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quinta-feira, 8 de março de 2012

Entrevista publicada na edição nº 425, abril de 2012. Ideias e ideais de indignação global

Entrevista publicada no Jornal Mundo Jovem na edição nº 425, abril de 2012.
Ideias e ideais de indignação global

Christiana Soares de Freitas
     “É verdade que a maioria dos manifestantes não possui metas políticas definidas, não está organizada em torno de lideranças ou partidos. Mas isso não é suficiente para impedir uma transformação profunda nas sociedades contemporâneas. No mínimo, é o início de um processo de conscientização.”
     Este é o tom da entrevista com a socióloga e professora na Universidade de Brasília, Marcos Sandrini, sobre as manifestações que se espalharam pelo mundo em 2011, entre elas a que ficou conhecida como Ocupe Wall Street.


Christiana Soares de Freitas,
socióloga e professora na Universidade de Brasília.
Endereço eletrônico: cfreitas@unb.br

Mundo Jovem: Qual é a motivação do movimento Ocupe Wall Street e de outros similares espalhados pelo mundo?
Christiana Soares de Freitas: Entre os candidatos à personalidade do ano de 2011 da revista Time, destacaram-se celebridades como a duquesa Kate Middleton. Para surpresa de todos, a “personalidade” eleita foi o manifestante (the protester). Em extensa matéria que justifica a escolha, diversos jornalistas e alguns acadêmicos expuseram a força e o poder dos movimentos sociais ao longo de 2011.

     Se pensarmos em razões comuns a praticamente todos os protestos, podemos citar a busca por maior igualdade de condições entre os indivíduos, mais chances de obtenção de empregos e salários melhores, justiça social e democracia. Portanto existe um conjunto de ideias e de ideais que, de alguma forma, conecta manifestantes de todo o planeta como um efeito-dominó.

Mundo Jovem: Onde começaram essas manifestações?
Christiana Soares de Freitas: O primeiro movimento que observamos ocorreu na Tunísia, no dia 19 de dezembro de 2010. Mohamed Bouazizi, jovem de 26 anos, graduado, sem emprego, vendia frutas e vegetais em um pequeno carrinho empurrado a mão. Quando indagado pela polícia sobre sua licença para aquele trabalho, Bouazizi informou que não a possuía. A polícia confiscou seu carrinho. Desesperado, ele ateou fogo ao próprio corpo.

     Jovens da cidade, ao ouvir e ler sobre a fatalidade, iniciaram protestos contra o sistema político e econômico vigente no país. “Armados” de celulares e internet, eles começaram o movimento que em menos de 40 dias ocasionou a derrubada do então presidente Ben Ali, no poder havia 22 anos.

     A revolução na Tunísia foi resultado de uma grave crise econômica. A taxa de desemprego, entre a população de 15 a 29 anos, estava em 30%. Foram formados, como se disse, batalhões de jovens diplomados. Indivíduos escolarizados supostamente falariam “a linguagem refinada dos direitos humanos, da liberdade, da democracia”, como afirmou a jornalista Sarah Ben Néfissa, do Le Monde.

Mundo Jovem: Que bandeiras são defendidas?
Christiana Soares de Freitas: Após a revolta na Tunísia, populações de países vizinhos, como Síria e Argélia, também começaram a protestar contra a fome, o desemprego e a repressão política. No mês de janeiro, logo após a insurreição na Tunísia e inspirados pelas revoltas nesse país tão próximo, jovens do Egito aderiram às manifestações e aprenderam com os tunisianos a realizá-las. Em entrevistas, muitos afirmaram que as lições aprendidas com o país vizinho não eram apenas inspiradoras, mas práticas também. Possuíam um manual de como transformar uma ditadura em um regime democrático de forma pacífica.

     Alguns meses depois, surgiu o movimento Los Indignados na Espanha. Seu slogan apontava a direção dos protestos: “Nós não somos bens nas mãos de políticos e de banqueiros”. Logo após a Espanha, protestos na Grécia expressavam a indignação da sua população com a situação política e econômica. Enquanto os protestos na Grécia continuavam, movimentos similares espalharam-se por Israel e Inglaterra. Pesquisadores da London School of Economics afirmaram: “Esses manifestantes estão motivados pela raiva contra a pobreza, o desemprego e a desigualdade”.

Mundo Jovem: Como iniciou o movimento Ocupe Wall Street?
Christiana Soares de Freitas: Através do apoio dos meios de comunicação alternativos e da internet, os protestos tiveram início nos Estados Unidos. Mensagens no Twitter chamavam a população, e-mails afirmavam: “A América precisa de sua própria Tahir!” Um outro tweet conclamava a todos abertamente: “A nossa demanda: ocupar Wall Street no dia 17 de setembro. Tragam barracas”. Em poucos dias montou-se um acampamento em um espaço público, sem previsão de desocupação, visando a protestar democraticamente contra a situação norte-americana de crise econômica, desemprego e a ameaça de redução dos custos governamentais com gastos sociais. Com o slogan “Nós somos os 99%”, protestavam sem clareza exata de ações futuras para transformar a situação caótica da qual reclamavam.

