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sábado, 30 de outubro de 2010
domingo, 19 de setembro de 2010
O homem que (re)inventou o gaúcho
Para marcar as comemorações do 20 de Setembro, o Segundo expõe as fortes opiniões do folclorista e compositor Paixão Côrtes, conhecido como criador e ícone de uma das manifestações culturais mais controversas do país: o movimento tradicionalista.
Segundo O Nacional:
No último 20 de setembro, o Segundo colocou opiniões diferentes frente a frente, em uma peleia histórica: polêmicos em suas colocações, os historiadores Paulo Monteiro e Luis Tau Golin fizeram um verdadeiro panorama da história do tradicionalismo, seja para o bem ou para o mal. Nesse dia, um nome se destacou: João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes, o folclorista que se tornou conhecido como uma espécie de "inventor" do gaúcho popularizado em todo estado por volta dos anos 1950.
Por isso, este ano trazemos as palavras do próprio, a partir de entrevista cedida especialmente ao jornal O Nacional pela UPFTV. Falando de suas origens na Fronteira, dos costumes de homem do campo mantidos até hoje, das discussões em torno dos avanços da sociedade em contraste com a rigidez das tradições e a forma como encara aqueles que não compactuam com sua visão, o compositor, radialista e pesquisador nascido em 1927 divide com o público um pouco do conhecimento adquirido ao longo de meio século, e que lhe rendeu mais de 50 obras e prestígio no país inteiro, onde é visto como uma espécie de lenda viva da cultura sul-rio-grandense.
O início na Fronteira: grosso, sim, com orgulho
"Na realidade eu sou um produto atávico com relação às coisas do Rio Grande, pois minha mãe tocava vários instrumentos, e o tronco dos Ávila, todos eles tocam ou cantam. Eu canto um pouquinho por necessidade, mas eu danço. Eu só tinha uma irmã, mais jovem do que eu, que já faleceu, mas a relação de amizade com meus ancestrais tanto por parte de Santana quanto de Bagé, sempre estiveram ligados à vida rural, sou produto da vida rural, não sou urbano, sou grosso do campo."
A herança do campo: "se o povo não conhece suas origens..."
O início na Fronteira: grosso, sim, com orgulho
"Na realidade eu sou um produto atávico com relação às coisas do Rio Grande, pois minha mãe tocava vários instrumentos, e o tronco dos Ávila, todos eles tocam ou cantam. Eu canto um pouquinho por necessidade, mas eu danço. Eu só tinha uma irmã, mais jovem do que eu, que já faleceu, mas a relação de amizade com meus ancestrais tanto por parte de Santana quanto de Bagé, sempre estiveram ligados à vida rural, sou produto da vida rural, não sou urbano, sou grosso do campo."
A herança do campo: "se o povo não conhece suas origens..."
"Minha herança é rural, meus avós eram ligados ao campo, me criei nas estâncias. E isso me fez despertar, com orientação dos meus pais, para a importância que representava a revitalização de conhecimento das origens, e isso de uma forma simples, ingênua e pura da cultura do povo. Se o povo não conhece as suas origens, não pode avaliar com a devida grandiosidade as manifestações de outros povos, por isso não basta ficar no galpão, é preciso sair do galpão para encontrar na sociedade moderna aspectos que consolidem as heranças que nós temos e projetá-las no sentido universal, porque só existe importância na nossa maneira de ser se outros povos nos entenderem. Se eles nos entenderem como somos, nós também teremos a obrigação de entendê-los, e é isso que traz a fraternidade universal."
O dia a dia de um tradicionalista
"Eu não tomo café, tomo mate de manhã cedo. Tenho uma vida normal, minha atividade ligada ao meio rural como agrônomo sempre me levou à convivência mais próxima com o homem rural. A sapiência, o conhecimento, a importância de ser, que eles às vezes também não sabiam que eram as heranças espontâneas, eu procurei colocá-las no devido lugar, e faço até hoje. Uma contribuição a fim de que a cultura popular mereça um questionamento ao lado das outras manifestações universais e importantes da ciência, da literatura e das artes.
