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sábado, 26 de junho de 2010

O Brasil e as leis, por Ademar Pedro Scheffler*

A “produção” e emissão de leis no Brasil é profícua, certamente em busca da medalha de ouro, já que o país ostentaria, apenas, o título de vice-campeão mundial em número de leis. Nem mesmo os especialistas, também envoltos nesse verdadeiro “cipoal legislativo”, sabem quantas são as leis efetivamente vigentes no país. Mas, só em âmbito federal, chegam a quase duas dezenas de milhares, floreadas por mais de 120 mil decretos e cerca de 1,5 milhão de outros normativos. Por isso, o Brasil não precisa de mais leis, basta aplicar e cumprir as existentes. De que adiantam mais e mais leis se a cultura do respectivo cumprimento continuar a mesma?

Aliás, a interpretação das normas legais sempre levou em conta o chamado “espírito do legislador”, para que a sua aplicação não fosse desvirtuada dos motivos que o levaram à respectiva edição. Esse princípio tão festejado pelos aplicadores do Direito, entretanto, sofreu duro golpe recente, quando o legislador, depois de parir a chamada “lei da Ficha Limpa”, consultou o Judiciário (TSE) sobre se a sua “intenção era, ou não, de que a lei valesse para a próxima eleição”.

Seria muito mais eficaz se o Legislativo e o Executivo, em todos os âmbitos, adotassem e praticassem a “ética na política e na administração”, que tanto pregam, em vez de praticarem a “ética da política”. A corrupção, aliás, chegou a patamares preocupantes e inaceitáveis. Por outro lado, enquanto “comissões de notáveis” estão a gestar novos códigos na esfera penal e de processo civil, que continuam a favorecer devedores e réus, seria muito mais conveniente e oportuno que o Judiciário olhasse mais para dentro de si próprio e se preocupasse com a qualidade das decisões judiciais, a gestão dos órgãos jurisdicionais em toda as instâncias e a qualificação de magistrados, especialmente sobre a sua conscientização de que a conciliação e o adequado desempenho dos órgãos que presidem são de sua responsabilidade e iniciativa.

Finalmente, oportuno dizer que a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), essa instituição fundamental para a manutenção e o aperfeiçoa- mento do Estado democrático de direito, tão empenhada na moralização da coisa pública e privada, de atuação importante e imprescindível, inclusive em “afastamentos” de presidentes, governadores e outros gestores públicos, também deve se preocupar mais com o chamado “dever de casa”, olhando de forma mais crítica e efetiva para dentro de si própria, especialmente em relação às questões éticas e atuação de seus inscritos, já que são eles que, juntamente com o Ministério Público, têm a função institucional de atuar na garantia dos direitos e deveres individuais e coletivos da sociedade.

Portanto, menos leis, menos demagogia, menos discursos e mais ética, seriedade e comprometimento de todos com o Brasil.

*Advogado

Fonte: Jornal Zero Hora
imagem em: mazelasdojudiciario.blogspot.com/2009/12/inse...

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Educação, Copa e eleição – tudo a ver!, por Odoaldo Ivo Rochefort Neto*


Nosso país recebeu em 2010 várias notícias preocupantes em relação a uma das áreas estrategicamente decisivas para o seu desenvolvimento, a educação. Quase metade dos alunos que prestaram o Enem em 2009 teve notas inferiores à média, em todas as áreas avaliadas. No ranking do Índice de Desenvolvimento Educacional da Unesco, entre 128 países o Brasil ocupa a humilhante 88ª posição. Pior colocado que nações menos desenvolvidas do que nós. Sem educação, não haverá desenvolvimento. Uma estrutura precária de ensino será fonte de inevitável atraso econômico e social.

É preciso reformular imediatamente a formação de nossos professores. Infelizmente, esta categoria está entre as menos valorizadas em termos salariais e os cursos universitários são os menos procurados, a ponto de não abrirem novas turmas de licenciatura por falta de alunos inscritos. Enquanto isso, na Coreia do Sul e na Dinamarca, a licenciatura rivaliza com cursos de Medicina e Direito. Cabe ao poder público e à sociedade brasileira reconhecer e valorizar os desafios que os professores enfrentam diariamente. No Brasil, nem descontar do Imposto de Renda o que é investido na educação de nossas crianças podemos. Mas cirurgia plástica pode.

É fato que o dinheiro público é utilizado por decisões políticas. As obras do PAC estão aí para comprovar isso. Agora, eu lhes pergunto, em quanto tempo construímos uma estrada ou uma hidrelétrica. Alguns meses, talvez um ano! E quanto tempo demoramos para formar uma criança em um profissional qualificado? Quinze, 20 anos? Estamos diante de uma situação que não se transformará de uma hora para outra. Educação é uma emergência nacional. Se a questão educacional não for resolvida, as chances que se abrem para o Brasil poderão ser enfraquecidas ou postergadas. Como diz uma letra dos Engenheiros do Havaí: “Vivemos num país sedento num momento de embriaguez”.

É ano de Copa do Mundo e uma coisa me vem logo à cabeça. Como um país inteiro para para assistir a um jogo da Seleção, grita em uma só voz, e não vibra com a mesma intensidade para pedir mais saúde e educação, o fim da impunidade, acabar de vez com a corrupção, o fim da violência. Alguém pode me explicar isso? É ano eleitoral. Se você perguntar por aí, muita gente sabe a escalação completa da Seleção, a posição que cada jogador ocupa, em que times atuaram etc. Agora, eu pergunto: você sabe quem são todos os candidatos que concorrem à Presidência da República? Qual é o partido de cada um? O que eles fizeram no passado? Em quem você votou na última eleição?

É propício que se renove o debate e repensemos nossas ações enquanto sociedade civil. Tenho consciência de que cada um de nós nasceu para fazer história. Somos capazes, sim, de nos reunirmos para assistir à Seleção e somos capazes, sim, de construir um Brasil melhor e mais justo para todos.


*Professor do Instituto Federal do Rio Grande do Sul – Campus Porto Alegre

Fonte: Jornal Zero Hora

sábado, 8 de maio de 2010

A metade do caminho, por J. R. Guzzo

 "Basta pensar durante cinco minutos sobre certas realidades paraconstatar o disparate que é considerar o Brasil atual um país bem-sucedido"