     Além desses países, não podemos nos esquecer do México, do Chile, da Rússia, e de tantos que demonstraram a mesma indignação estampada nos rostos cobertos de substâncias para proteção contra gás lacrimogêneo e nas faces de mães desesperadas por perderem seus filhos por uma causa que começava a nascer com intensidade em todo o planeta: a luta por um mundo contra a injustiça social.

Mundo Jovem: Existe uma presença marcante da juventude?
Christiana Soares de Freitas: A faixa etária predominante entre os manifestantes é de 18 a 38 anos. Começam a perceber, nos meios de comunicação, formas de mobilização e de mostrar sua revolta com situações políticas e econômicas que não os favorecem em nada. O movimento contra a Reforma da Previdência, na França, no final de 2010, já pode ser apontado como o início desse momento histórico. Tendo como alvo inicial os aposentados, as manifestações terminaram com a presença maciça de jovens revoltados contra o sistema, segurando cartazes que perguntavam: “Estamos trabalhando para viver ou vivendo para trabalhar?.

Mundo Jovem: Quem organiza? Há lideranças?
Christiana Soares de Freitas: Essa é uma característica interessante dos movimentos: não há lideranças destacadas, previamente selecionadas. Observamos isso com clareza no Ocupe Wall Street. Esse pode ser um problema: ao mesmo tempo em que não ter um líder talvez possa significar mais democracia, essa característica gera uma ausência de planos e metas para transformar a situação a longo prazo.

Mundo Jovem: Como repercute no Brasil?
Christiana Soares de Freitas: No Brasil, assim como em outros países em que observamos as manifestações, percebemos características de um tipo específico de associativismo, observado a partir da década de 1990. Ele resulta de processos de mobilizações de indivíduos não associados, na maioria das vezes, a militantes que seguem diretrizes de alguma organização. Essas formas de mobilização não se configuram como um ativismo de militância político-ideológica, mas um ativismo voltado para questões humanitárias, em que podem ocorrer mobilizações pontuais, como protestos contra a corrupção, por exemplo.

     Em Brasília, tivemos inúmeros exemplos desse tipo de protesto. No início de 2008 foram descobertos atos de corrupção cometidos pelo então reitor da UnB. A principal arma dos estudantes foram os blogs criados para informar os grupos envolvidos e traçar estratégias de ação para o alcance dos objetivos estabelecidos pelo movimento. No dia 13 de abril, após a ocupação da Reitoria pelos estudantes, o reitor pediu exoneração do cargo.

     Exemplo mais recente ocorreu no dia 7 de setembro de 2011: um protesto organizado exclusivamente pelo Facebook levou mais de 20 mil pessoas às ruas de Brasília pela cassação de Jaqueline Roriz. Na página oficial do evento, no Facebook (“Todos juntos contra a corrupção”), 27.206 pessoas confirmaram a participação.

     No Amazonas, jovens de uma pequena cidade da região organizaram a Rádio Japiim, uma rede comunitária que utiliza a internet para informar a população local sobre questões essenciais de saúde. É um meio que conecta a população e que tem poder de fazer com que essa minoria se organize politicamente. A juventude descobriu um instrumento de luta e conscientização de sua população.

Mundo Jovem: São sinais de que o sistema econômico e político atual está em declínio?
Christiana Soares de Freitas: Não necessariamente. Entretanto temos uma certeza: os movimentos começaram, especialmente na Europa e na América, porque a população já não está mais extasiada com as mudanças e os benefícios do capitalismo informacional, especialmente os da primeira década do século 21, quando a internet abria a todos portas inimagináveis de comunicação, informação e interação. Fica claro que os indivíduos, agora, querem mais do que isso. Uma vez dominadas as tecnologias da informação, pessoas das mais diversas nacionalidades começam a perceber que elas podem contribuir para transformações mais profundas no mundo que beneficiem a paz, a democracia e a justiça.

     Tão importante quanto observar um possível declínio do sistema econômico atual é refletir sobre o significado de se fazer política no início do século 21. A expansão e o redimensionamento das relações sociais e das mobilizações espontâneas revelam-se tão ou mais significativas do que a participação por meios democráticos clássicos, como o voto ou a filiação partidária. As novas formas de ação e de mobilização política favorecem e expandem a democracia participativa.


