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sábado, 1 de maio de 2010

A língua do google

A tradução quase instantânea de textos para 52 línguas é apenas o primeiro passo rumo a um comunicador universal em que o idioma deixa de ser barreira e passa a ser o portal do grande encontro das culturas


Jadyr Pavão Júnior


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As diferenças de idioma são um divisor da humanidade. Há dois caminhos para contornar essa barreira. Num deles, busca-se um retorno à linguagem única que, segundo a Bíblia, existia antes da Torre de Babel. Ao longo da história, algumas línguas de fato procuraram desempenhar esse papel. Por exemplo, o latim, na Antiguidade, ou o inglês, nos dias de hoje. Línguas artificiais como o esperanto, criado no século XIX pelo polonês L.L. Zamenhof, também se candidataram a realizar essa tarefa. O outro caminho é o da tradução universal. Em princípio, seria coisa de ficção científica. O mais insólito modelo de tradutor universal aparece no livro O Guia do Mochileiro das Galáxias, dos anos 70: um peixinho é introduzido no ouvido do protagonista e verte frases alienígenas para o inglês. Na série Jornada nas Estrelas, a tecnologia entra em cena e um dispositivo permite a conversa não somente entre "terráqueos", mas entre habitantes de diferentes planetas. Pois bem: como acontece com frequência, a ficção científica não estava lidando com o impossível, mas apenas antecipando o futuro. A tecnologia já está avançada na criação de um tradutor universal. O sistema mais eficiente opera nos computadores do Google, o gigante da internet. Hoje, ele permite a tradução instantânea de textos escritos em 52 idiomas. Para o leitor, é como colocar-se diante de uma biblioteca infinita e descobrir que todas as publicações estão em português. Estima-se que em dez anos já sejam 250 as línguas contempladas. E, nesse ponto, a inclusão de aplicativos de tradução simultânea em computadores e telefones celulares permitirá que bilhões de pessoas se entendam – sem jamais ter de abandonar a própria língua.
Por trás do Google Tradutor está o conhecimento acumulado em inteligência artificial (I.A.), ramo da computação que se dedica ao desenvolvimento de modelos e programas que produzem nas máquinas um comportamento "inteligente". Nascida nos anos 40, a área produziu experimentos famosos como o robô Eliza, software que simulava diálogos reais na década de 60, e o supercomputador Deep Blue, da IBM, que em 1997 derrotou o campeão russo Garry Kasparov em uma partida de xadrez. O "cérebro" da máquina podia analisar cerca de 200.milhões de jogadas por segundo na busca do xeque-mate. O primeiro estágio da tradução universal – a de textos – já atingiu na internet um nível que linguistas e especialistas em inteligência artificial classificam como avançado. Isso quer dizer que, embora os erros de tradução da ferramenta sejam perceptíveis, os textos que ela apresenta permitem a compreensão do assunto de que eles tratam.
O funcionamento do tradutor do Google remete à Pedra de Roseta, o bloco de granito de 1,20 metro de altura que foi encontrado pelo exército de Napoleão, no século XVIII, e serviu de chave para a decifração dos hieróglifos egípcios. A Pedra traz inscrições de um mesmo texto na antiga língua do Egito e em grego. No século XIX, coube aos estudiosos Thomas Young e Jean-François Champollion relacionar os termos dos dois idiomas para desvendar a língua dos faraós. De forma análoga, os computadores do Google trabalham com pares de textos em línguas diferentes e calculam a probabilidade de palavras de uma delas corresponderem a termos da outra (confira o funcionamento). Com base nesses cálculos, o sistema é capaz de, em menos de um segundo, montar textos em 52 línguas, cada vez que um usuário o requisita.
O tradutor do Google está à frente dos rivais. Em pesquisas patrocinadas pelo governo americano, ele supera com frequência ferramentas de outras empresas e universidades. "Ele também é reconhecido como o melhor entre os sistemas comerciais", diz David Yarowsky, professor de ciência da computação da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Isso significa sobrepujar os rivais Bing Translator, da Microsoft, e Babel Fish, do Yahoo!. "Hoje, a potência da ferramenta está relacionada ao tamanho de seu banco de dados. E também ao uso de supercomputadores, com sua imensa capacidade de processar informações", explica Helena Caseli, pesquisadora do Laboratório de Linguística Computacional da Universidade Federal de São Carlos. Se são esses os fatores determinantes, é certo que o tradutor vai evoluir. O aumento na capacidade de processar informações dos supercomputadores é garantido pela Lei de Moore – que postula que a capacidade dos chips dobra a cada 24 meses. O banco de dados do Google também cresce continuamente. Ele começou a ser formado em 2006, com textos oficiais da ONU vertidos para seis idiomas. Em seguida, a empresa recorreu a documentos bilíngues de arquivos públicos. Finalmente, mergulhou na internet. Hoje, seus próprios usuários ajudam a ampliar o banco de dados sugerindo traduções alternativas àquelas que lhes são apresentadas. "Há, no entanto, certo limite para essa abordagem", diz Miles Osborne, pesquisador da Universidade de Edimburgo, na Escócia, que trabalhou no projeto do Google. É por isso que vem sendo estudada a inclusão de regras gramaticais no programa: além dos algoritmos, ele usaria essas regras para compor textos mais fluentes. Hoje, as traduções invariavelmente contêm tropeços de gramática. Assim mesmo, quem se detém em uma página estrangeira, esteja ela escrita em mandarim, africânder, vietnamita, japonês ou hindi, já sabe ao menos sobre o que se fala ali. "Há cinco anos, isso era impossível. Daqui a cinco anos, teremos mais fluência", afirma David Yarowsky.
À medida que os tradutores avançarem, seus impactos deverão se espalhar pelas mais variadas áreas. No campo acadêmico, por exemplo, o avanço será dramático. "Em algumas áreas, como ciência e tecnologia, as versões automáticas poderão ser até melhores do que as feitas por humanos, pois, para nós, é muito difícil guardar detalhes de temas específicos", diz Yarowsky. Considere-se que atualmente, nos campos de ciências, tecnologia, finanças e administração, 90% do conteúdo de alta qualidade está em inglês, e a importância dos tradutores automáticos para milhões de estudantes e profissionais ao redor do mundo se torna clara. Yarowsky também aponta frutos na economia: "Será mais fácil vender produtos e serviços ao exterior, com a eliminação de custos com tradução de manuais técnicos, material promocional e e-mails". Atualmente, turistas já se beneficiam da tecnologia na hora de escolher destinos de viagem sem levar em conta a língua local, uma vez que ferramentas como a do Google estão disponíveis em celulares. Há outros dispositivos portáteis que fazem a conversão voz-texto ou texto-voz. Soldados americanos enviados ao Afeganistão já testaram tal aparelho, que dispara mensagens sonoras escolhidas pelos militares na língua local. "É a chance de pessoas de todas as partes do mundo saberem o que as demais pensam. Assim, suas diferenças podem ser minimizadas", diz Yarowsky. "Eu não sei o que um garoto de Bagdá pensa sobre os Estados Unidos, mas gostaria de saber." O Google já colocou seu arsenal também à disposição de outras ferramentas. Além de verter páginas da web, seu know-how na área traduz documentos apresentados por usuários, chats de texto via Google Talk e até converte legendas de vídeos no YouTube. Para conectar línguas e mentes via celular, precisará agregar ao sistema o reconhecimento de voz, desenvolvido por várias empresas ao redor do mundo. "A tradução voz a voz é incrível, e nós adoraríamos realizá-la", reconhece Nate Tyler, relações-públicas do Google internacional. É mais do que isso. E, embora a empresa tente despistar, o mercado espera dela a ferramenta para a próxima década.
Laílson Santos