Está entre os maus hábitos permanentes do Brasil a ilusão de achar que é possível conviver, sem maiores prejuízos, com a combinação com a qual tem convivido até hoje – uma geleia geral que junta a incompetência da máquina pública na execução dos seus deveres, a indiferença de um eleitorado sem interesse, paciência ou informação para acompanhar o que os políticos fazem com o seu dinheiro e os vícios de um sistema político que está entre os piores do mundo. O sentimento da maioria é que não compensa esquentar a cabeça com esse vale de lágrimas, quando o dia a dia tem assuntos mais urgentes para o cidadão resolver. Mas o pouco-caso com a realidade, infelizmente, sempre cobra um preço alto. Não se trata de uma cobrança que vai ficar para o futuro, como frequentemente se imagina. O preço já está sendo pago há muito tempo, e tende a ficar cada vez mais alto. Basta ver tudo de que o Brasil de hoje precisa com urgência, e não tem – e tudo o que tem de sobra, e de que não precisa.
Há um bocado de esperança, diante dos avanços reais que o país tem feito, de que, com perseverança, paciência e uma atitude mental afirmativa, dá para ir tocando as coisas; um dia, lá na frente, o grosso dos problemas estará resolvido. Existem fatos de sobra para demonstrar que o Brasil, neste momento, está muito melhor do que já foi em qualquer outra época do passado. Está melhor em questões essenciais, não em aparências, e está melhor de verdade, não porque quem diz isso é a propaganda boçal dos governos – até porque boa parte desse progresso não foi feita pelas autoridades constituídas, mas apesar delas. O problema é outro. Podemos ter crescimento de 6% ao ano, reservas de 250 bilhões de dólares e mais uma promoção no rating das agências internacionais que avaliam nossa capacidade de pagar dívidas. Podemos entregar, como acaba de ocorrer, 25 milhões de declarações de renda à Receita Federal. Podemos nos firmar como a sétima ou a oitava maior economia do mundo. Podemos ter e ser mais uma porção de coisas, mas vamos continuar sendo um país subdesenvolvido enquanto se mantiver essa situação em que tão pouca gente, na população brasileira, tem acesso real a uma vida efetivamente melhor.
Basta pensar durante cinco minutos sobre certas realidades para constatar o disparate que é considerar o Brasil atual um país bem-sucedido, quando 50% da população, por exemplo, não é servida por rede de esgotos – e, principalmente, quando uma calamidade desse tamanho é tratada com a maior naturalidade do mundo pelos outros 50%, em especial os que têm a obrigação de resolver o problema. O assunto, na verdade, é visto como uma tremenda chatice. Nem poderia mesmo ser diferente, quando se verifica que ainda não apareceu, em toda a história política do Brasil, um único homem público bem-sucedido que tenha elegido como prioridade em sua carreira a luta por instalação e tratamento de esgotos. Só um débil mental seria capaz de agir assim; pela sabedoria política em vigor, obra que não se vê é obra que não existe. Estamos avançando, é claro. Em 510 anos já se conseguiu chegar à metade do caminho; um dia, se Deus quiser, todos estarão atendidos. Mas a única pergunta que interessa, nessa e em outras questões do mesmo tipo, é: quando? Para os quase 100 milhões de brasileiros que não têm esgoto, faz toda a diferença.
Não se trata de uma questão isolada. Recentemente, num artigo que es-creveu para VEJA, o professor Gustavo Ioschpe observou que só 25% da população brasileira alfabetizada está em condições de entender um texto como aquele. Não lidava, ali, com nenhum pon-to de trigonometria avançada; era apenas uma página de revista, escrita em português corrente e que deveria ser acessível a todos os que completaram os primeiros oito anos de escola. É uma excelente notícia para os políticos, a começar pelos que mandam no atual governo – vivem se gabando de que o "povão" não lê nada do que a imprensa escreve e, portanto, as críticas que recebem não têm efeito nenhum. Mas, para os 75% que não conseguem entender o artigo do professor Ioschpe, essa situação é um desastre. É para eles que estão reservados, no Brasil que cresce a 6% e tem "grau de investimento", os empregos com trabalho mais pesado, os piores salários e, em vez de carreiras profissionais, ocupações sem futuro algum – isso quando conseguem emprego, num mercado em que competem em desvantagem cada vez maior.
Dá para ir levando assim, é claro. Mas, como informa o artigo que tão poucos brasileiros conseguem ler, não existe nenhum país desenvolvido no mundo com o abismo social do Brasil. 

sábado, 1 de maio de 2010

A língua do google

A tradução quase instantânea de textos para 52 línguas é apenas o primeiro passo rumo a um comunicador universal em que o idioma deixa de ser barreira e passa a ser o portal do grande encontro das culturas


Jadyr Pavão Júnior


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As diferenças de idioma são um divisor da humanidade. Há dois caminhos para contornar essa barreira. Num deles, busca-se um retorno à linguagem única que, segundo a Bíblia, existia antes da Torre de Babel. Ao longo da história, algumas línguas de fato procuraram desempenhar esse papel. Por exemplo, o latim, na Antiguidade, ou o inglês, nos dias de hoje. Línguas artificiais como o esperanto, criado no século XIX pelo polonês L.L. Zamenhof, também se candidataram a realizar essa tarefa. O outro caminho é o da tradução universal. Em princípio, seria coisa de ficção científica. O mais insólito modelo de tradutor universal aparece no livro O Guia do Mochileiro das Galáxias, dos anos 70: um peixinho é introduzido no ouvido do protagonista e verte frases alienígenas para o inglês. Na série Jornada nas Estrelas, a tecnologia entra em cena e um dispositivo permite a conversa não somente entre "terráqueos", mas entre habitantes de diferentes planetas. Pois bem: como acontece com frequência, a ficção científica não estava lidando com o impossível, mas apenas antecipando o futuro. A tecnologia já está avançada na criação de um tradutor universal. O sistema mais eficiente opera nos computadores do Google, o gigante da internet. Hoje, ele permite a tradução instantânea de textos escritos em 52 idiomas. Para o leitor, é como colocar-se diante de uma biblioteca infinita e descobrir que todas as publicações estão em português. Estima-se que em dez anos já sejam 250 as línguas contempladas. E, nesse ponto, a inclusão de aplicativos de tradução simultânea em computadores e telefones celulares permitirá que bilhões de pessoas se entendam – sem jamais ter de abandonar a própria língua.
Por trás do Google Tradutor está o conhecimento acumulado em inteligência artificial (I.A.), ramo da computação que se dedica ao desenvolvimento de modelos e programas que produzem nas máquinas um comportamento "inteligente". Nascida nos anos 40, a área produziu experimentos famosos como o robô Eliza, software que simulava diálogos reais na década de 60, e o supercomputador Deep Blue, da IBM, que em 1997 derrotou o campeão russo Garry Kasparov em uma partida de xadrez. O "cérebro" da máquina podia analisar cerca de 200.milhões de jogadas por segundo na busca do xeque-mate. O primeiro estágio da tradução universal – a de textos – já atingiu na internet um nível que linguistas e especialistas em inteligência artificial classificam como avançado. Isso quer dizer que, embora os erros de tradução da ferramenta sejam perceptíveis, os textos que ela apresenta permitem a compreensão do assunto de que eles tratam.
O funcionamento do tradutor do Google remete à Pedra de Roseta, o bloco de granito de 1,20 metro de altura que foi encontrado pelo exército de Napoleão, no século XVIII, e serviu de chave para a decifração dos hieróglifos egípcios. A Pedra traz inscrições de um mesmo texto na antiga língua do Egito e em grego. No século XIX, coube aos estudiosos Thomas Young e Jean-François Champollion relacionar os termos dos dois idiomas para desvendar a língua dos faraós. De forma análoga, os computadores do Google trabalham com pares de textos em línguas diferentes e calculam a probabilidade de palavras de uma delas corresponderem a termos da outra (confira o funcionamento). Com base nesses cálculos, o sistema é capaz de, em menos de um segundo, montar textos em 52 línguas, cada vez que um usuário o requisita.
O tradutor do Google está à frente dos rivais. Em pesquisas patrocinadas pelo governo americano, ele supera com frequência ferramentas de outras empresas e universidades. "Ele também é reconhecido como o melhor entre os sistemas comerciais", diz David Yarowsky, professor de ciência da computação da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Isso significa sobrepujar os rivais Bing Translator, da Microsoft, e Babel Fish, do Yahoo!. "Hoje, a potência da ferramenta está relacionada ao tamanho de seu banco de dados. E também ao uso de supercomputadores, com sua imensa capacidade de processar informações", explica Helena Caseli, pesquisadora do Laboratório de Linguística Computacional da Universidade Federal de São Carlos. Se são esses os fatores determinantes, é certo que o tradutor vai evoluir. O aumento na capacidade de processar informações dos supercomputadores é garantido pela Lei de Moore – que postula que a capacidade dos chips dobra a cada 24 meses. O banco de dados do Google também cresce continuamente. Ele começou a ser formado em 2006, com textos oficiais da ONU vertidos para seis idiomas. Em seguida, a empresa recorreu a documentos bilíngues de arquivos públicos. Finalmente, mergulhou na internet. Hoje, seus próprios usuários ajudam a ampliar o banco de dados sugerindo traduções alternativas àquelas que lhes são apresentadas. "Há, no entanto, certo limite para essa abordagem", diz Miles Osborne, pesquisador da Universidade de Edimburgo, na Escócia, que trabalhou no projeto do Google. É por isso que vem sendo estudada a inclusão de regras gramaticais no programa: além dos algoritmos, ele usaria essas regras para compor textos mais fluentes. Hoje, as traduções invariavelmente contêm tropeços de gramática. Assim mesmo, quem se detém em uma página estrangeira, esteja ela escrita em mandarim, africânder, vietnamita, japonês ou hindi, já sabe ao menos sobre o que se fala ali. "Há cinco anos, isso era impossível. Daqui a cinco anos, teremos mais fluência", afirma David Yarowsky.
À medida que os tradutores avançarem, seus impactos deverão se espalhar pelas mais variadas áreas. No campo acadêmico, por exemplo, o avanço será dramático. "Em algumas áreas, como ciência e tecnologia, as versões automáticas poderão ser até melhores do que as feitas por humanos, pois, para nós, é muito difícil guardar detalhes de temas específicos", diz Yarowsky. Considere-se que atualmente, nos campos de ciências, tecnologia, finanças e administração, 90% do conteúdo de alta qualidade está em inglês, e a importância dos tradutores automáticos para milhões de estudantes e profissionais ao redor do mundo se torna clara. Yarowsky também aponta frutos na economia: "Será mais fácil vender produtos e serviços ao exterior, com a eliminação de custos com tradução de manuais técnicos, material promocional e e-mails". Atualmente, turistas já se beneficiam da tecnologia na hora de escolher destinos de viagem sem levar em conta a língua local, uma vez que ferramentas como a do Google estão disponíveis em celulares. Há outros dispositivos portáteis que fazem a conversão voz-texto ou texto-voz. Soldados americanos enviados ao Afeganistão já testaram tal aparelho, que dispara mensagens sonoras escolhidas pelos militares na língua local. "É a chance de pessoas de todas as partes do mundo saberem o que as demais pensam. Assim, suas diferenças podem ser minimizadas", diz Yarowsky. "Eu não sei o que um garoto de Bagdá pensa sobre os Estados Unidos, mas gostaria de saber." O Google já colocou seu arsenal também à disposição de outras ferramentas. Além de verter páginas da web, seu know-how na área traduz documentos apresentados por usuários, chats de texto via Google Talk e até converte legendas de vídeos no YouTube. Para conectar línguas e mentes via celular, precisará agregar ao sistema o reconhecimento de voz, desenvolvido por várias empresas ao redor do mundo. "A tradução voz a voz é incrível, e nós adoraríamos realizá-la", reconhece Nate Tyler, relações-públicas do Google internacional. É mais do que isso. E, embora a empresa tente despistar, o mercado espera dela a ferramenta para a próxima década.
Laílson Santos

