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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Ciência neutra


No século 17, a busca por um meio de estabelecer a longitude levou cientistas a experimentar com métodos que, se não resolveram o desafio principal, o de assegurar a orientação dos barcos em alto-mar (o que só viria no século 18), trouxeram grandes avanços para a cartografia e a medição de distâncias em terra. Valendo-se da nova ciência da astronomia e dos movimentos dos planetas e seus satélites, Galileu e outros redesenharam o mapa do mundo. Tanto que o rei Luiz XIV da França, diante de um mapa revisado dos seus domínios, reclamou que estava perdendo mais território para seus astrônomos do que para seus inimigos.

Anos antes, um outro rei, Rodolfo II, da Boêmia, tinha tentado fazer o contrário, engajar a ciência, ou o que passava por ciência na sua época, na ampliação dos seus poderes. Rodolfo II tornou-se patrono de todas as artes claras e ocultas de que ouvia falar e recrutou para sua corte, além de artistas e pesquisadores “sérios”, como Tycho Brahe e Johannes Kepler, gente como os ingleses Edward Kelley, um vigarista metafísico, e John Dee, conhecido como conselheiro da rainha Elizabeth I para assuntos esotéricos. Na corte de Rodolfo II, experimentava-se com todos os tipos de divinação e apelo ao sobrenatural (seu astrólogo era o próprio Nostradamus) e dava-se ênfase especial à alquimia, com a qual o rei pretendia eternizar-se. Rodolfo II queria, também, o domínio do tempo e do destino.

Da ciência que prometia onipotência a reis interessados, como Rodolfo II, à que diminuía o território e, portanto, a majestade de Luiz XIV, andou-se um bom caminho na dessacralização do poder, e tudo em menos de um século. Ainda há governantes que se acham autorizados por Deus e a Natureza a reivindicar um poder eterno – ou pelo menos um terceiro mandato –, mas já são raros. E a neutralidade da ciência ajuda a sepultar qualquer presunção de favorecimento divino e qualquer mentira mantida por conveniência política ou vaidade. A ciência da estatística – escrevi tudo isto pensando nos dados recém-publicados pela Fundação Getulio Vargas sobre a melhoria na distribuição de renda no Brasil nos últimos anos – é um bom exemplo de ciência neutra. Não é a favor ou contra ninguém, mas é à prova de falsificações históricas.

Luiz Fernando Veríssimo

Fonte: Jornal Zero Hora - 24 de setembro de 2009 - N° 16104

domingo, 2 de agosto de 2009

Aprenda a chamar a polícia

Para refletir: Que país é esse?

Muito interessante esse texto do escritor gaúcho Luiz Fernando Veríssimo.


Eu tenho o sono muito leve, e numa noite dessas notei que havia alguém
andando sorrateiramente no quintal de casa.

Levantei em silêncio e fiquei acompanhando os leves ruídos que vinham lá de
fora, até ver uma silhueta passando pela janela do banheiro.

Como minha casa era muito segura, com grades nas janelas e trancas internas
nas portas, não fiquei muito preocupado, mas era claro que eu não ia deixar
um ladrão ali,espiando tranqüilamente.

Liguei baixinho para a polícia, informei a situação e o meu endereço.
Perguntaram-me se o ladrão estava armado ou se já estava no interior da
casa. Esclareci que não e disseram-me que não havia nenhuma viatura por
perto para ajudar, mas que iriam mandar alguém assim que fosse possível.

Um minuto depois liguei de novo e disse com a voz calma: -Oi, eu liguei há
pouco porque tinha alguém no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. Eu já
matei o ladrão com um tiro da escopeta calibre 12, que tenho guardada em
casa para estas situações. O tiro fez um estrago danado no cara!

Passados menos de três minutos, estavam na minha rua cinco carros da
polícia, um helicóptero, uma unidade do resgate, uma equipe de TV e a turma
dos direitos humanos, que não perderiam isso por nada neste mundo.

Eles prenderam o ladrão em flagrante, que ficava olhando tudo com cara de
assombrado. Talvez ele estivesse pensando que aquela era a casa do
Comandante da Polícia.

No meio do tumulto, um tenente se aproximou de mim e disse:
-Pensei que tivesse dito que tinha matado o ladrão.

Eu respondi:
- Pensei que tivesse dito que não havia nenhuma viatura disponível.

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