Ciberativismo e transformação social

     O principal fator que faz a internet colaborar imensamente para o sucesso dessas manifestações é a sua possibilidade de transformar qualquer tweet, qualquer post, qualquer vídeo em algo viral. A notícia ou o vídeo da morte de um rapaz em plena praça pública, como em Tahir, por exemplo, pode mobilizar, rapidamente, milhares de pessoas.

     O ciberativismo político, observado nos países das manifestações, foi um movimento em prol da dignidade humana, contra a corrupção, reivindicando liberdade de expressão, emprego e democracia. Uma característica marcante desses movimentos é que não estão relacionados, diretamente, a formas institucionais de mobilização política. Outro traço importante é a possibilidade de ampliação das formas de exercício da cidadania por meio das mobilizações políticas em mídias sociais.

     As ações no ciberespaço, associadas a mobilizações no espaço físico, geram formas específicas de organização dos cidadãos, podendo ampliar seu poder de reivindicação e conquista de direitos. Ou seja, as possibilidades de mobilização sofrem um impulso significativo quando associadas aos recursos da mobilidade tecnológica, principalmente dos celulares com acesso à internet.

     A camada da população que utiliza as tecnologias da informação e comunicação para promover suas lutas e reivindicações tem aprendido a exercer a cidadania nos diversos espaços públicos existentes, inclusive naqueles do ciberespaço. Isso pode vir a colaborar para uma progressiva conscientização política, levando os indivíduos à organização e ao clamor por transformações. É a conscientização política que faz com que as mídias sociais sejam utilizadas para impulsionar mudanças.

     A ideia central aqui sugerida, portanto, é a de que as relações humanas transformam as mídias sociais e são por elas transformadas. Práticas individuais e coletivas orientam o desenvolvimento e a expansão das mídias sociais e, ao mesmo tempo, são por elas orientadas. Existe a possibilidade de ampliação da participação de indivíduos e grupos nas esferas públicas e, com isso, a potencial alteração de padrões de comunicação, de manifestações políticas e de exercício de cidadania. 
Fonte: Jornal  Mundo Jovem - Edição número 425 - Abril/ 2012


sábado, 9 de julho de 2011

O jovem não é indiferente - Entrevista Jornal Mundo Jovem

  Como é ser jovem e ser estudante em nossos dias? Em 2002 a Pastoral da Juventude propôs a Semana do Estudante.
     A ideia é trazer para o centro da escola e do espaço do jovem o debate sobre a educação, os grandes anseios da vida do estudante que se refletem na sociedade e relacionar todas as discussões estudantis com a realidade social. Conversamos com a jovem Tábata Silveira dos Santos.




















Tábata Silveira dos Santos, estudante de Direito, militante do movimento estudantil, ex-secretária e articuladora da Pastoral da Juventude Estudantil.
Endereço eletrônico: tabatapje@yahoo.com.br


Mundo Jovem: O que é ser jovem hoje?
Tábata Silveira: Para saber quem é o jovem é preciso um esforço, pois não é um conceito estagnado. Tudo está em movimento e vários fatores vão interferir. Por um lado, objetivamente falando, o jovem é desempregado ou mal empregado, sofre muita violência, há um grande número de jovens encarcerados, é estigmatizado pela sua condição de ser jovem, há uma sensação de desconfiança etc. E subjetivamente falando, o jovem se sente muito cobrado para produzir resultados, para ser alguém que nem sempre é o que ele deseja ser. E a reação a isso pode resultar numa certa passividade. Não é uma inércia total, mas uma resposta a uma ação externa.

Mundo Jovem: Como é ser jovem estudante?
Tábata Silveira: Penso que ser jovem estudante hoje é estar condicionado por uma espécie de disputa ideológica. Porque temos uma preocupação forte com o futuro. E sinto que o nosso futuro é disputado por forças: por um lado, o mercado de trabalho e, em alguns casos, a nossa família nos pressionando para que trabalhemos. E, por outro lado, temos um monte de sonhos, de vontade de ser o que de fato somos, vontade de seguir os nossos desejos. Ainda temos a televisão e as ferramentas desse sistema que vão nos condicionando a ser aquilo que não queremos ser.

     Outra coisa do ser estudante é que a escola nos impõe uma condição apenas de aprendiz, sem possibilidade de intervir. Somos considerados objetos da educação e não sujeitos dela, por mais que existam estudantes que se movimentem contrariamente a isso. Existem, sim, jovens que se organizam por uma educação diferente, mas sabemos que a massa estudantil de fato aceita a realidade da escola assim como ela é.

Mundo Jovem: Como o jovem gostaria que fosse a escola?
Tábata Silveira: Hoje, estudar é um dever, não é só um direito. Ser obrigado a ir à escola pode parecer chato quando significa entrar para a máquina e fazer parte da esteira dos iguais. Desde o golpe militar de 1964, temos um modelo de escola igual. Talvez nos últimos anos as escolas tenham andado alguns passos. Mas ainda não se promove o encontro, a partilha do saber... as coisas legais que gostaríamos de saber e de ser.

