"





O cientista político dinamarquês Bjorn Lomborg, de 44 anos, não tem carro. Usa bicicleta ou metrô para se deslocar em Copenhague. Lomborg é um dos mais respeitados entre os pesquisadores céticos em relação aos efeitos catastróficos do aquecimento global. Seus livros e artigos provocam a ira de ambientalistas, mas seus argumentos afiados também são ouvidos com atenção pelos cientistas. Sua descrença se dá em torno da histeria criada acerca do assunto e do que se pretende fazer para solucionar o problema da elevação da temperatura. "Não sou um crítico da ciência que prova o aquecimento. Sou um crítico da política de combate ao aquecimento." Ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA na sede da COP15, em Copenhague.

Qual foi o estrago do "climagate", o escândalo do vazamento de e-mails em que cientistas confessam a manipulação de dados para reforçar a tese do aquecimento global? 

O que está claro é que havia uma inclinação evidente para não compartilhar dados com pesquisadores cujos trabalhos não reforçariam a teoria do aquecimento global. Possivelmente, os dados foram mascarados, o que não significa exatamente uma falsificação.

Sim, mas mascarar dados não é suficiente para invalidar toda a pesquisa? 

Não. É um erro achar que esse escândalo invalida todo o trabalho que os cientistas do clima produziram nas duas últimas décadas. O aquecimento global está aí. É um desafio.

Então, o senhor aconselha a esquecer o episódio e continuar levando seus autores a sério? 

Não é isso. O escândalo não pode ser considerado apenas uma tempestade em copo d’água. O que eles fizeram é muito sério e perturbador. Tem implicações muito maiores. Esses cientistas formam uma máfia que se apossou da questão do clima. Tive muitos problemas com essa máfia do clima. Quando estava escrevendo meu livro, tentei me corresponder com alguns daqueles pesquisadores que detinham dados pelos quais eu tinha interesse. Recebi de volta algumas mensagens em cujo campo de destinatário eu fui incluído por engano. Foram mensagens reveladoras. Elas diziam: "Esse homem é perigoso. Não forneçam nenhum dado a ele. Devemos ter cuidado em não deixar que nossas informações apareçam em pesquisas públicas".

Por que o senhor é cético em relação às previsões sobre o aquecimento global?


Discordo da forma como as discussões sobre esse tema são colocadas. Existe a tendência de considerar sempre o pior cenário – o que aconteceria nos próximos 100 anos se o nível dos mares se elevar e ninguém fizer nada. Isso é irreal, porque é óbvio que as pessoas vão mudar, vão construir defesas contra a elevação dos mares. No entanto, isso é só uma parte do que tenho dito. Sou cético em relação a algumas previsões, sim. Mas sou cético principalmente em relação às políticas de combate ao aquecimento global. O problema principal não é a ciência. Precisamos dos cientistas. A questão é que tipo de política seguir. E isso é um aspecto econômico, porque implica uma decisão de gastar bilhões de dólares de fundos sociais. Em outras palavras, não sou um cético da ciência do clima, mas um cético da política do clima. Basicamente, digo que não estamos adotando as melhores políticas porque não estamos pensando onde gastar o dinheiro para produzir os maiores benefícios.

"ONGs verdes querem mudar a natureza humana, dizendo que não se deve querer ter ou gastar mais. É muito difícil. Prefiro ter tecnologia e fazer o que quiser, mesmo emitindo CO2"

O relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) diz que a humanidade é "provavelmente" responsável pelo aquecimento. O que significa esse "provavelmente"?

Os cientistas estão dizendo que têm 90% de certeza. Que há fortes evidências de que somos responsáveis em pelo menos 50% pela elevação da temperatura. É a partir daí que temos de elaborar as políticas. Se a maior parte dos cientistas diz que algo provavelmente vai acontecer, temos de agir de acordo com essa informação. O que não significa que não se deva garantir financiamento às pessoas que trabalham para descobrir erros nessa proposição. Deveríamos gastar dinheiro com as pesquisas dos céticos justamente para aperfeiçoar a informação que tem dominado os debates.

Com que cenários é razoável trabalhar quando se fala da elevação do nível dos oceanos? 