Laura Guzman
A americana de 20 anos está há quatro meses em São Paulo, onde realiza um intercâmbio universitário. Ela recorre ao tradutor automático para dirimir dúvidas na hora de escrever e ler artigos extensos em português
"Eu me sinto segura para usar o idioma, mas vez ou outra as dúvidas aparecem"

A linguagem cotidiana já começa a ser desbravada pelos tradutores automáticos. A frase "Cê vai lá né?", por exemplo, recebe uma tradução bastante adequada no Google Tradutor: "You going there right?". A própria empresa reconhece, contudo, que sua máquina tem um limite claro: a literatura, sobretudo aquela que subverte a gramática e abusa da ironia, fazendo com que uma mesma palavra possa ter vários significados. "Se você tentar traduzir poesia pelo sistema, vai receber um novo tipo de poesia", brincou, durante uma apresentação, o pai da ferramenta do Google, o alemão Franz Josef Och. Mas isso não é demérito nenhum. Há uma infinidade de estudos literários que falam da "impossibilidade da tradução" – ou que, ao menos, lembram o velho adágio "Traduttore, traditore" ("Tradutor, traidor"). "Não existe efetivamente tradução perfeita entre línguas. Cada uma delas tem estrutura e recursos idiomáticos próprios, intraduzíveis. Você pode convertê-los em termos semânticos, mas não analíticos", diz Jacó Guinzburg, tradutor de francês, inglês, alemão, iídiche e hebraico. "Mas é claro que existem alguns trabalhos excelentes. É o caso da versão de As Minas do Rei Salomão feita por Eça de Queiroz: em inglês, é uma obra de segunda, mas se tornou primorosa em português."
Com o avanço dos sistemas de tradução de línguas por computador, a exigência de aprender um idioma estrangeiro poderá ser abalada. Estudo da empresa de RH Catho Online mostra que o salário médio do brasileiro que domina o inglês e o espanhol é em média 125% superior ao de trabalhadores que não falam esses idiomas. Mas, se a tecnologia evoluir como se espera, a questão terá de ser revista: valerá a pena investir mais de 50 000 reais, custo de um curso completo de inglês de primeiro nível, se em tese for possível contar com as máquinas? "Quando têm a oportunidade de escolha, as pessoas preferem se expressar no idioma materno", diz o linguista britânico David Crystal, estudioso das relações entre língua e internet. "A eficiência dos sistemas de tradução poderá provocar certo desinteresse pelo aprendizado de idiomas estrangeiros." Mas seria um erro abandonar de vez o hábito de aprender línguas. O italiano Luciano Floridi, filósofo da informação, lembra que conhecer um idioma é uma experiência insubstituível, um mergulho em outra cultura. "Há palavras intraduzíveis: se você quer falar sobre saudade, tem de usar o português", exemplifica. Isso, contudo, não demove o filósofo da posição de entusiasta da tradução digital, que para ele ocorrerá em um regime de perdas e ganhos. "Imagine que eu nunca tenha ido ao Brasil e certo dia vá a um restaurante típico em Londres: a receita é brasileira, mas a linguiça é inglesa. Ou seja, não é o mesmo que ir ao Brasil, mas é melhor do que nada."
Bruno Magalhaes/Nitro