     Há uma tentação de acreditar que todos são iguais e que o jovem não pode nos dar esperança. Mas quando chegamos junto com os jovens, encontramos uma realidade bem diferente do que a televisão mostra. Porque o jovem é criativo, tem uma capacidade fantástica de inventar e surpreender. Não que o jovem seja a grande esperança do mundo; a humanidade inteira deve ser esta esperança. Porém essa discussão serve para reconhecermos o jovem como sujeito capaz de criar. O adulto deve romper com estes muros de achar que só ele detém o lado certo das coisas, e oportunizar ao jovem a sua capacidade de criar.

Mundo Jovem: A escola valoriza as culturas juvenis?
Tábata Silveira: De um modo geral, os estudantes não são convidados a trazer a sua cultura para a escola. Parece que estudamos uma cultura abstrata, que está pairando sobre a realidade da escola. Mas temos avançado, especialmente na escola pública, no sentido de poder acessar políticas públicas e ter mais presente a realidade das comunidades de onde vêm nossas origens. Esta é a proposta da Semana do Estudante: viver e acessar essas raízes da resistência e da diversidade cultural. Ainda se convive muito com o racismo, com a intolerância entre as diferentes culturas. E a escola, apesar de ser invadida pelos meios de comunicação, é um espaço privilegiado de acolher culturas, de aprender com o diferente, de se ver no outro, de ajudar o jovem a se encontrar e também a perceber que o Brasil é muito mais do que aquilo que a televisão mostra.

Mundo Jovem: É possível comparar o jovem de hoje com o dos anos 1960/70?
Tábata Silveira: O contexto é outro. Naquela época, o contexto era mais instigante, porque o inimigo era muito claro. Existia uma lógica mundial de ditaduras e de opressão ao Sul do mundo. Então, havia uma luta pela libertação, contra o Norte. Eu acho que essa confusão que se tem hoje, essa tentativa pós-moderna de colocar na cabeça do jovem que é tudo muito incerto, e que não necessariamente se devam fazer lutas, causa um certo mal-estar.

     Acredito que o movimento estudantil, mais do que nunca, tem um papel fundamental no sentido de romper com a ideia de que a educação deve estar a serviço do sistema que oprime a maioria. Mas é importante dizer que o movimento estudantil, além desse desafio maior, tem lutas específicas.

Mundo Jovem: Quais são essas lutas?
Tábata Silveira: Na universidade, há uma luta pela inclusão racial e social no Ensino Superior, que são as cotas. Apesar de ser uma lei já aprovada, ainda é um problema que requer reconhecimento. Há também a questão da mulher nos espaços de educação. Na verdade, a pauta do dia é contra as opressões, contra a homofobia, contra o machismo, contra o racismo.

     A questão da ecologia também está presente, apesar de ser uma pauta confusa, porque o meio ambiente está sendo afetado pelo sistema capitalista, todos sabem, e o jovem tem se indignado muito com isso, mas não tem alguém para ser “atacado” diretamente. É uma luta difusa e impessoal. Todos sentem que devem fazer alguma coisa, mas ninguém faz.

Mundo Jovem: E há resultados dessas lutas?
Tábata Silveira: Eu entendo que um grande desafio para o movimento estudantil é repensar a sua forma. O problema é o método, não é o conteúdo. E nesse sentido os resultados poderiam ser bem maiores. A cultura é um caminho de diálogo com o próprio estudante. Os grandes atos, as grandes manifestações que acontecem hoje em dia não conseguem agregar tanta gente e por isso são poucas vozes gritando, e que correm o risco de serem ridicularizadas pelos colegas. Transitando pelas escolas e universidades, o que se percebe é a questão da forma do movimento estudantil. Como é que vai fazer para dialogar com os estudantes para ser real e cumprir o seu papel, que é organizar os estudantes para lutarem por uma sociedade diferente?

Mundo Jovem: Então não dá para dizer que o jovem de hoje é indiferente?
Tábata Silveira: Não dá para dizer que o jovem é indiferente. Existe a tentativa de construir essa ideia de que o jovem é apático. Nas avaliações que as Pastorais da Juventude têm feito, a conclusão é que o jovem se incomoda muito porque sofre diretamente as consequências do sistema capitalista. E não tem como uma pessoa que sofre muito ser apática. Ser indiferente é não perceber que as coisas estão acontecendo. A dificuldade que existe é encontrar meios de organização.