Laura Guzman
A americana de 20 anos está há quatro meses em São Paulo, onde realiza um intercâmbio universitário. Ela recorre ao tradutor automático para dirimir dúvidas na hora de escrever e ler artigos extensos em português
"Eu me sinto segura para usar o idioma, mas vez ou outra as dúvidas aparecem"

A linguagem cotidiana já começa a ser desbravada pelos tradutores automáticos. A frase "Cê vai lá né?", por exemplo, recebe uma tradução bastante adequada no Google Tradutor: "You going there right?". A própria empresa reconhece, contudo, que sua máquina tem um limite claro: a literatura, sobretudo aquela que subverte a gramática e abusa da ironia, fazendo com que uma mesma palavra possa ter vários significados. "Se você tentar traduzir poesia pelo sistema, vai receber um novo tipo de poesia", brincou, durante uma apresentação, o pai da ferramenta do Google, o alemão Franz Josef Och. Mas isso não é demérito nenhum. Há uma infinidade de estudos literários que falam da "impossibilidade da tradução" – ou que, ao menos, lembram o velho adágio "Traduttore, traditore" ("Tradutor, traidor"). "Não existe efetivamente tradução perfeita entre línguas. Cada uma delas tem estrutura e recursos idiomáticos próprios, intraduzíveis. Você pode convertê-los em termos semânticos, mas não analíticos", diz Jacó Guinzburg, tradutor de francês, inglês, alemão, iídiche e hebraico. "Mas é claro que existem alguns trabalhos excelentes. É o caso da versão de As Minas do Rei Salomão feita por Eça de Queiroz: em inglês, é uma obra de segunda, mas se tornou primorosa em português."
Com o avanço dos sistemas de tradução de línguas por computador, a exigência de aprender um idioma estrangeiro poderá ser abalada. Estudo da empresa de RH Catho Online mostra que o salário médio do brasileiro que domina o inglês e o espanhol é em média 125% superior ao de trabalhadores que não falam esses idiomas. Mas, se a tecnologia evoluir como se espera, a questão terá de ser revista: valerá a pena investir mais de 50 000 reais, custo de um curso completo de inglês de primeiro nível, se em tese for possível contar com as máquinas? "Quando têm a oportunidade de escolha, as pessoas preferem se expressar no idioma materno", diz o linguista britânico David Crystal, estudioso das relações entre língua e internet. "A eficiência dos sistemas de tradução poderá provocar certo desinteresse pelo aprendizado de idiomas estrangeiros." Mas seria um erro abandonar de vez o hábito de aprender línguas. O italiano Luciano Floridi, filósofo da informação, lembra que conhecer um idioma é uma experiência insubstituível, um mergulho em outra cultura. "Há palavras intraduzíveis: se você quer falar sobre saudade, tem de usar o português", exemplifica. Isso, contudo, não demove o filósofo da posição de entusiasta da tradução digital, que para ele ocorrerá em um regime de perdas e ganhos. "Imagine que eu nunca tenha ido ao Brasil e certo dia vá a um restaurante típico em Londres: a receita é brasileira, mas a linguiça é inglesa. Ou seja, não é o mesmo que ir ao Brasil, mas é melhor do que nada."
Bruno Magalhaes/Nitro

Felipe Carvalho Zulato
Navegar pelas redes sociais é tarefa do relações-públicas de 23 anos, que vive em Belo Horizonte. Antes de descobrir o tradutor, conferir as páginas de sites japoneses era frustrante
"As traduções ainda pecam na concordância, mas ao menos me permitem avançar no trabalho"

Se tivessem surgido mais cedo, como ansiava o homem desde o princípio, as ferramentas de tradução automática bem poderiam ter sido de grande ajuda em momentos cruciais da história. Durante a Batalha de Cajamarca pela conquista do Peru, em 1532, coube a um jovem nativo chamado Felipillo mediar o encontro entre os espanhóis, comandados por Francisco Pizarro, e os incas. Por má-fé ou não do tradutor, o rei Atahualpa foi levado a entender que os espanhóis queriam lhe impingir a condição de vassalo do rei espanhol. A negociação foi um fracasso e precipitou a guerra, ocaso inca. Quatro séculos depois, outro entrevero. Em 26 de julho de 1945, as forças aliadas apresentaram a Declaração de Potsdam, um ultimato que dava a Tóquio duas alternativas: rendição incondicional ou destruição total. Dois dias depois, o primeiro-ministro Suzuki Kantaro disse aos jornais de seu país que a declaração não tinha "nenhum valor", acrescentando à frase seguinte o termo mokusatsu – que pode assumir os significados distintos de "ignorar" ou "silêncio". O jornal The New York Times estampou em sua primeira página: "Japão rejeita ultimato aliado de rendição". Tradutores afirmariam mais tarde que melhor seria dizer que os japoneses "silenciaram". As bombas atômicas caíram sobre Hiroshima e Nagasaki sete e dez dias depois, respectivamente. Há dúvidas sobre o efeito que outras traduções poderiam exercer nos dois episódios. Mas o fantasma da diferença linguística perpassa a história. Agora, com os tradutores automáticos, o homem tem a chance de derrubar, com a ajuda da tecnologia, a barreira que Deus, segundo a tradição bíblica, ergueu com a Torre de Babel.