Quando perguntamos aos cientistas do IPCC qual seria o resultado mais provável do aquecimento sobre o mar, eles disseram que o nível das águas subiria entre 18 e 59 centímetros. Esse é o parâmetro mais aceitável. Não faz sentido trabalhar com cenários de até 6 metros, como quer o Al Gore, ex-vice-presidente americano. Porque é tão improvável que isso aconteça quanto que não haja elevação alguma. As pessoas que fazem projeções catastróficas acreditam que fazer mais alarde estimula a população a agir. Mas vale lembrar: análises e argumentos baseados no pior dos piores cenários induzem ao pânico, e o pânico não é a melhor forma de fazer um bom julgamento. Esse foi o mesmo argumento que George W. Bush usou quando invadiu o Iraque. Ele disse que estava absolutamente certo sobre a localização das armas de destruição em massa, e o resultado foi o que se viu. Por isso prefiro trabalhar com os impactos mais prováveis.

Quais são esses impactos? 

Costumamos esquecer que a maioria dos lugares ricos no mundo conseguirá lidar com o aquecimento global. Sabemos disso porque é o que os holandeses vêm fazendo desde o século XVII. A Holanda tem 60% de sua população vivendo abaixo do nível do mar. O principal aeroporto de Amsterdã fica 3 metros e meio abaixo do nível do mar. É simplesmente uma questão de tecnologia. Ninguém que vai à Holanda fica pensando: "Ai, meu Deus, estou abaixo do nível do mar". Não que isso não seja problemático ou custoso. Mas é um custo que chega a 0,5% ou no máximo 1% do PIB. Então, é bom enfatizar, o Rio de Janeiro nunca vai submergir, tampouco Nova York. Nos últimos 150 anos, o nível do mar subiu 30 centímetros. Pergunte a uma pessoa muito idosa quais as coisas mais importantes que aconteceram no século XX. Ela vai mencionar as guerras mundiais, ou talvez a revolução tecnológica. Sua resposta não vai ser que o nível do mar subiu.

"Tive problemas com a máfia do clima. Quando escrevi meu livro, recebi por engano, de pessoas a quem pedi informações, mensagens que diziam: ‘Esse homem é perigoso, não lhe forneça nenhum dado’"

Fala-se muito do impacto causado pela forma como as pessoas desperdiçam produtos e energia. Como o senhor faz no seu dia a dia? 

Há muita confusão em torno desse debate sobre consumo ético, como se a questão toda se resumisse ao que a pessoa faz. É uma visão torta porque, no fim das contas, o que nós fazemos está profundamente regulado pela forma como a sociedade funciona. Posso pegar um ônibus em vez de um carro na Dinamarca (eu nunca tive carro). Mas não poderia fazer isso nos Estados Unidos. Por isso, acho que reduzir tudo à ideia de que você deve fazer algo sobre seu consumo não é o melhor caminho. Para dar uma noção de proporção, se todos no mundo ocidental trocassem suas lâmpadas atuais por um modelo mais econômico, ao final de um ano as emissões se reduziriam apenas o equivalente à quantidade de CO2 que a China joga na atmosfera em um dia. Acho inútil adotar o argumento de que não se deve agir desta ou daquela maneira porque é imoral. Resumindo: organizações verdes querem mudar a natureza humana, dizendo que não se deve querer ter ou gastar mais. É muito difícil mudar a natureza humana. Prefiro mudar a tecnologia. Assim, poderemos fazer o que quisermos, mesmo emitindo CO2.

As empresas estão fazendo sua parte?


A maioria das coisas que se veem por aí é marketing. É o chamado banho verde. Estão fazendo economia de energia como sempre fizeram, desde o início do século XIX, de quando datam as estatísticas. Todas as empresas, em todos os lugares, inclusive nos Estados Unidos e na Europa, vêm reduzindo o desperdício de energia. Ou usando cada vez menos energia para cada dólar que produzem. O que é uma das maneiras de manter a liderança no mundo dos negócios. Cada vez que conseguem essa redução, anunciam que estão economizando CO2. Mas é óbvio que o que estão economizando são dólares. Não há nada de errado nisso. Só não devemos achar que elas estão salvando o planeta.

Por que o crescimento populacional não é levado em consideração nas discussões sobre clima?
 
Se fosse possível limitar substancialmente o crescimento da população mundial, provavelmente as emissões não aumentariam tanto. Mas você só consegue alterar essa variável dramaticamente num regime autoritário como o da China, onde o governo determina que os casais só podem ter um filho. Não acho que se vá reduzir a taxa de natalidade com informação. As pesquisas mostram que as pessoas agem de forma muito racional sobre o número de filhos que têm. Para os pobres, crianças são fonte de renda. Para os ricos, representam despesa. Então você pode interferir no tamanho da prole tornando as pessoas mais ricas. Independentemente disso, é preciso lembrar que a principal razão para os nascimentos até 2050 não é que muitas pessoas têm muitos filhos, mas porque há muitos jovens que ainda não têm filhos e querem ter. Até lá teremos provavelmente mais 2,5 bilhões de pessoas. Há muito pouco que se possa fazer sobre isso.