     O jovem sente na própria pele, pela violência que existe hoje, principalmente nas periferias, a questão da discriminação, a dificuldade de conseguir emprego. Apesar de as estatísticas mostrarem que o índice de desemprego está diminuindo, parece que há uma certa desconfiança com relação ao jovem.

Mundo Jovem: A internet pode contribuir nas lutas do jovem?
Tábata Silveira: É evidente que a juventude é fortemente atraída pelas tecnologias, pela possibilidade de se comunicar através do computador. E eu acredito que isso é a manifestação de uma resposta a uma pergunta que nos fazemos: quem somos? A internet parece conceder esta liberdade para sermos exatamente o que somos. Podemos selecionar as melhores fotos para que as pessoas nos vejam do jeito que queremos ser vistos. Acho importante o jovem poder se projetar numa perspectiva ideal.

     Por outro lado, a internet traz o aspecto de que nos distancia fisicamente uns dos outros. E para a questão central do estudante, que são suas lutas, a internet é uma ferramenta limitada. Dá para dizer que a internet pode contribuir, mas nada consegue substituir o espaço de debate, de construção coletiva presencial.

Mundo Jovem: É possível mudar a realidade? Que caminhos trilhar?
Tábata Silveira: Os partidos políticos identificados com os movimentos sociais têm muitas pautas urgentes, muitas bandeiras. Há a questão da ecologia, questões raciais, das mulheres, dos trabalhadores etc. E quando se olha para essa diversidade de bandeiras, a sensação para quem é militante de movimento estudantil e de pastoral é de que a luta é dispersa, não é unida. Há uma luta, mas parece que não se sabe especificamente contra o que se está lutando. E isso dificulta a mudança. Por outro lado, há um pressuposto para a mudança. Paulo Freire dizia que é preciso acreditar que é possível mudar.

     Penso que podemos nos inspirar na forma de viver indígena, de sentar na roda, de um não ser mais do que o outro, de se compreender como se fosse uma grande família. Dessa forma, é possível traçar um projeto comum e caminhar lutando para que ele aconteça.

     Então, primeiro, acreditar que é possível mudar; depois, buscar uma unidade entre os movimentos. Se continuarmos numa postura de cada um lutar pelas suas bandeiras, caminharemos cada vez mais para o individualismo, que é totalmente contrário ao projeto de sociedade mais justa. E quando se fala na possibilidade, é importante lutar a partir do lugar onde se está. Quem está na escola, deve lutar dentro dela, sem esperar ficar maior de idade para entrar para a política etc. Quem já está trabalhando, pode lutar por um salário mais justo, pensar num sentido de trabalho humanizador. Todo o espaço é legítimo para a luta.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Política atrofiada: existe solução?, por Rosalvo Schütz


     As pessoas não estão totalmente enganadas quando suspeitam da política! De fato, aquilo que normalmente entendemos por política é permeado de sacanagem, por mais que saibamos que existem pessoas honestas e de boa vontade em seu meio. Realmente temos pouco poder de influência direta nas decisões políticas. A maioria dos partidos são verdadeiras “máquinas” de influência e voto a serviço de um ou outro “figurão”. As leis que nos são apresentadas como resultado da democracia muitas vezes não passam da expressão dos interesses de pequenos grupos muito poderosos. Por outro lado, todos sabem que é na política que se decidem coisas muito importantes para nossa vida: educação, saúde, trabalho, meio ambiente, formas de participação, relações internacionais etc.

     Parece que estamos aprisionados em uma concepção de política muito mesquinha. Talvez devêssemos recuperar algumas dimensões perdidas:

1) Para os gregos da antiguidade, a política era o espaço da liberdade. Ninguém podia ser verdadeiramente cidadão sem participar de um espaço público onde pudesse expressar suas ideias e ajudar a iniciar algo totalmente novo. Hoje, infelizmente caímos para o outro extremo: política parece ser o contrário da liberdade. Dela vêm os limites para nossa liberdade individual. Reduzimos tudo à luta pela sobrevivência e ao consumo, ou seja, àquilo que é próprio da nossa dimensão animal e “deixamos de lado” o que é especificamente humano. Deveríamos recuperar esta dimensão virtuosa da política para nos tornarmos mais humanos.

2) Os antigos valorizavam muito a liberdade pública, a ponto de ignorarem o indivíduo. Nós, modernos, valorizamos muito a liberdade privada, a ponto de não percebermos mais a importância das comunidades políticas. Por isso, talvez, estejamos enfraquecendo as estruturas e os valores comunitários. Mas é justamente na esfera comunitária que se constitui o sentido de nossas vidas e a base para a ação política mais ampla. Nem a liberdade dos antigos nem a moderna parecem suficientes: precisamos inventar uma nova forma.