Ana Rojas

Nicholas Ostler
O especialista britânico em história das línguas enxerga no tradutor do Google um aprimoramento da globalização, com novas oportunidades para o indivíduo.
E sentencia: o inglês será a última língua franca
"As pessoas se darão ao luxo de falar com outras culturas usando o próprio idioma"

Peter Dasilva/The New York Times

Franz Josef Och
O alemão que chefia o time de tradução do Google, diante da Pedra de Roseta, que no século XIX ajudou a decifrar os hieróglifos egípcios e serve de modelo ao sistema automático do gigante de buscas. O tradutor moderno alia números e palavras, matemática e linguística para converter idiomas
"No futuro, teremos muito mais. A máquina será capaz de quebrar barreiras, levando a informação aonde quer que as pessoas precisem dela"
Lia Lubambo

David Yarowsky
O professor de ciência da computação da Universidade Johns Hopkins aposta no poder de aproximar pessoas da ferramenta de tradução. A cada língua colocada à disposição na internet, surgem chances de aumentar a troca de ideias e diminuir as diferenças culturais
"Eu não sei o que um garoto de Bagdá pensa sobre os Estados Unidos, mas gostaria de saber"
Suzete Sandin /Tempo Editorial
Vinício Fornasari
Aos 52 anos, o empresário da construção civil usa o Google Tradutor a partir de Florianópolis para checar minúcias de contratos firmados com companhias da China, Japão e Turquia, além de prospectar oportunidades pela internet
"A ferramenta tem ajudado muito nas negociações"

A ficção chegou primeiro

A literatura e o cinema inventaram dispositivos – ou geringonças – capazes
de simular a comunicação entre línguas muito antes dos tradutores automáticos
Babel fish
Colocado no ouvido, o peixe de O Guia do Mochileiro das Galáxias, dos anos 70, absorve energia mental e libera ondas telepáticas: assim, é claro, o tímpano do anfitrião entende qualquer língua.


Divulgação
Tradutor Universal
O dispositivo da saga Jornada nas Estrelas, que surgiu nos anos 60, foi uma espécie de precursor do modelo do Google: usa cálculos e recorre a um banco de dados para comparar idiomas. Uma diferença: pode ler ondas cerebrais.


The Pictre Desk
Robô C-3PO
O androide medroso e falador de Star Wars, criado por George Lucas nos anos 70, é o tradutor mais culto da ficção: é fluente em 6 milhões de idiomas. E ainda pertence ao grupo de robôs diplomáticos.



















































Com reportagem de Daniel Jelin, Manuela Franceschini e Nathalia Goular

Fonte: Revista Veja

sábado, 27 de março de 2010

Ideologia na cartilha

Agora obrigatórias no ensino médio brasileiro,as aulas de sociologia e filosofia abusam de conceitos rasos e tom panfletário. Matemática que é bom...


Marcelo Bortoloti

Fotos
À caça de bons mestres
O colégio paulistano São Domingos e o estadual Pedro Álvares Cabral (no detalhe), no Rio: um desafio em comum


Os 8 milhões de estudantes brasileiros matriculados no ensino médio passaram a receber neste ano aulas de sociologia e filosofia - disciplinas que, por lei, se tornaram obrigatórias em escolas públicas e particulares. Com base nas diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Educação, cada estado fez o seu currículo, no qual a maioria dos colégios privados também se espelha em algum grau. A leitura atenta desse material traz à luz um festival de conceitos simplificados e de velhos chavões de esquerda que, os especialistas concordam, estão longe de se prestar ao essencial numa sala de aula: expandir o horizonte dos alunos. Não faltam exemplos de obscurantismo. Para se ter uma ideia, no Acre uma das metas do currículo de sociologia é ensinar os estudantes a produzir regimentos internos para sindicatos de trabalhadores - verdadeiro absurdo. Um dos explícitos objetivos das aulas em Goiás, por sua vez, é incrustar no aluno a ideia de que "a constante diminuição de cargos em empresas do mundo capitalista é um fator estrutural do sistema econômico" (visão pedestre que desconsidera o fato de que esse mesmo regime resultou em mais e melhores empregos no curso da história). Sem dar às questões a complexidade que elas merecem, as aulas abrangem de tudo: no Espírito Santo, por exemplo, a filosofia abarca da culinária capixaba aos ritmos indígenas. Conclui o sociólogo Simon Schwartzman: "Tratadas com superficialidade e viés ideológico, essas disciplinas só tendem a estreitar, no lugar de ampliar, a visão de mundo".

O viés presente nas aulas de sociologia e filosofia tem suas raízes fincadas nas faculdades de ciências sociais - de onde saíram, ou a que ainda pertencem, os professores responsáveis pela confecção dos atuais currículos. Desde a década de 70, quando se firmaram como trincheiras de combate à ditadura militar nas universidades, tais cursos se ancoram no ideário marxista, à revelia da própria implosão do comunismo no mundo - e estão cada vez mais distantes do rigor e da complexidade do pensamento do alemão Karl Marx (1818-1883). Diz a doutora em ciências sociais Eunice Durham, da Universidade de São Paulo: "Boa parte dessas faculdades propaga apenas panfletos pseudomarxistas repletos de clichês e generalizações, sem se dar sequer ao trabalho de consultar o original". Isso se reflete agora, e de forma acentuada, nos currículos escolares de sociologia e filosofia, criticados até mesmo por quem participou da feitura deles. À frente da equipe que compôs os do Rio de Janeiro, a educadora Teresa Pontual, subsecretária estadual de Educação, chega a reconhecer: "Se criássemos diretrizes distantes demais da realidade dos professores, eles simplesmente não as aplicariam na sala de aula - fomos apenas realistas".

Sob a influência francesa, a sociologia e a filosofia começaram a ganhar espaço no ensino médio brasileiro no fim do século XIX, até se tornarem obrigatórias, ainda que com pequenas interrupções, entre 1925 e 1971. Seu retorno definitivo ao currículo, sacramentado por uma lei aprovada no Congresso dois anos atrás para entrar em vigor justamente agora, era um pleito antigo dos sindicatos dos profissionais dessas áreas. Em 2001, projeto de lei com o mesmo propósito havia passado pelo Congresso, só que acabou vetado pelo então presidente (e sociólogo) Fernando Henrique Cardoso. À época, um parecer do MEC afirmava que os gastos para os estados seriam altos demais e que não havia no país professores em número suficiente para atender à nova demanda. Desta vez, o próprio ministro Fernando Haddad, filósofo de formação, empenhou-se para aprovar o texto. Daqui para a frente, de acordo com um levantamento do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, serão recrutados mais 20 000 professores no país inteiro. Trata-se de algo temerário, segundo alerta o sociólogo Bolívar Lamounier: "Não há tanta gente qualificada para desempenhar tal função no Brasil". A experiência recente das próprias escolas já sinaliza isso. "Está sendo duríssimo achar professores dessas áreas que sejam desprovidos da visão ideológica", conta Sílvio Barini, diretor do São Domingos, colégio particular de São Paulo.

Ao obrigar as escolas a ensinar sociologia e filosofia a todos os alunos, o Brasil se junta à maioria dos países da América Latina - e se distancia dos mais avançados em sala de aula, que oferecem essas disciplinas apenas como eletivas. Deixá-las de fora da grade fixa é uma decisão que se baseia no que a experiência já provou. Resume o economista Claudio de Moura Castro, articulista de VEJA e especialista em educação: "Os países mais desenvolvidos já entenderam há muito tempo que é absolutamente irreal esperar que todos os estudantes de ensino médio alcancem a complexidade mínima dos temas da sociologia ou da filosofia - ainda mais num país em que os alunos acumulam tantas deficiências básicas, como o Brasil". Em outros países da América Latina, esse tipo de iniciativa também costuma resvalar em aulas contaminadas pela ideologia de esquerda, preponderante nas escolas. Não será desse jeito que o Brasil dará o necessário passo rumo à excelência.



Fonte: Revista Veja

sábado, 6 de março de 2010

O que temos a comemorar?, por Cesar Pereira Lima*



“Somos da geração nós fazemos (e não temos) tudo.

Ainda não temos os melhores salários, assumimos a

maioria dos trabalhos domésticos e cuidados com as crianças.

Estupro e violência doméstica não são tratados como

crimes. Na verdade – ainda somos cidadãs de segunda classe.”