O Grupo dos Oito: o estado precisava se reagauchar
"Nós chegamos a Porto Alegre, eu era jovem ainda, com 14 anos, e verificamos que todo aquele meio espontâneo do interior estava ausente na capital. Os grandes meios urbanos estavam sumamente influenciados pelo pós-guerra, em especial a influência norte-americana no falar, nos discos, nos livros, nos jornais, nas comidas, tudo era produto dos vencedores da Segunda Guerra. Então achei que o Rio Grande precisava se reagauchar, procurar suas raízes, sua essência profunda, para dizer: nós também temos direito de mostrar nossas coisas. Então formamos o Grupo dos Oito, lá no Colégio Júlio de Castilho, ou seja, isso começou numa escola, e depois passamos para entidade social fora do colégio, e aí se expandiu o movimento progressivamente. Veio debaixo pra cima, não foi de cima pra baixo. Hoje são 4 mil entidades pelo mundo, e giram em torno disso 5 milhões de pessoas. Deixou de ser galponeiro para se tornar universal, e acho que esta é a missão do movimento da cultura sul-rio-grandense."
No tempo em que homem de bombachas acabava na prisão
"Nós não tínhamos o direito de tomar mate numa praça porque era ofensivo à sociedade da elite porto-alegrense vestir-se de bota e bombachas, isso era motivo de prisão. A polícia pegava por atentado aos princípios da alta sociedade. Inclusive eu, me prenderam certa vez. Encarávamos isso como absurdo, pois era uma herança dos nossos antepassados que deveria ser respeitada, um símbolo de momentos de glória, de decisão."
Tradição x evolução: uma batalha legítima
"Temos que procurar analisar isso no contexto da história. O movimento gaúcho tem que acompanhar a modernidade, não pode ficar preso, mas também não pode fazer modismo. Precisa pegar as raízes da nossa tradição e colocar ao lado de outras manifestações. É preciso que a nova geração, aquela que vai formar a nossa sociedade, mantenha isso."
Para aqueles que não concordam (e aos que fantasiam)
"É preocupante, porque isso é uma inconsciência. Estive várias vezes na Europa e vi lá o povo fazendo a revitalização de suas fontes originais, de poder, de trabalho, de reconstituição de vida, e de cultura também. Isso se obtém quando se tem um alicerce forte, duradouro e consciente. Então tem muita gente fazendo modismo com o tradicionalismo, criando fantasias, alterando costumes, me preocupo com a documentação e a verdade através da pesquisa. Não basta fantasiar-se de gaúcho, quando não sabe nem mesmo a origem dessa palavra."
Contra os falsos gaúchos?
"Esse é um movimento muito jovem, tem apenas 60 anos, dentro do aspecto sociológico, as transições se sucedem. E a sequência dos participantes nem sempre está à altura das resoluções do conhecimento. Então é necessário não fazer só gauchada nem concursos. É preciso saber muito de nossas origens, até mesmo para avaliar esses concursos. Eu acho que a postura da pessoa é condizente com a atitude que ela toma, então não me obrigue a botar bota, bombachas e lenço no pescoço, ou tomar chimarrão e comer churrasco. Essa é uma condição minha, natural, espontânea, e não uma obrigação para justificar alguma coisa."
Fonte: Jornal: O Nacional
Imagem: Aqui
sexta-feira, 3 de julho de 2009
AVANÇO DA GRIPE - Vírus deixa chimarrão mais amargo
Autoridades sanitárias na Argentina abrem polêmica ao condenar mate compartilhado
O vírus da gripe que assombra os gaúchos pode atingir um dos símbolos do Rio Grande: a roda de chimarrão, tradição em torno da qual, ao longo dos anos, enquanto a cuia passa de mão em mão, foram tramadas revoluções, realizados negócios, compostas poesias e declarados amores.
Na Argentina – onde já morreram 44 pessoas com a doença –, os médicos da Fundação do Centro de Estudos Infectológicos, Roberto Debbag, e o presidente da Sociedade Argentina de Infectologia, Pablo Bonvehí estão desaconselhando o mate compartilhado por entender que contribui para o alastramento do vírus.