Se o senhor tivesse filhos, estaria preocupado com o futuro?

Tenho primos que têm filhos, e alguns dos meus melhores amigos também têm. Claro que desejo que eles tenham uma vida boa. E eles terão. Vão ficar bem, serão ricos. Porque todos os filhos geneticamente gerados que conheço são brancos. Não é com eles que temos de ficar mais preocupados. É com os outros três quartos das pessoas deste planeta, a quem não sou intimamente ligado, que não são brancas, são pobres e vivem hoje uma situação difícil. O paradoxo é que a ONU espera que todos enriqueçam. Os filhos dos meus primos estarão entre quatro e oito vezes mais ricos no fim do século. As pessoas nos países em desenvolvimento estarão 35 vezes mais ricas. A média das pessoas em Bangladesh não será pobre em 2100, mas classe média alta. Ou seja, estamos pensando em ajudar pessoas que serão ricas daqui a 100 anos, mas deixando de ajudar as pessoas pobres que estão aqui agora, hoje. Esse é, para mim, o grande dilema ético: nós nos importarmos tanto com os ricos do futuro e tão pouco com os pobres do presente.

O senhor pode dar um exemplo? 

O caso dos países insulares é claro. Se você olhar para Tuvalu, que tem 12 000 habitantes e pode desaparecer, verá que as pessoas de lá não vão sumir. Elas terão de se mudar, o que será triste. Mas é curioso lembrar que a cada sete horas e meia um número equivalente de pessoas morre no mundo em decorrência de doenças infecciosas facilmente curáveis. São cerca de 15 milhões de pessoas que morrem desta maneira todo ano no mundo. As pessoas de Tuvalu terão apenas de se mudar. Para mim, é muito curioso que estejamos gastando tanto dinheiro para ajudar as pessoas de Tuvalu e fazendo tão pouco pelas 12 000 que morreram nas últimas sete horas e meia. Fala-se muito em aquecimento global. Mas as pessoas de verdade têm problemas mais urgentes. A maioria das pessoas nos países em desenvolvimento, ou três quartos da população mundial, quer saber como vão sobreviver até a semana que vem.

O que se pode esperar das decisões tomadas na conferência? 

Quando 120 líderes se reúnem, eles não podem não fazer um acordo, em torno de números que soam agradáveis. O problema é que não conseguiremos cumpri-lo. Faremos um lindo documento, todos vão brindar com champanhe, depois vão para casa, e nada vai acontecer. Vem sendo assim nos últimos dezoito anos. Não cumprimos o que foi acertado no Rio de Janeiro em 1992. Em Kioto, houve um compromisso legalmente assumido, no qual se prometeu cortar ainda mais, e ainda nada foi feito. Acreditar que Copenhague será diferente me parece uma fantasia política.

Fonte: Revista Veja

domingo, 22 de novembro de 2009

Tecnologia para ricos ou pobres? por  Claudio de Moura Castro


 "Há pouco tempo, só rico tinha telefone. Hoje, empregadas domésticas saem fagueiras das lojas com seus celulares funcionando, prontos para lhes prestar serviços inestimáveis"

Revolução Industrial pesou no lombo do operariado. Marx e Dickens, com ânimos diferentes, descreveram a miséria opressiva de Londres. Mas, a longo prazo, os maiores ganhos foram para esse mesmo proletariado. Para Schumpeter, o desenvolvimento econômico não é mais meias de seda para os ricos – que sempre as tiveram à vontade – mas meias para os pobres. Nos países mais prósperos, um operário hoje tem um nível de conforto que um rico da época de Marx não tinha. Nas nossas paragens tupiniquins, os benefícios para os mais pobres, trazidos pelo crescimento do século XX, foram superiores aos de todos os quatro séculos anteriores. Apenas para ilustrar, a esperança de vida passou de 30 anos para mais de 70. Obviamente, falta muito, não são poucos os excluídos e não se trata de desculpar a horrenda distribuição de renda. Mas, é interessante registrar, os avanços tecnológicos têm sido muito generosos para com os mais pobres. Não que tenham sido pensados assim, mas é o que aconteceu.
A produção de motos (1,5 milhão por ano) corresponde a mais da metade dos brasileiros atingindo 18 anos. Um jovem empregado, morando com seus pais, consegue pagar a prestação de uma motocicleta simples, desfrutando a indescritível sensação de liberdade oferecida por ter seu próprio veículo. O telefone celular é a redenção de quem trabalha por conta própria. Enterro em vala comum para o precário sistema de recados em telefones "de favor". De fato, só rico tinha telefone. Hoje, empregadas domésticas saem fagueiras das lojas com seus celulares funcionando, prontos para lhes prestar serviços inestimáveis.
As fotos de família estavam a cargo dos fotógrafos das praças públicas. Hoje, um celular melhorzinho fotografa tudo, a custo zero. O computador começa a chegar ao povão (em modestas prestações). Por exemplo, o meu borracheiro tem. Quase um terço da população tem algum acesso a ele. O crescimento das vendas é espantoso. Para um universitário, um bom computador usado custa menos do que os livros indicados anualmente pelos professores.