Felipe Carvalho Zulato
Navegar pelas redes sociais é tarefa do relações-públicas de 23 anos, que vive em Belo Horizonte. Antes de descobrir o tradutor, conferir as páginas de sites japoneses era frustrante
"As traduções ainda pecam na concordância, mas ao menos me permitem avançar no trabalho"

Se tivessem surgido mais cedo, como ansiava o homem desde o princípio, as ferramentas de tradução automática bem poderiam ter sido de grande ajuda em momentos cruciais da história. Durante a Batalha de Cajamarca pela conquista do Peru, em 1532, coube a um jovem nativo chamado Felipillo mediar o encontro entre os espanhóis, comandados por Francisco Pizarro, e os incas. Por má-fé ou não do tradutor, o rei Atahualpa foi levado a entender que os espanhóis queriam lhe impingir a condição de vassalo do rei espanhol. A negociação foi um fracasso e precipitou a guerra, ocaso inca. Quatro séculos depois, outro entrevero. Em 26 de julho de 1945, as forças aliadas apresentaram a Declaração de Potsdam, um ultimato que dava a Tóquio duas alternativas: rendição incondicional ou destruição total. Dois dias depois, o primeiro-ministro Suzuki Kantaro disse aos jornais de seu país que a declaração não tinha "nenhum valor", acrescentando à frase seguinte o termo mokusatsu – que pode assumir os significados distintos de "ignorar" ou "silêncio". O jornal The New York Times estampou em sua primeira página: "Japão rejeita ultimato aliado de rendição". Tradutores afirmariam mais tarde que melhor seria dizer que os japoneses "silenciaram". As bombas atômicas caíram sobre Hiroshima e Nagasaki sete e dez dias depois, respectivamente. Há dúvidas sobre o efeito que outras traduções poderiam exercer nos dois episódios. Mas o fantasma da diferença linguística perpassa a história. Agora, com os tradutores automáticos, o homem tem a chance de derrubar, com a ajuda da tecnologia, a barreira que Deus, segundo a tradição bíblica, ergueu com a Torre de Babel.


Ana Rojas

Nicholas Ostler
O especialista britânico em história das línguas enxerga no tradutor do Google um aprimoramento da globalização, com novas oportunidades para o indivíduo.
E sentencia: o inglês será a última língua franca
"As pessoas se darão ao luxo de falar com outras culturas usando o próprio idioma"

Peter Dasilva/The New York Times

Franz Josef Och
O alemão que chefia o time de tradução do Google, diante da Pedra de Roseta, que no século XIX ajudou a decifrar os hieróglifos egípcios e serve de modelo ao sistema automático do gigante de buscas. O tradutor moderno alia números e palavras, matemática e linguística para converter idiomas
"No futuro, teremos muito mais. A máquina será capaz de quebrar barreiras, levando a informação aonde quer que as pessoas precisem dela"
Lia Lubambo

David Yarowsky
O professor de ciência da computação da Universidade Johns Hopkins aposta no poder de aproximar pessoas da ferramenta de tradução. A cada língua colocada à disposição na internet, surgem chances de aumentar a troca de ideias e diminuir as diferenças culturais
"Eu não sei o que um garoto de Bagdá pensa sobre os Estados Unidos, mas gostaria de saber"
Suzete Sandin /Tempo Editorial
Vinício Fornasari
Aos 52 anos, o empresário da construção civil usa o Google Tradutor a partir de Florianópolis para checar minúcias de contratos firmados com companhias da China, Japão e Turquia, além de prospectar oportunidades pela internet
"A ferramenta tem ajudado muito nas negociações"

A ficção chegou primeiro

A literatura e o cinema inventaram dispositivos – ou geringonças – capazes
de simular a comunicação entre línguas muito antes dos tradutores automáticos
Babel fish
Colocado no ouvido, o peixe de O Guia do Mochileiro das Galáxias, dos anos 70, absorve energia mental e libera ondas telepáticas: assim, é claro, o tímpano do anfitrião entende qualquer língua.