– Seria uma insanidade desaconselhar as rodas de mate – diz o secretário estadual da Saúde, Osmar Terra.
Terra enfileira três razões. A primeira é que o nível da presença do vírus no Rio Grande do Sul é bem inferior ao da Argentina. A segunda é que há um costume entre os gaúchos: o de as pessoas gripadas ficarem fora da roda de mate. Por último, Terra diz que há formas nas quais a transmissão é mais fácil.
– É muito mais perigoso uma mão suja para transmitir o vírus do que o chimarrão – afirma.
Teoricamente, é possível acontecer a transmissão da doença pela bomba de chimarrão, alerta o médico Luciano Goldani, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e chefe da unidade de infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. O vírus é transmitido pelo ar, está presente na secreção respiratória, pode se misturar à saliva e ir parar na bomba do mate, mas ele só sobreviverá se a temperatura do metal estiver abaixo dos 70°C.
Breno Riegel Santos, chefe do Serviço de Infectologia do Hospital Conceição, define a situação que se criaria, caso fosse desaconselhada a roda de mate:
– Seria mais uma contribuição para valorizar um vírus menos perigoso que das gripes comuns.
Paixão Côrtes, folclorista e um dos baluartes da cultura gaúcha, lembra que há uma tradição entre os mateadores do Rio Grande do Sul.
– Sempre que alguém sofre de algum mal, como uma gripe, ele não toma o chimarrão – explica.
Faça chuva, faça sol, Manoel Olmedo, 69 anos, está no Arco do Expedicionário, no Parque Farroupilha, em Porto Alegre, com as suas garrafas térmicas com água quente e uma cuia de mate. Ele integra uma das dezenas de rodas de mate que acontecem pela manhã no parque.
– Tenho essa rotina há mais de 20 anos e não vou interrompê-la agora por causa da gripe – garante.
Na Argentina – onde já morreram 44 pessoas com a doença –, os médicos da Fundação do Centro de Estudos Infectológicos, Roberto Debbag, e o presidente da Sociedade Argentina de Infectologia, Pablo Bonvehí estão desaconselhando o mate compartilhado por entender que contribui para o alastramento do vírus.
– Seria uma insanidade desaconselhar as rodas de mate – diz o secretário estadual da Saúde, Osmar Terra.
Terra enfileira três razões. A primeira é que o nível da presença do vírus no Rio Grande do Sul é bem inferior ao da Argentina. A segunda é que há um costume entre os gaúchos: o de as pessoas gripadas ficarem fora da roda de mate. Por último, Terra diz que há formas nas quais a transmissão é mais fácil.
– É muito mais perigoso uma mão suja para transmitir o vírus do que o chimarrão – afirma.
Teoricamente, é possível acontecer a transmissão da doença pela bomba de chimarrão, alerta o médico Luciano Goldani, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e chefe da unidade de infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. O vírus é transmitido pelo ar, está presente na secreção respiratória, pode se misturar à saliva e ir parar na bomba do mate, mas ele só sobreviverá se a temperatura do metal estiver abaixo dos 70°C.
Breno Riegel Santos, chefe do Serviço de Infectologia do Hospital Conceição, define a situação que se criaria, caso fosse desaconselhada a roda de mate:
– Seria mais uma contribuição para valorizar um vírus menos perigoso que das gripes comuns.
Paixão Côrtes, folclorista e um dos baluartes da cultura gaúcha, lembra que há uma tradição entre os mateadores do Rio Grande do Sul.
– Sempre que alguém sofre de algum mal, como uma gripe, ele não toma o chimarrão – explica.
Faça chuva, faça sol, Manoel Olmedo, 69 anos, está no Arco do Expedicionário, no Parque Farroupilha, em Porto Alegre, com as suas garrafas térmicas com água quente e uma cuia de mate. Ele integra uma das dezenas de rodas de mate que acontecem pela manhã no parque.
– Tenho essa rotina há mais de 20 anos e não vou interrompê-la agora por causa da gripe – garante.
Fonte: Jornal Zero Hora - nº16018 - 02 de Julho de 2009.
sábado, 27 de junho de 2009
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