Quantos municípios brasileiros não têm livrarias? Ou, se têm, seu acervo é pífio. Mas, para que livrarias, se há a Amazon.com e suas versões caboclas? Qualquer um pode comprar quase 20 milhões de títulos pressionando algumas teclas. Quem tem Google ri dos 32 volumes da Britânica, ao custo de 1.000 dólares, pois a Wikipedia é mais simpática e de graça. Pobre não tem dinheiro para revistas ou jornais, mas agora está tudo na internet. E pode ler, em português e gratuitamente, milhares de livros de domínio público. O rico mandava o contínuo ou o moleque de recados ao correio para postar uma carta. Agora, o pobre passa um e-mail, igualzinho ao rico. E nenhum dos dois paga o selo. E o preço absurdo dos CDs? Hoje, qualquer música pode ser encontrada na web. E, com um pouquinho de astúcia, sem gastar nada. E passam fagueiros os garis, com seus fones ligados nos tocadores de MP3. Como dito, longe deste ensaísta subestimar a situação de pobreza de grande parte da nossa população. Não obstante, a mensagem deste ensaio é que os avanços presentes da tecnologia trazem benefícios bem maiores para o povão.
Tais elucubrações nos levam de volta ao bando de hippies da Califórnia que inventou os microcomputadores, na década de 70. Era um grupo de contracultura que via na tecnologia um antídoto para a opressão, por parte de uma sociedade impessoal, comandada por grandes empresas e por "big brothers" sinistros. Eles buscavam alternativas tecnológicas libertadoras. Queriam ferramentas que permitissem aos pequenos expressar-se em múltiplas direções. Precisavam de soluções pouco dispendiosas. Com o sucesso dos microcomputadores, quase todos ficaram milionários. Não precisaram das soluções baratas que criaram. Mas as ideias estavam na rua. Suas aplicações foram herdadas por bilhões de pessoas.
Restam duas cogitações. Primeiro, o povo ficou mais feliz com seus novos apetrechos? Ou aumentou sua alienação e angústia? Segundo, ele saberá usar isso tudo? Ou as lastimáveis deficiências em sua educação o impedem de usar o melhor desse potencial criado pela tecnologia para aumentar sua cultura e qualidade de vida?



Claudio de Moura Castro é economista
claudiodemouracastro@positivo.com.br

domingo, 1 de março de 2009

Echno Geração - Para Refletir


Rei morto, rei posto...

Imagem-de-dois-bebes-brincando-com-as-maos-em-um-computador

Toda mudança tecnológica é uma mudança de geração. Todo o poder e todas as conseqüências de uma nova tecnologia só se tornam visíveis depois que aqueles que cresceram com ela se tornam adultos e começam a empurrar seus pais antiquados para a periferia. À medida que as gerações mais velhas morrem, levam consigo o conhecimento do que foi perdido quando a nova tecnologia chegou, e fica só a impressão do que foi ganho. É dessa forma que o progresso disfarça suas pegadas, refazendo perpetuamente a ilusão de que o lugar onde estamos é aquele onde devíamos estar. [Nicholas Carr, em seu livro “A Grande Mudança – Reconectando o mundo, de Thomas Edison ao Google”, da Editora Landmark]

Faça uma viagem breve no tempo. Retorne para o mundo de 15 anos atrás. Se esforce para recordar o seu cotidiano. Lembre-se dos detalhes. Como era o início de seu dia. Hábitos de estudo e/ou trabalho. Alimentação. O que fazia nas horas de lazer. Como se relacionava com as pessoas. Quantos ambientes freqüentava regularmente. Como eram os utensílios e máquinas que usava então. Se praticava atividades esportivas...