Divulgação
Tradutor Universal
O dispositivo da saga Jornada nas Estrelas, que surgiu nos anos 60, foi uma espécie de precursor do modelo do Google: usa cálculos e recorre a um banco de dados para comparar idiomas. Uma diferença: pode ler ondas cerebrais.


The Pictre Desk
Robô C-3PO
O androide medroso e falador de Star Wars, criado por George Lucas nos anos 70, é o tradutor mais culto da ficção: é fluente em 6 milhões de idiomas. E ainda pertence ao grupo de robôs diplomáticos.



















































Com reportagem de Daniel Jelin, Manuela Franceschini e Nathalia Goular

Fonte: Revista Veja

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

De olho no relógio, por Francisco Turra*



As características comportamentais de cada povo ajudam a determinar seu grau de desenvolvimento. Refiro-me às idiossincrasias manifestadas tradicionalmente em algumas culturas – como a disposição para o trabalho dos chineses, a austeridade dos alemães e a extroversão dos italianos. Do outro lado do oceano, por sua vez, o Brasil parece apresentar uma tendência natural de resolver problemas do cotidiano mesclando bom humor e criatividade.

Seria um exagero supor que esse conjunto de predicados é capaz, por si só, de decidir o progresso de toda uma nação – dependente, antes de tudo, de diversos fatores políticos, econômicos e sociais. Mesmo assim, o comportamento distinto de um povo tende a definir o modo pelo qual ele aproveita oportunidades e enfrenta situações. Para o bem ou para o mal.

Para o mal, a propósito, está nossa inconfundível falta de pontualidade, um dos sintomas do conhecido “jeitinho brasileiro”. Indicar o horário de uma reunião, um encontro ou um almoço é, na maioria das vezes, mera formalidade. Sabe-se, de antemão, que a hora estipulada estará necessariamente sujeita a um generoso tempo de tolerância. E assimilamos essa prática como algo efetivamente tolerável e compreensível, mesmo sem qualquer espécie de justificativa.

Detalhe sem importância? Vício perdoável? Creio que não, principalmente quando observo o comportamento dos países mais desenvolvidos. Em todos eles, reina a reverência absoluta por prazos, cronogramas e itinerários. Certa ocasião, na Inglaterra, em viagem que fiz como ministro da Agricultura, nossa delegação foi avisada de que a partida, no dia seguinte, ocorreria exatamente às 8h3min. A minúcia causou estranheza entre a maioria dos brasileiros, e muitos já ficaram certos de que se tratava de preciosismo inglês. Entretanto, conforme combinado, o transporte chegou pontualmente, respeitando tanto a hora quanto os minutos estipulados. E não esperou os descrentes que apostaram no atraso...

Atentar para a pontualidade é uma atitude que indica muito do caráter de uma pessoa. Ao honrar compromissos dentro dos horários estabelecidos, uma pessoa demonstra civilidade e seriedade. Seja no ambiente social, seja no profissional, esse é um hábito que valoriza a capacidade de um indivíduo em cumprir com o que foi acertado e, portanto, de respeitar e ser respeitado pelo próximo.

Eis uma atitude que precisa ser definitivamente inserida no cotidiano dos brasileiros. Nosso país está evoluindo a passos largos para o estágio de potência econômica global. Resta agora que alguns aspectos culturais acompanhem esse progresso. Que continuem a espontaneidade, o carisma e a alegria de viver. Mas dentro do horário, por favor.

*Presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frangos (Abef), ex-ministro da Agricultura

Fonte: Jornal Zero Hora
Imagem em: tertuliafamalicense.blogspot.com/2009/02/pont..

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Universidade e sociedade, por Carlos Alexandre Netto*


A universidade é instituição do conhecimento. Em todos os seus espaços, se difunde o saber e a cultura acumulados desde o início da humanidade. A universidade é a casa da ciência. O maravilhoso desafio intelectual de leitura das atividades humanas e da natureza gera novo conhecimento e, ao avançar no entendimento, transforma e constrói o mundo. Mais do que uma gigantesca torre de saberes, a universidade pulsa e encontra sentido em sua íntima relação com a sociedade, através da qual se reinventa constantemente.