3) Fomos levados a pensar que democracia é sinônimo de sistema parlamentar e da possibilidade de votar. Na verdade, democracia somente existe se a vontade do povo coincide com a vontade do governo. Mas como garantir esta coincidência se votamos em alguém que fica nos “representando” por quatro anos e fazendo o que bem entende? Reduzir nossa atuação política a ações individuais - como o voto - é uma armadilha que só fortalece aqueles que já estão “por cima”. Precisamos de espaços e movimentos coletivos em que possamos sonhar, projetar e defender o mundo que queremos.

     Certamente o preconceito das pessoas contra a política tem um fundo de verdade. Mas este preconceito não é contra a política como um todo, mas contra a política atrofiada que nos é apresentada. Este preconceito, no entanto, pode levar à acomodação e à indiferença; a enfraquecer a democracia e fortalecer o domínio de alguns sobre muitos. Ele precisa ser superado. Ao atentarmos para dimensões da política que foram historicamente “esquecidas”, vemos uma luz no fim do túnel. Estamos convidados a contribuir na sua reelaboração e vivificação!

Rosalvo Schütz,
professor de Filosofia, Toledo, PR.

Fonte: Jornal Mundo Jovem 
Imagem: Aqui 

domingo, 15 de agosto de 2010

O melhor da política é interferir nas decisões?

Pedro Ribeiro de Oliveira   
"  A maioria das pessoas diz não gostar de política. Ela é considerada sinônimo de falcatrua, corrupção e barganha de interesses privados.
     Como se formou esta opinião sobre a política? Será ela verdadeira? Quais as consequências desta visão? Será que podemos mudar isso? O processo eleitoral em curso pode contribuir com a mudança ?"


Pedro Ribeiro de Oliveira,
sociólogo, professor de Ciências da Religião na PUC de Minas Gerais.
Endereço eletrônico: pedror.oliveira@uol.com.br


Mundo Jovem: Em que contexto se realizam as eleições de 2010?
Pedro Ribeiro de Oliveira: Temos que distinguir eleições e política. A eleição é apenas um elemento do processo político. É uma parte importante em que escolhemos entre os candidatos que os partidos já escolheram na convenção. Veja as eleições para a Presidência da República: para a continuidade do atual governo (Lula), o ideal é uma eleição de tipo plebiscitário, ou seja, que defina se o povo prefere que o governo continue com o PT ou volte aos tucanos (PSDB). Se outros candidatos decolarem, em lugar de eleição plebiscitária teríamos um verdadeiro debate político sobre os rumos do Brasil.

     Sentimos, hoje, a busca dos setores dominantes de fazer uma eleição plebiscitária, porque para eles Dilma ou Serra significa mais ou menos a mesma coisa: não se mexe no agronegócio, nos bancos, na dívida pública, não se mexe na política econômica. Para o povão, o que faz um pouquinho de diferença são as políticas sociais. Para a democracia, seria bom que houvesse mais candidatos fortes. Teríamos então uma eleição politizada, o debate político nacional seria mais politizado.


Mundo Jovem: O contexto econômico e político mundial interfere nas eleições?
Pedro Ribeiro de Oliveira: Falando da conjuntura política, não mais da eleitoral, podemos dizer que estamos vivendo um momento muito difícil. Estamos numa crise sistêmica do capitalismo. A hegemonia americana vai terminar e passaremos para outra. Pressupondo que o capitalismo possa continuar, seria a hegemonia chinesa? Tudo indica que o sistema capitalista produtivista e consumista, que está consumindo todos os recursos naturais do planeta, não vai poder continuar.
     Teremos uma crise ecológica grave: estamos caminhando para isso. Podemos atualmente fazer uma política de fazer de conta que a crise não vem, e vamos tocando dentro do sistema capitalista produtivista, consumista, e vamos continuar. Vamos construir a Usina de Belo Monte, a Usina do Rio Madeira, continuar apostando no agronegócio e vamos ver no que dá. Ainda não tem ninguém dizendo: “Vamos nos preparar para a grande crise, politicamente, socialmente, culturalmente, economicamente, porque ela vai chegar”. Teríamos, atualmente, que pensar numa alternativa para a crise. Isto já existe em nível local. Existem pequenos grupos, a Economia Solidária etc., mas ainda não temos um projeto político nacional para fazer frente a essa crise mundial.

Mundo Jovem: E adianta a reação do Brasil contra os poderosos do mundo?
Pedro Ribeiro de Oliveira: No mundo inteiro tem gente “remando” contra essa maré da crise. Acredito que o Brasil é um dos poucos países que teria condições de propor uma alternativa, pelos seus recursos naturais, pela extensão geográfica, pela população, pela experiência, pela cultura. Claro, se o mundo vai para o desastre, o Brasil não está livre do desastre. Mas se o Brasil criasse um projeto político alternativo, poderia se preparar para a crise e fornecer a receita para outros.