Faça estas perguntas para pessoas da geração anterior a sua e peça a elas que retornem 20 ou 30 anos no tempo. Anote todas as respostas. Se possível, peça aos amigos e conhecidos que respondam questões semelhantes. Quanto às pessoas de outras gerações, faça o mesmo e se preocupe sempre em anotar as respostas.

As respostas obtidas vão fazê-lo dar alguns passos na direção da história recente da humanidade. Mais especificamente você estará recordando a vida cotidiana dos brasileiros e, para ser mais exato ainda, do contexto em que vive e mora.

Perceberá que, por exemplo, a alimentação mudou muito. Se antes as mães passavam mais tempo em casa e não estavam tão integradas ao mercado de trabalho, tornando-se fonte de renda complementar [ou principal] ao orçamento doméstico, hoje as mulheres estão cada vez mais emancipadas e, conseqüentemente, a praticidade tomou conta das cozinhas e da alimentação...

Nunca as pessoas se alimentaram tanto em restaurantes ou se utilizaram de alimentos pré-preparados como hoje em dia. As indústrias agradecem. A saúde lamenta. Os feirantes e produtores agrícolas também sentem as perdas... Mas quem há de lamentar, é a prosperidade batendo as nossas portas...

Até muito recentemente era comum que as pessoas se relacionassem literalmente “ao vivo e em cores”, ou seja, se encontrando para bater papo, namorar, se divertir, desabafar, aprender, coexistir... Hoje em dia há um fenômeno mundial chamado “cocooning” [que quer dizer encasulamento, numa tradução livre]. Este termo originário da língua inglesa refere-se às pessoas, na grande maioria dos casos adolescentes ou jovens entre 12 e 30 anos, que estabelecem relações com amigos e namorados apenas a distância.

Seu elo de comunicação são os moderníssimos celulares ou a Internet, através dos quais trocam mensagens, fotografias, filmes ou ainda se falam [pois é... os celulares também servem como telefone!] a distância. Muitos deles demonstram dificuldades para criar vínculos nas escolas, empregos ou mesmo nas famílias às quais pertencem... Aquele negócio de pegar na mão, sair para dançar, convidar para um café ou almoço, dar uns beijos e namorar pra valer está mesmo ficando fora da moda...

Outra coisa que se fazia antigamente e que está caindo em desuso é reunir a turma para jogar bola, andar de bicicleta ou praticar atividades esportivas em grupo. É melhor jogar futebol nas telinhas... Os lances são mais espetaculares... Ronaldinho Gaúcho teve que, outro dia, esclarecer que não é o jogador que faz “chover” no Playstation... Até para ele que é um dos maiores jogadores do mundo o que está acontecendo no mundo virtual está ficando fora de cogitação... Imagine então para os reles mortais, pernas de pau de final de semana... Para que passar vergonha... A Techno Geração resolveu o problema ao simplesmente deixar de jogar no real e adotar o virtual como a sua praia, quadra, campo, estrada...

E o estudar... Mudou? Claro, antes o tempo da reflexão, pesquisa, elaboração de projetos e tarefas, produção textual e/ou leituras era outro, muito mais lento... Basicamente falando, era como se no passado tudo fosse feito a ritmo de tartaruga e, hoje em dia, turbinados pelas tecnologias, as novas gerações andassem como os velozes coelhos... Na fábula da lebre e da tartaruga, no final, quem era o vencedor mesmo?

Precisa saber o que é fotossíntese? Pesquise no Google e em alguns segundos terá respostas, desenhos, infográficos, dados... Equações matemáticas? Não tenha dúvidas, procure auxílio através da web, há professores online que podem auxiliar você... Quer maiores informações sobre os atentados as torres gêmeas em 11 de setembro de 2001?... Os arquivos dos jornais da época estão todos digitalizados e são facilmente acessíveis... É só descobrir onde estão, copiar e colar... Cadê a reflexão? Onde está o rigor científico? Que tipo de formação é esta? Aonde chegarão estes garimpeiros da Web?

Mas, como nos diz Nicholas Carr, à medida que todas estas maravilhas se incorporam ao cotidiano e as gerações passadas que vivenciaram outras realidades se vão, suas lembranças, bases, parâmetros, recursos, relações e padrões vão sendo não apenas abandonados... caem no esquecimento... E se antes seu destino era “mofar” nas páginas de livros de história... hoje estão em algum canto da rede mundial de computadores... Abandonados à própria sorte... prestes a serem “deletados” como arquivos mortos, sem utilidade, desprovidos de valor...

Por : João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=1340

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