O fazer acadêmico confere à universidade características de transcendência. Patrimônios da humanidade, o conhecimento e a cultura são esteios da esperança e da confiança no futuro; são valores perenes, ainda que sejam repletos de contradições, sujeitos a críticas e geradores de antagonismos. Essa transcendência é um dos elementos marcantes da vivência de toda a sua comunidade e dos setores da sociedade contemplados em seus projetos sociais, de extensão, de pesquisa e de inovação, bem como em suas inúmeras atividades formativas. E, ao integrar as redes de pesquisa e de comunicação que permitem o acesso quase imediato às grandes bibliotecas digitais, ao conhecimento universal e a seus artífices, a universidade vê, cada vez mais, diluírem-se suas fronteiras.

A universidade pública tem o dever da educação pública e gratuita. Com a missão de democratizar o acesso ao conhecimento e de levá-lo à comunidade, torna-se espaço de inclusão e de cidadania. Centro de irradiação do novo e do pluralismo das ideias, a universidade contribui para a formação de profissionais e de cidadãos que assumem compromisso social baseados nos valores nela cultivados e motivados pela gratidão para com esta singular instituição que se eterniza na constante renovação das pessoas.

É reafirmando esses valores e convicções que a Universidade Federal do Rio Grande do Sul celebra, neste mês de novembro, os 75 anos de sua fundação. Conquista da sociedade gaúcha, a pioneira entre as universidades públicas do Estado vem forjando sua história, obra coletiva dos milhares de pessoas que dedicaram a ela o melhor de suas vidas. Uma instituição profundamente enraizada nesta terra e na realidade de nossa gente, instância de desenvolvimento social, econômico, cultural e científico do Estado e do país.




*Reitor da UFRGS

 
Fonte: Jornal Zero Hora

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Maitê Proença: uma vergonha!

Tomei conhecimento deste lamentável episódio, através do e-mail que recebi do Amigo Miguel Loureiro de Portugal. Gostaria de compartilhar com os leitores dos meus blogs e meus alunos do 2ª série do Ensino Médio.

O vídeo que está a revoltar Portugal, não só através da cadeia de mails, mas em todas as TVs.

Grave é a ignorância da sra., a baixeza da "Saia curta", que detesto e a leviandade de tanta mulher feminista, mas intelectual e mentalmente débeis!
Este vídeo foi para o ar no programa Saia Justa. A actriz (?) e escritora (?) Maitê Proença estava em Portugal por causa de uma peça teatral e aproveitou o seu momento de horas vagas (?) para fazer algumas imagens para o quadro do semanal do canal GNT. A pergunta é: como isso foi para o ar? O tema? Aquele mesmo assunto pobre de sempre: gozar com os portugueses. Como isso ainda não basta, ela terminou o vídeo cuspindo. A pergunta é novamente: para quê? Será um laboratório para ela ser “o próximo chafariz” da nova novela da TV Record?

Todo o vídeo é uma ofensa a Portugal e aos portugueses. Começa por ir a Sintra para mostrar uma porta de uma casa aparentemente comum com o 3 virado para a direita e, sem perceber o significado esotérico, zoa com os portugueses, pois diz que aquilo demonstra que está em Portugal - os caras nem sabem colocar direito um algarismo numa porta! Só vai a Sintra, que tem imensos monumentos, castelos e palácios, para gozar com aquilo.


Depois goza com o Tejo ser, para os portugueses, o mar, quando na realidade ela está junto ao Estuário do Tejo, onde o rio deságua no mar e ambos se confundem. Fala também no Salazar, de que ela não sabe nada, imaginando que, por ter sido um ditador, foi igual a Hitler ou a Mussolini. Goza com o túmulo de Camões, com o estilo arquitectónico manuelino, enfâtisando o Manuel, nome injuriado no Brasil nas piadas de português e fala também no epísódio no Hotel com o seu PC, quando o Hotel tem áreas de Internet e se tinha problemas com o seu Computador pessoal, deveria usar o equipamento disponível no Hotel para os clientes. O Hotel não tem obrigação de reparar os equipamentos pessoais dos clientes, sejam PC's ou carros ou máquinas de barbear ou sei lá o quê.


Eu acho que ela vai ter muita vergonha quando souber das reações dos portugueses ao vídeo e vai pensar duas vezes antes de voltar a falar do país e dos seus habitantes. Infame, só revelou ignorância e rancor, talvez dor de cotovelo.

Quem deveria ter acesso a este vídeo eram os milhares de portugueses que gastaram muitos euros para assistir às suas peças de teatro em Portugal. O que lhe vale é que o povo português é o mais simpático e sereno do mundo.

Enfim... vejam o vídeo e, por favor, divulguem:



Fonte: E-mail

domingo, 4 de outubro de 2009

A cultura da burla




Penso que educação vem de casa, começa nos pequenos detalhes, quase insignificantes.
Mas a cada dia que passa fico mais chocada com o que ouço e vejo. Muitos alunos me questionam e perguntam por que não o jeitinho brasileiro? A grande maioria tem orgulho de usar o jeitinho brasileiro, de levar vantagem em tudo.
É o exemplo que vem de cima... e o outro que vem de casa.
A impunidade...
O que será do nosso país?