Marian Keyes, escritora irlandesa (2007)

Oito de março de 1857, uma fábrica de tecidos é fechada, cercada por policiais e incendiada em Nova York. Oito de março de 1910, é instituído o Dia Internacional dos Direitos da Mulher, na Dinamarca. A fábrica foi incendiada com as trabalhadoras dentro como represália às suas reivindicações – redução da jornada de trabalho de 16 para 10 horas, equiparação salarial com os homens e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

Fevereiro de 2010, o governo francês nega cidadania a homem que obrigava sua mulher, francesa, a cobrir o rosto com um véu – ele não merecia receber o benefício da nacionalidade. Ao mesmo tempo, foi proposto projeto que multa em 750 euros quem usar a burca em público. O presidente Sarkozy classificou-a de “signo de servidão”, contrário à ideia da República Francesa sobre a dignidade da mulher. Além disso, declarou que a veste “não é bem-vinda ao território francês”.

Esta luta é antiga. Durante a Revolução Francesa (1789), os filósofos Condorcet e Lyégès tentaram, infrutiferamente, estender os direitos civis às mulheres. Pode-se constatar que esta discriminação continua viva e ativa transcorridos mais de 220 anos da revolução e cem anos do Dia Internacional da Mulher, que ora transcorre.

Instrução e o acesso à universidade também são marcos importantes nesta caminhada. Foi uma gaúcha de Rio Grande, Rita Lobato, que, vencendo a hostilidade inicial dos colegas e professores, graduou-se em 10 de dezembro de 1887 na Faculdade de Medicina da Bahia. Feminista e política, só pôde iniciar seus estudos após o Decreto-Lei nº 7.247, de 19 de abril de 1879, rubricado por dom Pedro II, superando a discriminação da época.

O direito ao voto, que pretendia tornar as mulheres cidadãs de primeira categoria, ocorreu com a instituição do sufrágio universal, em 1918 na Inglaterra e em 1934 no Brasil.

Outra grande vitória foi a possibilidade da prática sexual sem as consequências de gravidezes indesejadas. Isto ocorreu graças a Gregory Goodwin Pincus, que em 1956 descobriu a pílula anticoncepcional, criando um contraceptivo seguro e simples que revolucionou o planejamento familiar e a prática sexual. Em 1960, o FDA licenciou o Enovid, a primeira pílula anticoncepcional.

Tão ou mais importante que os véus faciais, são os criados para aprisioná-las em situações inferiores e subalternas, realidades em que falta o ar da liberdade, com a falsa premissa de que isto é feito para sua proteção.

Um exemplo é o libelo contra a discriminação da figura feminina tão bem explicitado na personagem Precious, do excelente e emocionante filme Preciosa, concorrente ao Oscar de melhor filme em 2010. Preta, gorda, pobre, menor, semianalfabeta, de família desestruturada, com dois filhos resultantes de estupro paterno e HIV positiva, ela luta para sobreviver em seu mundo hostil.

Essas conquistas e avanços são acessíveis a todas as mulheres do mundo? Quantos centenários do Dia Internacional da Mulher não teremos de passar até que a igualdade e o respeito pela condição feminina sejam universalmente incorporados pelo planeta?

*Médico e professor universitário

Fonte: Jornal Zero Hora


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Direitos humanos para todos, por Adão Paiani *


Defender o fim da impunidade para os crimes da ditadura militar não significa concordar na íntegra com o PNDH-3. A motivação humanista e democrática de fazer justiça aos torturados, mortos e desaparecidos também faz discordar de outras disposições abrigadas, equivocadamente, como efetivadoras de direitos humanos.

Detalhes merecem atenção. Como a ampliação do direito de aborto; que não é proibido no Brasil, pois autorizado em alguns casos. Ampliar a permissão sob o tênue e ególatra argumento da mulher dispor livremente do corpo, com anticoncepcionais utilizados em larga escala e informações para evitar gravidez indesejada, nada tem de humanitário. Devemos discutir isso, claro; mas com a premissa de respeitar a vida, na sua forma mais frágil.

Proibir símbolos religiosos em espaços públicos cria um problema que não temos. No Brasil, o Estado é laico desde a Primeira República. Há total liberdade de culto; e nenhuma religião tutela questões temporais. Tolerância religiosa, uma das faces notáveis da cultura brasileira, trouxe para cá luteranos, metodistas, judeus, muçulmanos, e as religiões africanas, com o seu sincretismo. Mas nossa tradição é cristã. Bem ou mal, o invasor português trouxe consigo a espada e a cruz; e também a pluralidade.

A questão dos conflitos agrários. O proposto não contribui com o fim da violência no campo. Condicionar a busca da tutela jurisdicional do Estado por quem é esbulhado, e decisões judiciais daí decorrentes, presentes os requisitos para reintegração de posse, à realização de audiências públicas prévias, é o caminho mais curto para praticar injustiças.

Comissões de mediação para desocupar áreas sem violência, com logística que permita realocar pessoas, com respeito e dignidade, e não atirá-las na beira da estrada, é correto; mas como conse- quência de uma decisão judicial a ser cumprida. Subtrair de um proprietário o direito de reaver, dentro da lei, seu patrimônio fere a segurança jurídica e a cidadania. Isso tem a ver com direitos humanos para todos.

Corrigindo equívocos e preservando acertos, cabe ao Congresso Nacional separar o joio do trigo. É uma das vantagens da democracia.

* Advogado

Fonte: Jornal Zero Hora
imagem em: monitoriacienciapolitica.blogspot.com/2009/04

terça-feira, 17 de novembro de 2009

sábado, 7 de novembro de 2009

Vinte anos após a queda do muro, comunistas governam 7 países e 20% da população mundial

By Haroldo Ceravolo Sereza

Vinte anos após o começo do "fim do comunismo", partidos comunistas governam sete países. Cinco destes governos já existiam antes do colapso do sistema soviético, em 1991, e mantêm o poder concentrado num sistema de partido único ou próximo disto - China, Cuba, Coreia do Norte, Vietnã e Laos. Em outros dois, os PCs lideram governos eleitos democraticamente - Chipre e Nepal.

Os sete países contam com uma população estimada de quase 1,5 bilhão de pessoas (1,34 bilhão vive na China; o segundo mais populoso é o Vietnã, com quase 87 milhões de habitantes), ou pouco mais do que 22% dos 6,7 bilhões de pessoas se estima viverem sobre Terra.

Além disso, os partidos comunistas próximos às duas linhas mais tradicionais - a soviética e chinesa - participam de vários governos do mundo, em países que são capitalistas. É o caso da África do Sul, em que os comunistas são parte fundamental do Congresso Nacional Africano, de Nelson Mandela e de todos os presidentes após o fim do regime do apartheid, em 1994. No Brasil, com o PC do B, eles também integram o governo, com menor força.

Partidos comunistas têm força significativa em outros dois países dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul): na Rússia, o PC é o maior partido de oposição ao grupo político do primeiro-ministro e ex-presidente Vladimir Putin, e na Índia, é o maior partido em alguns Estados.

A força política dos partidos comunistas passa, no entanto, por, pelo menos, mais flexibilização econômica na maioria dos casos, além de mudanças na postura em relação a ex-inimigos e novos aliados.

Na China, em especial, mecanismos capitalistas de atuação econômica ganharam enorme força nos últimos 20 anos, período que coincidiu com a ultrapassagem da Alemanha e a transformação da China na terceira maior economia do mundo.

Uma ambiguidade que é assim resumida por Edmilson Costa, professor de economia de universidades privadas de São Paulo e dirigente do PCB (Partido Comunista Brasileiro): "O que acontece lá (na China) é uma estrutura que mistura capitalismo com socialismo e que você não sabe aonde vai dar. Pode ser que não dê certo, mas o destino não está dado. O PC chinês ainda dirige o processo", afirma.

"Torço para que dê socialismo. A China desorienta todas as teorias. Com a crise, reorientaram a economia para o mercado interno, manejando com competência", completa Costa.

Mas como os comunistas brasileiros explicam a permanência da China sob o comando de um partido comunista, após o fim do sistema soviético, contra uma série de previsões feita "no calor da hora", nos anos 1990?

O jornalista Bernado Joffilly, que dirige o portal de informações Vermelho, do PC do B , assim explica o sucesso do PC chinês em permanecer no poder: "Depois da queda do Muro de Berlim, a China adotou um 'baixo perfil' internacional e ideológico. Provavelmente com razão. No pós-muro, um país socialista que quisesse continuar socialista tinha de ser 'low profile'".

