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sábado, 6 de março de 2010

O que temos a comemorar?, por Cesar Pereira Lima*



“Somos da geração nós fazemos (e não temos) tudo.

Ainda não temos os melhores salários, assumimos a

maioria dos trabalhos domésticos e cuidados com as crianças.

Estupro e violência doméstica não são tratados como

crimes. Na verdade – ainda somos cidadãs de segunda classe.”

Marian Keyes, escritora irlandesa (2007)

Oito de março de 1857, uma fábrica de tecidos é fechada, cercada por policiais e incendiada em Nova York. Oito de março de 1910, é instituído o Dia Internacional dos Direitos da Mulher, na Dinamarca. A fábrica foi incendiada com as trabalhadoras dentro como represália às suas reivindicações – redução da jornada de trabalho de 16 para 10 horas, equiparação salarial com os homens e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

Fevereiro de 2010, o governo francês nega cidadania a homem que obrigava sua mulher, francesa, a cobrir o rosto com um véu – ele não merecia receber o benefício da nacionalidade. Ao mesmo tempo, foi proposto projeto que multa em 750 euros quem usar a burca em público. O presidente Sarkozy classificou-a de “signo de servidão”, contrário à ideia da República Francesa sobre a dignidade da mulher. Além disso, declarou que a veste “não é bem-vinda ao território francês”.

Esta luta é antiga. Durante a Revolução Francesa (1789), os filósofos Condorcet e Lyégès tentaram, infrutiferamente, estender os direitos civis às mulheres. Pode-se constatar que esta discriminação continua viva e ativa transcorridos mais de 220 anos da revolução e cem anos do Dia Internacional da Mulher, que ora transcorre.

Instrução e o acesso à universidade também são marcos importantes nesta caminhada. Foi uma gaúcha de Rio Grande, Rita Lobato, que, vencendo a hostilidade inicial dos colegas e professores, graduou-se em 10 de dezembro de 1887 na Faculdade de Medicina da Bahia. Feminista e política, só pôde iniciar seus estudos após o Decreto-Lei nº 7.247, de 19 de abril de 1879, rubricado por dom Pedro II, superando a discriminação da época.

O direito ao voto, que pretendia tornar as mulheres cidadãs de primeira categoria, ocorreu com a instituição do sufrágio universal, em 1918 na Inglaterra e em 1934 no Brasil.

Outra grande vitória foi a possibilidade da prática sexual sem as consequências de gravidezes indesejadas. Isto ocorreu graças a Gregory Goodwin Pincus, que em 1956 descobriu a pílula anticoncepcional, criando um contraceptivo seguro e simples que revolucionou o planejamento familiar e a prática sexual. Em 1960, o FDA licenciou o Enovid, a primeira pílula anticoncepcional.

Tão ou mais importante que os véus faciais, são os criados para aprisioná-las em situações inferiores e subalternas, realidades em que falta o ar da liberdade, com a falsa premissa de que isto é feito para sua proteção.

Um exemplo é o libelo contra a discriminação da figura feminina tão bem explicitado na personagem Precious, do excelente e emocionante filme Preciosa, concorrente ao Oscar de melhor filme em 2010. Preta, gorda, pobre, menor, semianalfabeta, de família desestruturada, com dois filhos resultantes de estupro paterno e HIV positiva, ela luta para sobreviver em seu mundo hostil.

Essas conquistas e avanços são acessíveis a todas as mulheres do mundo? Quantos centenários do Dia Internacional da Mulher não teremos de passar até que a igualdade e o respeito pela condição feminina sejam universalmente incorporados pelo planeta?

*Médico e professor universitário

Fonte: Jornal Zero Hora


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