O editoral do Jornal Zero Hora de Porto Alegre ( nº16114 - 04/10/2009) diz tudo:

A cultura da burla

O rumoroso episódio do adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que seria realizado neste final de semana em todo o país, evidenciou mais uma vez o quanto a corrupção está incrustada na sociedade brasileira. Basta surgir uma oportunidade e logo aparecem espertalhões para tirar vantagem. Os trapaceiros sobrevivem, prosperam e se multiplicam por causa da impunidade, mas também – e principalmente – porque muitas pessoas que se consideram honestas compactuam com as burlas. Quem roubaria uma prova escolar se não tivesse a certeza de que alguém pagaria por ela?

No caso específico, felizmente, o ciclo vicioso foi interrompido por uma denúncia responsável. Difícil é saber se antes de oferecer a informação para um órgão de imprensa os vigaristas não a repassaram para outras pessoas interessadas em conhecer antecipadamente as respostas das questões do concurso. Quem cola na escola, fura fila, recebe ou paga propina, acha-se no direito de estacionar em fila dupla mesmo que isso prejudique outras pessoas ou comete pequenas contravenções porque não dá nada, ou porque outros também o fazem, quem assim procede está contribuindo para disseminar no país esta cultura da burla, geradora das grandes falcatruas.

Enquanto o Brasil continuar sendo o país do jeitinho – e algumas pessoas se orgulharem disso –, será difícil promover a mudança de mentalidade necessária para um combate efetivo da corrupção. Como ensina a teoria das janelas quebradas, uma casa que parece abandonada serve de atrativo para marginais, drogados e criminosos. Um simples vidro quebrado que não é consertado pode ser o gerador de um ambiente propício à criminalidade. Da mesma maneira, a tolerância com pequenas irregularidades e com pequenos delitos acaba gerando um modelo de corrupção e impunidade.

É evidente que os grandes golpes devem ser reprimidos com vigor, que todos os brasileiros precisam continuar vigilantes com a administração pública, cobrando de governantes e representantes políticos total integridade. Mas têm o dever, também, de não transigir com qualquer tipo de irregularidade, independentemente de sua dimensão, ocorra ela na área pública ou no setor privado. O país convive com esperteza demais, com sujeira demais, com salafrários demais. Não é possível que dois ou três facínoras interessados em ganhar dinheiro fácil prejudiquem desta forma milhões de estudantes, perturbem todo um sistema educacional, provoquem o adiamento de vestibulares, causem tanto transtorno e continuem impunes. As autoridades policiais e judiciais têm o dever de responsabilizar esses delinquentes. Mas tão importante quanto achar os culpados e puni-los devidamente é começar logo a prevenir a burla, o que só poderá ocorrer através da educação, do exemplo e do envolvimento de todos com a correção deste mal endêmico que parece não ter fim.



Veja a imagem em: alinelealbr.blogspot.com/

domingo, 20 de setembro de 2009

Herói sem nome: o peão da guerra!, por Antonio Marcelo Pacheco*

Todas as culturas apresentam os seus mitos e símbolos. Independentemente do objetivo que se dê a esses mitos, o sujeito coletivo busca se construir na constante reificação de sua história. Esse é o caso da Revolução Farroupilha, que esperamos mais uma vez comemorar.

Tal revolução, contada e recontada a partir de variados interesses, encarna uma idealização, uma imagem de nossa tradição que necessariamente não reflete toda a verdadeira faceta daquele longo conflito de 10 anos. Entre caudilhos e imperiais, entre uma política econômica do charque e pretensões confusas de ideias republicanas, construímos uma trajetória histórica de independência, orgulho e tradições originalmente únicas. Mas o 20 de Setembro é muito maior do que o culto a Bento, Garibaldi, Anita, Canabarro etc. Essa data é do anônimo guerreiro conhecido por peão. Qualquer peão que, acompanhando o estancieiro, lutou essa guerra sem nem mesmo ter condições de compreendê-la.

É o peão, sem nome específico e sem sobrenome destacado, que figura cavalgando pelo campo do Rio Grande, lutando numa guerra que não é sua, mas que se fez sua na medida em que a relação entre ele e o caudilho era pessoal, marcada pela honra, pela fidelidade e no compromisso da hierarquia e da disciplina. É na aurora dessa revolução que reluzem os peões de todos os cantos de nosso Estado, carregando não o sonho de uma liberdade que nem mesmo é abolicionista, mas que é libertária quanto à ideia do gaúcho, do pampa, do centauro que se confunde com a lenda, do guerreiro que a cavalo é senhor de sua própria estrada.