Um dos problemas que o país enfrenta, agora, com o sucesso econômico, é justamente esse: "Agora não dá mais para ser de baixo perfil."

Há uma alta dose de pragmatismo na análise de Joffilly - que, durante a entrevista, fez questão de dizer mais de uma vez que falava em nome pessoal e não pela direção do PC do B. "A China tem lá o socialismo deles, que coexiste com o capitalismo. Eles estão fazendo uma mescla, que está dando certo", diz, para emendar: "Os povos fazem as revoluções para viverem melhor. Desse ponto de vista, 500 milhões de pessoas saíram a pobreza na China."

Antiga Alemanha Oriental sofre declínio após queda do Muro

Novos caminhos
PC do B e PCB ilustram, cada um a sua maneira, os novos caminhos que os comunistas tiveram de buscar após a queda do muro. Os dois partidos, que se reivindicam herdeiros do Partido Comunista do Brasil fundado em 1922, viveram, do fim da ditadura em 1985 até hoje, o maior período de legalidade no país.

Em 1991, o PC do B não era próximo de nenhum dos dois grandes blocos comunistas - não defendia nem o modelo soviético nem o chinês, mas o da Albânia, um pequeno e empobrecido país europeu que se tornou um bastião da ortodoxia comunista. Nascido de uma ruptura pró-chinesa do PCB na década de 1960, o partido, portanto, não era exatamente um defensor do socialismo soviético.

Ainda assim, teve de responder pela crise que o sistema enfrentou. "Talvez tenhamos sido mais críticos do que devíamos", avalia Joffilly. "Porque o mundo dividido em duas superpotências era melhor do que o mundo com uma só potência."

Retrospectivamente, ele avalia que a União Soviética sofria com algumas questões centrais: "Havia um déficit democrático e um déficit teórico evidentes."

Em 1989, depois de ter vivido alguns anos na Albânia (onde aprendeu a língua, da qual traduz os romances do escritor Ismail Kadaré, hoje um crítico do comunismo). Joffilly fazia campanha para Lula, arrecadando dinheiro entre os metalúrgicos de São Bernardo. "Naquele momento, aqui no Brasil, foi a 'avant première' do que ocorreria na América Latina dez anos adiante, do México à Patagônia. A América Latina lia a questão do muro de outra maneira", diz.

Para ele, Lula no Brasil, Hugo Chávez na Venezuela, Tabaré Vazquez no Uruguai, e experiências em toda a região ("pula a Colômbia") "fazem parte deste movimento antineoliberal, progressista, de esquerda, centro-esquerda, plural, desigual, de inclinação socialista - no caso de Venezuela, Bolívia, Equador - que cresceu na região nos últimos 20 anos.

Pessoas que viveram na Berlim dividida contam suas histórias

O PCB, por sua vez, era o partido associado ao modelo soviético. Só nos anos 1980 o partido ficaria mais próximo dos partidos comunistas da Europa Ocidental, que passaram a defender com mais vigor a democracia ocidental. Assim, o governo do secretário-geral Mikhail Gorbatchev significava uma possibilidade de reforma dentro do socialismo.

"O fim da União Soviética foi como se eu tivesse perdido o pai, a mãe e a família inteira num desastre. Nós tínhamos uma ligação história com o PC da União Soviética, pagamos um preço muito alto", diz Edmilson Costa. "Para nos, glasnost e perestroika significavam mais democracia e mais socialismo", mas "o muro caiu com o apoio do Gorbatchev".

Para ele, "o cansaço da população, a estrutura do regime, a falta de liberdade para ir e vir" explicam a ruína do sistema. Além, claro, do poder sedutor do capitalismo: "É uma vitrine sedutora, mas que não é para todos, é só para alguns."

O PCB, que em 1989 apresentou-se nas eleições presidenciais com a candidatura de Roberto Freire, iniciou a década de 1990 na sua mais profunda crise. Seguindo tendência de outros partidos ocidentais, a direção sob o comando de Freire abandonou o marxismo como linha política e tirou o nome comunista, passando a se chamar PPS (Partido Popular Socialista).

O grupo que não aceitou a mudança buscou, então, refundar o partido e manter o nome PCB. "Caído o Muro, sem a União Soviética, partimos para refazer as filiações."

Edmilson pegou as férias a que tinha direito e partiu para o interior do Mato Grosso do Sul. Pelas regras da Justiça eleitoral, era mais fácil conseguir as assinaturas necessárias em pequenas cidades do que nos grandes centros.

"Uma advogada do partido foi a uma cidade e parou num local. Reparou que havia muitas mulheres. Pediu um refrigerante. Falou com a dona, uma argentina. Que disse que também era comunista. E daquela casa de 'rendez-vous' saiu o presidente do partido no Mato Grosso do Sul, filho da argentina", conta ele.

Aos poucos, os dois partidos refizeram suas imagens. O PC do B reforçou a aliança com o PT iniciada no final dos anos 1980 e o PCB redefiniu muitas de suas posições e faz oposição a Lula hoje unido a partidos com fortes tendências trotskistas (PSTU e PSOL), antigos inimigos dentro da esquerda.

Também mudou uma de suas mais importantes posições históricas. O PCB não acredita mais que deve se aliar a setores da burguesia, como no passado. "O Brasil é hoje sociedade tipicamente burguesa, então a revolução é socialista. Antes, achávamos que ela podia ser nacional-democrata. Mas a burguesia brasileira não quer mais cumprir uma tarefa nacional, quer participar do jogo internacional do capital, se contradição, luta cotidiana."

E o futuro?
Tanto Costa quanto Joffilly fazem discursos agregadores.

Costa avalia que o PC do B não é comunista, mas afirma que o PCB está "procurando juntar pequenas organizações comunistas", que atuam de forma independente pelo país. "São ações comuns, unidade na ação, para futura unificação de todas as forças comunistas. Porque tem mais comunistas fora do que dentro do partido, e as fraturas só cicatrizam quando há unidade política e de ação."


"Fora do PC do B, existem comunistas. Acho ótimo que exista um partido relativamente grande, candidato a nuclear os outros. Espero que todo mundo que é comunista entre no PC do B. Gostaria que os companheiros do PCB estivessem com o PC do B", afirma, por sua vez, Joffilly. "PSTU e PCB fazem oposição a Lula. Eu não faço veto. Tem democracia interna, eles podem disputar as posições. Nós criticamos, por exemplo, a política do Henrique Meirelles, para nós ela tinha de cair", completa.

Joffilly vê na crise do sistema soviético um momento histórico. "De 1815 a 1848, a burguesia pastou uma derrota na França. Assim como em 1815 teve a restauração monárquica, em 1989 houve a restauração capitalista."

Vinte anos depois, os dois PCs brasileiros avaliam que as perspectivas são boas: "Acho que a crise vai se agravar. Podemos ter uma outra conjuntura internacional. E as crises são parteiras da história", diz Costa.

"Felizmente, benza-deus, parece que pensamento único, fim da história e consenso de Washington acabaram. A crise do capitalismo abre a possibilidade de retomada das ideias socialistas como alternativa ao capitalismo", emenda Joffilly, que completa: "O pior já passou. Está baixando a poeira do muro."


Fonte: UOL Notícias

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"A massa discute a manipulação da mí­dia?" - para 2ª série do Ensino Médio


O documentário é um ensaio experimental sobre opiniões populares a respeito do poder de influência dos grandes meios de comunicação. A montagem, que deturpa ironicamente os depoimentos dos entrevistados, evidencia as possibilidades de se manipular informação, fazendo do próprio filme um exemplo de manipulação da mí­dia.
CENAS EXTRAS: http://www.youtube.com/watc... http://www.posturadigital.c...




Fonte: Postado pelo amigo Victor Simões no Blog
Suciologicus.