Mundo Jovem: O que dizer aos jovens? Devem votar, podem ter esperanças?
Pedro Ribeiro de Oliveira: Sem dúvida, vale a pena votar. A fé dos jovens de hoje, na política, é diferente de décadas passadas. Mas é importante participar da vida política do país, é importante votar. De qualquer forma, todos participamos da política pelo lado do imposto. Quando pagamos imposto estamos mantendo a política, o Estado. O imposto, no Brasil, é sobre o consumo. Pagamos imposto em tudo e a toda hora (conta de celular, consumo num bar etc.). Portanto participamos da política, queiramos ou não, no que é pior: pagar imposto. Mas a parte melhor da política é poder interferir no que fazer com o dinheiro recolhido pelos impostos. No sistema que temos hoje, a forma é escolher um(a) candidato(a) que dê um destino justo a esse imposto obrigatório. Então, quanto mais a gente participar, maior a possibilidade de ter alguém que faça do nosso dinheiro algo com que estejamos de acordo.

Mundo Jovem: O povo está aprendendo a votar?
Pedro Ribeiro de Oliveira: Sim. Mas a corrente que nos faz desaprender a votar é tão forte que se aprende de um lado e se desaprende de outro. Por que a justiça eleitoral não esclarece que no voto proporcional, como é hoje, seu voto vai primeiro para o partido e depois para o candidato? O voto proporcional é diferente do voto majoritário. Muita gente continua votando na pessoa, pensando que não está dando voto para um partido. Essa é a intenção deste eleitor quando vota, mas o voto dele vai para o partido. Nos falta, então, conhecer as regras básicas. Como é que um partido seleciona seus candidatos? Essas informações não saem na imprensa. É claro que com o processo eleitoral nós estamos aprendendo, mas o essencial mesmo, que são as regras do jogo político, continuamos a desconhecer.

Mundo Jovem: Então a nossa democracia política eleitoral é centrada nos partidos?
Pedro Ribeiro de Oliveira: A nossa democracia é federativa e centrada nos partidos. Os nossos Estados não são tão diferentes uns dos outros para dizer que a bancada do RS é inteiramente diferente da bancada de SE ou do AM. Em relação aos senadores, não deveriam defender somente os interesses do seu Estado. Então, nossa realidade não é federativa, mas nossa estrutura política, pela Constituição, é federativa. Isso é uma distorção. Por que não podemos votar para senador(a) ou deputado(a) federal numa pessoa conhecida, mas que está em outro Estado, se no funcionamento do Congresso, tanto faz o Estado que o(a) elegeu?
     A segunda distorção é que os partidos políticos, de fato, são legendas eleitorais. Nem ao menos são nacionais, pois em cada Estado um mesmo partido torna-se diferente. Eles não têm uma diversidade programática, uma identidade taxativa. O PT já teve, mas perdeu. Talvez tenha em termos locais, mas em termos nacionais, não. Quando alguém expressa a desilusão para com as eleições, dá para entender, porque as eleições estão longe de representar a nossa realidade. Agora, se as pessoas não participarem, aí mesmo é que estarão fazendo papel de “trouxas”, somente pagando impostos. Quem não vota, acaba não tendo outro papel dentro da política, a não ser pagar impostos.

Mundo Jovem: Seria recomendável frisar a importância de participar de partidos políticos?
Pedro Ribeiro de Oliveira: Sem dúvida. Infelizmente as bancadas verdadeiras, reais, se escondem através de legendas eleitorais, que são os partidos políticos. Apesar de tudo, no Brasil, como a política se faz através dos partidos, se quisermos ter influência no poder público, temos que participar dos partidos. Existem também outras organizações que contribuem muito nas discussões políticas: igrejas, movimentos sindicais e associações. Mas quer gostemos, quer não, na política, o partido político é fundamental. Se possível, entre, participe, debata, ajude a escolher um(a) candidato(a) e trabalhe para esta campanha. É um aprendizado único de cidadania, o qual só se aprende fazendo.


Mundo Jovem: Seria importante as escolas promoverem debates acerca da política?
Pedro Ribeiro de Oliveira: Muito importante. Se as escolas puderem, além de fazer o debate, pelo menos dar esclarecimentos sobre as questões: voto proporcional e voto majoritário, como se elegem os deputados estaduais e federais, estudar o processo. Mais do que o debate com os candidatos, pelo qual a escola acaba virando um palanque, seria interessante fazer um debate entre os alunos, provocando a argumentação sobre por que votar num(a) determinado(a) candidato(a), e eventualmente também debater com os pais, num debate político bem organizado, com regras e tudo mais.