O 20 de Setembro é mais do que o cerimonial oficial, maior do que os personagens principais desse ato que confrontou o império e o imperador, mais significativo do que uma ideia geral de República que muitos à época não podiam efetivamente compreender. Nessa data, maragatos e pica-paus, castilhistas e borgistas, esquerda e direita, se unem para retocar o fato, a revolução, geralmente esquecendo-se do herói humilde, mas que rebrilha nas cores de nossa bandeira: o peão, verdadeiro senhor dessa história esquecida que começou e terminou da mesma maneira para ele: na honra de seguir o caudilho, na guerra e na paz.

Eis mais um 20 de Setembro. Que do silêncio do campo surja esse cavaleiro, “Cambará” na guerra, “Terra” na paz, vento no tempo da história dessa Revolução Farroupilha!


*Professor de Direito

Fonte: Jornal Zero Hora - nº16100 - 20 de Setembro de 2009.

Recomendo:
Leia mais sobre as comemorações da Semana Farroupilha no:
Jornal Zero Hora na edição online
Site da Semana Farroupilha

sexta-feira, 3 de julho de 2009

AVANÇO DA GRIPE - Vírus deixa chimarrão mais amargo

Autoridades sanitárias na Argentina abrem polêmica ao condenar mate compartilhado

O vírus da gripe que assombra os gaúchos pode atingir um dos símbolos do Rio Grande: a roda de chimarrão, tradição em torno da qual, ao longo dos anos, enquanto a cuia passa de mão em mão, foram tramadas revoluções, realizados negócios, compostas poesias e declarados amores.

Na Argentina – onde já morreram 44 pessoas com a doença –, os médicos da Fundação do Centro de Estudos Infectológicos, Roberto Debbag, e o presidente da Sociedade Argentina de Infectologia, Pablo Bonvehí estão desaconselhando o mate compartilhado por entender que contribui para o alastramento do vírus.

– Seria uma insanidade desaconselhar as rodas de mate – diz o secretário estadual da Saúde, Osmar Terra.

Terra enfileira três razões. A primeira é que o nível da presença do vírus no Rio Grande do Sul é bem inferior ao da Argentina. A segunda é que há um costume entre os gaúchos: o de as pessoas gripadas ficarem fora da roda de mate. Por último, Terra diz que há formas nas quais a transmissão é mais fácil.

– É muito mais perigoso uma mão suja para transmitir o vírus do que o chimarrão – afirma.

Teoricamente, é possível acontecer a transmissão da doença pela bomba de chimarrão, alerta o médico Luciano Goldani, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e chefe da unidade de infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. O vírus é transmitido pelo ar, está presente na secreção respiratória, pode se misturar à saliva e ir parar na bomba do mate, mas ele só sobreviverá se a temperatura do metal estiver abaixo dos 70°C.

Breno Riegel Santos, chefe do Serviço de Infectologia do Hospital Conceição, define a situação que se criaria, caso fosse desaconselhada a roda de mate:

– Seria mais uma contribuição para valorizar um vírus menos perigoso que das gripes comuns.

Paixão Côrtes, folclorista e um dos baluartes da cultura gaúcha, lembra que há uma tradição entre os mateadores do Rio Grande do Sul.

– Sempre que alguém sofre de algum mal, como uma gripe, ele não toma o chimarrão – explica.

Faça chuva, faça sol, Manoel Olmedo, 69 anos, está no Arco do Expedicionário, no Parque Farroupilha, em Porto Alegre, com as suas garrafas térmicas com água quente e uma cuia de mate. Ele integra uma das dezenas de rodas de mate que acontecem pela manhã no parque.

– Tenho essa rotina há mais de 20 anos e não vou interrompê-la agora por causa da gripe – garante.

Fonte: Jornal Zero Hora - nº16018 - 02 de Julho de 2009.