Especialmente para os alunos da 2ª série do Ensino Médio do Camilo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O escritor Archie Brown analisa a expansão e a derrocada do bloco comunista

Brown é um dos maiores especialistas europeus no assunto e acaba de lançar "Ascensão e Queda do Comunismo", no qual analisa de Karl Marx a Fidel Castro. Milênio, 28/9/2009.


http://blip.tv/file/2666173

BLIP.TV

[ASSISTIR] [BAIXAR]

INTERNET ARCHIVE

[ASSISTIR] [BAIXAR]

Fonte: Êlúsion pédion

terça-feira, 14 de julho de 2009

Para que servem as revoluções? Por Moacyr Scliar

Na data de hoje, há 220 anos, uma multidão enfurecida invadia a fortaleza da Bastilha, em Paris, libertando os poucos prisioneiros que ali se encontravam (quatro falsários, dois nobres acusados de comportamento imoral e um suspeito de assassinato), apossou-se de armas e munições e decapitou o diretor, o Marquês de Launay, cuja cabeça, espetada num pau, desfilou pela cidade, conduzida por uma exultante multidão. O 14 de julho passou a ser a data-símbolo da Revolução Francesa, um movimento que nasceu da fome, da miséria, do desespero, e do contraste entre esta situação e aquela de uma classe de ricos e nobres que, em palácios como Versalhes, gozavam a vida sem se preocupar com a massa. Maria Antonieta nunca disse, a propósito dos famintos, que, se não tinham pão, poderiam comer bolos; mas não por acaso a frase lhe foi atribuída: correspondia a um tipo de alienação que ultrapassava qualquer limite de sensatez.

Sensata, a revolução não foi. Não era de esperar que o fosse, mas o que aconteceu ultrapassou qualquer expectativa. O regime do Terror decapitou milhares de cabeças, graças à máquina do doutor Guillotin (não sei se hoje alguém consultaria esse médico), incluindo as cabeças coroadas, mas também a de gênios como Antoine Lavoisier – cerca de 17 mil executados: uma canaleta teve de ser construída para conduzir o sangue que jorrava da máquina. Em 1804, Napoleão coroava-se imperador, restabelecendo, pois, a monarquia.

A Revolução Francesa estabeleceu um modelo. Em 1917, os bolcheviques derrubavam o governo tzarista na Rússia, e Lenin anunciava o nascimento de uma nova sociedade. Um sonho que Stalin se encarregou de sepultar: os campos de concentração transformaram-se numa versão mais sutil, mas nem por isso menos sinistra, do terror revolucionário francês. Com a queda do Muro de Berlim sumiu o comunismo e apareceu a máfia russa, herdeira dos corruptos e espertalhões que, no governo da finada URSS, haviam aprendido a se beneficiar da situação.

Revolução é, como sabemos, um termo vago, que pode se aplicar inclusive a golpes militares e à tomada do poder por caudillhos. Mas a Revolução Francesa e a Revolução Russa realmente correspondiam à intenção, inspirada inclusive por ideais generosos, de uma mudança profunda da situação social. Pergunta: será que revoluções estão condenadas ao fracasso? Será que elas contêm em si próprias o germe da autodestruição?

Não. Bem ou mal, revoluções cumprem um papel. As revoluções servem para advertir àqueles que têm poder, riqueza e/ou inteligência de que as coisas precisam mudar. Não é todo mundo que se dá conta disso. O Brasil teve escravidão durante muitos séculos e os donos de escravos achavam aquilo perfeitamente natural. Durante muito tempo o regime de trabalho – para homens, mulheres e crianças – era de 14 horas diárias, e os donos de indústria achavam aquilo perfeitamente natural. Durante muito tempo mulheres não puderam votar, e políticos achavam aquilo perfeitamente natural. Mas a possibilidade de revolução, de virada de mesa, serve como advertência e inspira pensamentos como aquele “Façamos a revolução antes que o povo a faça”, do governador mineiro Antonio Carlos. Entregar os anéis para não perder os dedos (ou a cabeça) pode ser uma troca vantajosa.


Fonte: Jornal Zero Hora - nº16030 - 14 de julho de 2009.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Orgulho de ser brasileiro?, por Paulo Vellinho*

Os japoneses definem cidadania como “aquela sensação de arrepio que a gente sente quando escuta o hino nacional ou assiste ao hasteamento da bandeira”.

Esta sentença ouvi em 1963, no Japão. Desde então, fico pensando em quando o brasileiro atingirá tal grau de sublimação dos seus sentimentos em relação à sua pátria.

Infelizmente, vejo cada vez mais distante esse desejado momento, pois cada vez mais a nossa autoestima (refiro-me aos brasileiros conscientes e responsáveis) distancia-se em vez de aproximar-se.

Imaginando o Brasil como um piano de cauda, vejo com pesar o sacrificado povo brasileiro carregando esse instrumento enquanto uma minoria corporativada, e irresponsável e até desonesta, não só senta-se em cima, como ainda pula e dança sobre o piano e consequentemente sobre os que o carregam.

O que mais me entristece, para não dizer revolta, é a indiferença dos parasitas que roubam ou desperdiçam impunemente os cofres da nação e ainda por cima, quando detectados e pegos “com a boca na botija”, provocam um agito nacional, orquestrando-se em uma estranha solidariedade causada pelo medo ou comprometimento, pois aparentemente nos escândalos denunciados todos têm o seu “rabo preso”.

Eles se julgam e se absolvem “dentro de seu próprio circo”, virando as costas para a sociedade perplexa e revoltada com os desatinos irresponsáveis que provocam.

Vejamos o nosso Senado, ator principal das atuais manchetes da nossa valorosa imprensa, que aliás eles procuram ridicularizar ou desmoralizar ao denominar trama midiática a revelação de suas safadezas.

Mais frustrante é que, passado o episódio efervescente, com o tempo baixa a fervura, amornam-se as reações e... esquecem-se os fatos, mas persistem suas razões, impunemente.

Pergunta-se e tem-se direito de perguntar: o que aconteceu com o escândalo das passagens aéreas... das horas extras indevidas e pagas... com o escândalo dos 181 diretores do Senado... os 10 mil funcionários, menos de 4 mil concursados e o restante terceirizado... os Renans Calheiros ...os Romeros Jucás... os Severinos... e o próprio presidente do Senado, que se assemelha a um robô e que aparentemente nada sente, mas tudo faz... manifestando-se com a maior “cara de pau”, tão dura, que até causou uma revolta dos “pica-paus” por sentirem-se impotentes de picá-la, tal a sua dureza, e tudo com ares comoventes de um anjo injustiçado.

Vejamos: ao registrar alguns fatos reais do nosso Congresso (imagine-se o quanto mais existe debaixo do tapete) e face à impunidade, concluo que é uma ingenuidade a “sensação de arrepio” dos japoneses, a não ser quando o frio do nosso inverno apanha-nos desabrigados, causando-nos arrepios.

No Japão tradicional e ainda hoje, os ladrões públicos ou privados que ainda têm vergonha fazem o “haraquiri”, enquanto no Brasil usufruem do dinheiro mal havido colocando-o nos paraísos fiscais ou esnobando os do “andar de baixo” com sua impunidade e demonstração de riqueza... e ainda fazendo-o com soberba.

Mais ainda, precisamos remover as imundícies que estão debaixo dos tapetes das instituições públicas e privadas, federais, estaduais e municipais, punindo-as com a Justiça, sem brechas para o escape dos seus responsáveis. Somente então, poder-se-á tirar o ponto de interrogação do “orgulho de ser brasileiro”.

*Empresário

Fonte: Jornal Zero Hora - Nº 16024 - 10 de Julho de 2009

terça-feira, 7 de julho de 2009

Está em nossas mãos

Por Lya Luft

"Mais do que carisma, quero preparo, compostura, equilíbrio e classe – que não relaciono a bens materiais, mas à elite dos honrados e dos capazes. Uma elite que nada tem a ver com nome, dinheiro ou cargo, que superou o retrógrado conceito de que éculpada pelas desgraças da humanidade"

O destino prega muitas peças, ata e desata nós, abre e fecha caminhos, inventa encruzilhadas loucas e finais surpreendentes: a gente vai aos trancos e barrancos quase todo o tempo. A maior armadilha que ele, destino ou azar, nos prepara é exigir, aqui e ali, que a gente decida. Analisar e optar é tormento da maioria. Muito mais fácil que escolham pela gente, nós assobiando, olhando disfarçadamente os dados sendo lançados, para depois brindar ou lamentar: ah, o destino!