Fonte: Jornal Mundo Jovem 
Entrevista
publicada na edição nº 410, setembro de 2010.

sábado, 24 de abril de 2010

Confira o artigo e um vídeo produzido pelo Mundo Jovem sobre o Analfabeto político

Por que participar da política?

Nove entre dez jovens consideram a política uma atividade para espertalhões que ganham uma fortuna para enganar o povo. Eles não deixam de ter alguma razão. De fato, pode-se contar nos dedos os políticos que se devotam realmente ao serviço do povo.

A reação normal de quem tem essa visão negativa da política é ficar fora dela. No máximo comparecer para votar, uma vez que o voto é obrigatório. Apertou o botão da urna eletrônica, tchau! Sair voando sem saber até o nome do candidato em quem votou.

Esta atitude é a que mais interessa aos malandros da política, pois o desinteresse leva à ignorância política e esta é um prato feito para quem deseja praticar falcatruas com o mandato popular.

Nestas alturas, sei que o jovem leitor está me questionando: “OK. Você diz que eu devo me interessar pela política. Mas o que eu perco não tendo o menor interesse por ela?”. Boa pergunta, que merece uma resposta por partes: quem são os políticos; o que fazem; como os safados prejudicam os cidadãos; como se pode evitar isso.

Quem são os políticos?

A palavra político, na linguagem comum das pessoas, designa os homens e as mulheres que ocupam cargos no Estado: vereadores, deputados, senadores, secretários de estado, ministros, governadores e Presidente da República. Essas pessoas - são milhares delas em todo o Brasil - têm o poder de influenciar na atuação dos órgãos do estado brasileiro. Participam da elaboração das leis; da distribuição do dinheiro arrecadado com os impostos; da gestão das empresas do Estado; da fiscalização do funcionamento das repartições públicas que prestam serviço à população (SUS, hospitais públicos, delegacias de polícia etc.).

Suspenda agora a leitura do texto e veja se consegue identificar uma única atividade da sua vida inteiramente fora do âmbito da política.

Não me venha com o argumento de que o Estado não interfere na sua fé religiosa, nas suas leituras, no seu pensamento. Interfere e muito. O Estado tem uma delegacia para fiscalizar os cultos religiosos, e outra para manter a ordem política e social - esses órgãos acompanham a atividade de padres, freiras, pastores, pais e mães de santo, militantes de pastorais etc. E abrem processos contra aqueles cuja pregação afeta a ordem estabelecida. Além disso, o Estado censura livros; peças de teatro; filmes. E fixa, através de suas políticas econômicas, o preço desses produtos. Quantas vezes você quis ler um livro, assistir a uma peça teatral e não pôde por causa do preço?

Finalmente, não é exato que você tenha uma liberdade absoluta de pensar. Você pensa com a informação que chega ao seu cérebro. Ora, é o Estado que controla - às vezes abertamente, às vezes indiretamente - toda a informação que chega até você.

Estar junto para entender

Não tenha, pois, nenhuma dúvida: você perde muito, direta ou indiretamente, quando o Estado está nas mãos de pessoas incompetentes ou desonestas, pois, de algum modo, você está sendo prejudicado.

Daí a necessidade de interessar-se pela política, de aprender o suficiente para entender como ela funciona e de tomar parte efetiva na escolha dos governantes.

Não é fácil atender a essa necessidade. A política é uma atividade bem complicada e quem participa dela sem o conhecimento adequado corre sério risco de ser enganado. Por isso o primeiro passo para participar consiste em entender seu funcionamento.

Ninguém consegue entender de política sozinho. Não adianta ler jornais e acompanhar os noticiários e comentários da rádio ou televisão. São todos enviezados. O jeito é formar um grupo para ampliar as fontes de informação e para dispor de opiniões diversas a respeito do significado das informações recebidas.

O grupo não irá muito além das pernas se não se dedicar à leitura de livros teóricos que explicam o funcionamento da sociedade e, portanto, dos partidos políticos. É através da leitura desses livros que você aprenderá a distinguir os políticos fisiológicos (que buscam apenas satisfazer seus apetites por dinheiro, prestígio ou poder) e os políticos ideológicos (os que fazem política por convicção). Conhecendo as ideologias, você pode optar pela que mais se aproxima dos valores que considera importantes. Isso lhe fornecerá um critério para participar inteligentemente do processo político.


O analfabeto político
(Bertolt Brecht)

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo
que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política,
nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.


Que sentimentos este texto do dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht desperta em nós?


Assista o vídeo produzido pelo Mundo Jovem:


Questões para Debate

1 - O que você pensa dos políticos e por que pensa assim?
2 - Você conhece políticos que podem ser exemplos positivos?
3 - De que forma, entre nós, podemos estudar e debater sobre política?

Fonte: Jornal Mundo Jovem
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