sábado, 11 de abril de 2009

O ESTUDO DE COISAS DO COTIDIANO


por Phil Bartle
traduzido por Inês Rato
Muito da Sociologia é observar as coisas sobre as quais já sabemos alguma coisa, mas de um modo diferente.
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A Sociologia olha muitas vezes para eventos e situações do cotidiano.
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Interpreta-as através da perspectiva sociológica (modo de olhar para elas).
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Isto passa-se porque elas fazem parte da interpretação do observador tanto como são algo intrínsecas nelas mesmas.
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Enquanto que o modo como fomos educados dá-nos pelo menos uma forma de as ver, a sociologia dá-nos outra para ver.
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Além disso, a sociologia fornece-nos diversas perspectivas através das quais se pode observar esses eventos e condições do cotidiano.
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Ao contrário da forma habitual com que vemos as coisas e somos ensinados a ver as coisas, que tende a ser direccionada (modo como devemos fazer e julgar as coisas), a sociologia ensina-nos a observar de modo científico (descritivo) e de modo de julgamento.
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Existem muitos exemplos de como vemos as coisas de modo diferente na sociologia em relação à vossa vida cotidiana.
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  • A sociedade não são as pessoas, por exemplo, porque as pessoas são organismos biológicos que transmitem as suas características através dos genes, enquanto que a sociedade é cultural, sendo conjuntos ou sistemas de valores e crenças (acções e conhecimentos) que foram transmitidos através de símbolos. A sociedade é "transportada" pelas pessoas.
  • A tecnologia faz tanto parte da cultura como um ballet ou uma sinfonia. Transmite-se por símbolos e não por genes.
  • A mesma situação pode ser vista de modos radicalmente diferentes, mesmo dentro da sociologia, tal como na perspectiva de conflito, que vê competição e dinâmica, versus a funcional, que vê estabilidade e procura sentido.
  • A sociologia é como todas as disciplinas científicas que têm modelos que diferem do conhecimento quotidiano, tais como o nascer do sol de manhã,* ou modelos de átomos.
  • Em cause todas as aulas deste curso nós estudámos as diferenças entre os pressupostos do senso comum quotidiano e observações científicas.
  • A ideia de uma família modelo, ortodoxa, monolítica ou "natural" é um mito. Nenhuma sociedade tem uma prática que não esteja plena de variações.
  • Ser humano é ser ambíguo, porque aprender uma língua implica assumir pressupostos e categorizar uma grande variedade de sentidos para dentro de caixas (ex. palavras).
  • Forças sociais externas são tão importantes como processos internos (incluindo psicológicos) na dinâmica interna de cada família.
  • Para ser objectivo e científico, precisamos de ser descritivos e não normativos.
  • Para se ser objectivo a respeito de cultura iria ser necessário saber e experimentar a ausência de cultura. Seriamos peixes estranhos, fora de água, se o fizessemos. Experimentar uma cultura diferente iria dar-nos uma visão binocular acerca de cultura, mas não objectividade genuína. Não podemos escapar à cultura para a observar.
  • Um membro de uma qualquer cultura é o que é provavelmente menos objectivo em relação a ela. Dizer que apenas os xxxs são qualificados para ensinar a respeito da cultura xxx é na sua essência racista.
  • Ser humano é ter cultura e ser social, mas isso não garante que nós compreendemos a cultura ou a sociedade.
  • Aprendemos que as nossas características, que podemos ter pensado que estavam "no nosso sangue," são transmitidas quando somos socializados, i.e. por meio de símbolos.
  • Os fatos não falam por eles mesmos; significados não são intrínsecos, mas são-nos impostos quando observamos aquilo que chamamos de factos.
  • Existe resistência a aprender a ver as coisas através de uma perspectiva sociológica, porque pensamos que já as conhecemos, e é mais difícil desaprender algo que já sabemos do que aprender algo que aceitamos que ainda não sabemos.
. *Nota de rodapé: Existe uma diferença entre rodar e girar. É a Terra a rodar sobre o seu próprio eixo que nos dá a ilusão de que o sol surge no céu todas as manhãs. A Terra girar à volta do sol não produz o nascer do sol; origina as estações do ano (em conjunto com o ângulo de 23o da Terra).

Fonte: http://www.scn.org/mpfc/modules/per-evp.htm

sexta-feira, 6 de março de 2009

Mundialização e Cultura - Edgar Morin

É evidente que o desenvolvimento da mundialização cultural é inseparável do desenvolvimento mundial das redes midiáticas, da difusão mundial dos modos de reprodução (cassetes, cds, vídeos) e que a internet e a multimídia acelerarão e amplificarão todos os processos, diversos, concorrentes e antagônicos (ou seja, complexos) que evocamos.

Não cremos na desaparição do livro, nem na do cinema; haverá provavelmente até um retorno a um e a outro, o primeiro na intimidade da meditação, da solidão, da releitura, o segundo na comunhão em salas escuras. Cremos também que apesar de seus avanços impressionantes, os processos de padronização e os imperativos do lucro serão contrabalançados pelos processos de diversificação e as necessidades de individualização.

Trata-se de ir em direção a uma sociedade universal fundada sobre o gênio da diversidade e não sobre a falta de gênio da homogeneidade, o que nos leva a um duplo imperativo, que traz em si sua contradição, mas que não pode fecundar fora dela: em toda parte, preservar, estender, cultivar e desenvolver a diversidade.

A humanidade é ao mesmo tempo una e múltipla. Sua riqueza está na diversidade das culturas, mas podemos e devemos nos comunicar dentro da mesma identidade terrestre. Ao nos convertermos verdadeiramente em cidadãos do mundo, partilhando uma mesma cultura das Cem Flores, é que nos tornamos vigilantes e respeitadores das heranças culturais.

Edgar Morin
Sociólogo Francês

(Conferência de Abertura do Seminário Internacional de Educação e Cultura,
realizado no SESC Vila Mariana, agosto/2002 – São Paulo – disponível na íntegra no link http://edgarmorin.sescsp.org.br/arquivo/download/arquivos/morin_abre_por.doc)

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