Dentro de alguns dias teremos de escolher aquele que governará nosso país. O que vai nos apoiar e orientar, o que terá autoridade e força para nos defender, o que será exemplo para nossos filhos, estímulo dos empreendedores, esperança dos doentes, alento dos velhos. Aquele que administrará com firmeza nosso maior bem concreto, o Brasil, e fará render em nosso favor o supremo investimento moral que fazemos: a confiança. Por essa escolha somos responsáveis. Temos essa extraordinária importância para o Brasil. Responsabilidade incomoda, opção pode ser um brete ou um mato sem cachorro, mas há que ser guerreiro para consertar com algo melhor do que com band-aid a honra machucada e as certezas abaladas.

Ilustração Atômica Studio


O povo – os pobres, os miseráveis, os remediados e também os que têm razoável conta bancária – vive sob um dilúvio de desinformações ou informações distorcidas, sob o massacre de quase cotidianos escândalos e desculpas desastradas. Mesmo assim... tem de escolher. Enfrentamentos mostram perfis diversos, da calma firmeza ao disparatado deboche, da determinação às mais pueris desculpas. Mas teremos, inevitavelmente, de decidir, e não é em questão menor: trata-se do líder deste país. Fala-se muito em carisma: a palavra, além de vaga, foi esvaziada pelo seu uso excessivo e confuso. Pode ser uma aura de força e sabedoria, justiça e retidão, até fraqueza ou alguma loucura humana, que as temos às pencas, expostas em público.

Buscar criaturas carismáticas é um perigo: alguns dos assim chamados na história do mundo não foram lúcidos nem honrados; alguns esconderam sob aparência e pretextos sua falta de coragem. Muitos provocaram caos e sofrimento. Eu, mais do que carisma, quero preparo, compostura, autoridade equilibrada e... classe – outra palavra que anda rara e rala. Não a relaciono com bens materiais, mas com a elite dos honrados e dos capazes. Gosto de pensar que existe uma elite que nada tem a ver com nome, dinheiro ou cargo, mas que superou o retrógrado conceito de que "as elites" são culpadas pelas desgraças da humanidade.

A idéia de que só pobres e explorados são boa gente é de chorar de tão tola. É perigosa, é manipuladora. Gera ódios, provoca injustiças, rasga abismos. É uma desgraça a mais a nos rondar nesta fase de desgraceira e enganação. Precisamos escolher, e pior: decidir amparados em coisas além de partido e ideologia, embora eles devam contar. Quase todos se fundiram e nos confundiram, descaracterizaram-se e nos largaram à beira do caminho, mãos abanando aflitas. Precisamos, então, escolher da maneira mais autônoma, mais pessoal: são poucas as luzes que nos iluminam, a política substituída por jogos de interesse, em trilhas de fuga e ocultação. Estamos sozinhos, estamos nus, precisados de recorrer ao nosso bom senso, nossa capacidade de olhar, observar, procurar saber e.... ainda uma vez, escolher.

Temos toda a possibilidade de fazer uma boa seleção: neste nosso mundo moderno, dados negativos explodem com malcheirosa lama na televisão mais moderna da mais sofisticada mansão e no mais humilde radinho de pilha da mais simples cabana. Eu não sabia, não fui informado, vai ser uma desastrada desculpa para falhar em tão séria opção, caso ela não seja firme e inteligente.

A importância do que vamos fazer é de assustar, mas, se não formos pusilânimes ou manipulados, teremos a consciência tranqüila, e o país encaminhado para mais independência, dignidade e crescimento real. Está em nossas mãos o futuro. Cada um de nós, no pequeno recinto da urna eletrônica, vai exercer o seu poder como um rei, determinando o seu destino. É uma dura carga, mas pode ser extraordinariamente estimulante, animadora, salvadora. Temos vez, e voz: que seja a nossa vez.

Lya Luft é escritora

Fonte: Revista Veja - Edição 1978 - 18 de outubro de 2006.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

quinta-feira, 25 de junho de 2009

"Eu não sabia de nada...". "Que país é esse?"

Afinal de contas, que país é esse?
"Não sei de nada..."
...e fica por isso mesmo.

Que País é Este

Legião Urbana

Composição: Renato Russo

Nas favelas, no senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
No Amazonas, no Araguaia iá, iá,
Na Baixada Fluminense
Mato Grosso, nas Gerais e no
Nordeste tudo em paz
Na morte o meu descanso, mas o
Sangue anda solto
Manchando os papéis e documentos fiéis
Ao descanso do patrão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Terceiro mundo, se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?


Não deixe de ver o vídeo.

Fonte: Jornal Zero Hora - Nº16011 - 25 de Junho de 2009.
http://www.youtube.com/watch?v=mcrCUkI88VQ

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Georg Simmel - conceito de sociação

Renato Cancian*

Segundo Georg Simmel, a sociedade é produto das interações entre os indivíduos (concebidos como atores sociais). Dentro dessa perspectiva, o conceito de sociedade também muda, pois, na concepção corrente, uma sociedade é uma unidade que está limitada a um determinado território ou localidade.

Mas, para Simmel, uma sociedade toma forma a partir do momento em que os atores sociais criam relações de interdependência ou estabelecem contatos e interações sociais de reciprocidade. Desse modo, as fronteiras e limites de uma sociedade são difusos e extremamente transitórios. Neste ponto, é possível identificar alguma aproximação ou concordância de Simmel com as abordagens sociológicas de Norbert Elias (1897-1990).

Concebendo a sociedade como produto das interações individuais, Simmel formula o conceito de "sociação" para designar mais apropriadamente as formas ou modos pelos quais os atores sociais se relacionam. É importante destacar que as interações sociais e as relações de interdependência não representam, necessariamente, a convergência de interesses entre os atores sociais envolvidos.

Em seus estudos microsociológicos, Simmel demonstra que as interações sociais podem prefigurar relações conflitivas, relações de interesse mútuo e relações de subordinação (ou dominação). O conflito, porém, é concebido por Simmel como algo benéfico porque é um momento que sinaliza o desenvolvimento da tomada de consciência individual, que teria uma função positiva para sociedade como um todo, principalmente à medida que o conflito fosse superado, mediante acordos.

Consequências do dinheiro

O ensaio intitulado "A filosofia do dinheiro" ("Philosophie des Geldes") foi publicado no ano de 1900 e é considerado um estudo representativo da perspectiva sociológica adotada por Simmel. Neste estudo, Simmel procurou compreender quais as consequências da invenção, introdução e difusão social desse meio de troca (simbólica).

O dinheiro alterou enormemente as relações sociais, provocando efeitos que convergiram para a individualização (ou individualismo) numa fase da história em que as relações tradicionais ou pré-modernas (que se referem ao período do declínio do modo de produção feudal na Europa) estavam em vias de serem superadas pela emergência do modo de produção capitalista.

A difusão do dinheiro provocou uma série de conflitos na ordem social baseada nos costumes e nas relações pessoais, mas, como demonstra Simmel, o dinheiro era reflexo da transformação das interações sociais tradicionais que estavam se dissipando.

O dinheiro carrega o simbolismo do "impessoal", do "racional" e do "individualismo" e se ajusta à modernidade que estava surgindo no mundo ocidental capitalista. O dinheiro desfez determinados tipos de dependência que se caracterizavam pela pessoalidade, mas criou outros, que se caracterizam pela impessoalidade.

Conforme demonstrou Simmel, a relação de tipo monetária que se tornou predominante na época moderna representa o patamar máximo da individualização humana.

*Renato Cancian é cientista social, mestre em sociologia-política e doutor em ciências sociais. É autor do livro "Comissão Justiça e Paz de São Paulo: gênese e atuação política, 1972-1985".

Font: http://educacao.uol.com.br/sociologia/georg-simmel-conceito-de-sociacao.jhtm
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