quarta-feira, 6 de maio de 2009

A Compaixão: Fundamento da Felicidade Humana





“Penso que todos os seres humanos têm um sentimento inato de ‘si’. Não podemos explicar por que razão este sentimento está presente - o facto é que está. Este sentimento é acompanhado do desejo de sermos felizes e da vontade de acabarmos com o sofrimento, o que é plenamente justificado: temos naturalmente o direito de alcançar tanta felicidade quanta nos for possível, tal como temos o direito de pôr fim ao sofrimento.

Na verdade, isto não se limita aos seres humanos; na perspectiva budista, mesmo o mais pequeno insecto tem este sentimento e tenta, em função das suas capacidades, evitar situações infelizes e obter alguma felicidade.

Hoje vou falar sobre o modo como um ser humano, enquanto indivíduo, pode encontrar a felicidade - porque eu acredito que a chave de todo o resto está no indivíduo. Para que a mudança surja numa comunidade, a iniciativa tem de partir do indivíduo. Se o indivíduo se tornar uma pessoa boa, calma e tranquila, isso cria automaticamente uma atmosfera positiva na família que o, ou a, rodeia.

O nosso modo de ser funciona de tal maneira que somos frequentemente perturbados por factores exteriores, pelo que um dos lados da questão consiste em eliminarmos os problemas que nos rodeiam. O meio-ambiente, no sentido da situação ou daquilo que nos rodeia, é um factor muito importante para estabelecermos um estado de espírito feliz. Contudo, o outro lado da questão, a nossa própria atitude mental, é ainda mais importante.

O ambiente que nos rodeia pode não ser muito favorável, pode mesmo ser hostil, mas se a nossa atitude interior for adequada, essa situação acaba por não perturbar a nossa paz de espírito. Por outro lado, se a nossa atitude não for correcta, mesmo rodeados de amigos e de facilidades seremos incapazes de ser felizes. Por isso, a atitude mental é mais importante do que as condições exteriores. Apesar disso, parece-me que a maior parte das pessoas está mais preocupada com condições exteriores, negligenciando a sua atitude de espírito interior. A minha sugestão é que devíamos dar mais atenção às nossas qualidades interiores.

Há inúmeras qualidades que são importantes para a paz de espírito, mas, pela pouca experiência que tenho, creio que um dos elementos mais importantes é a atitude humana de afeição e de compaixão: o sentimento que nos leva a interessar-nos pelos outros.

Permitam-me que explique o que entendo por compaixão. Habitualmente, o nosso conceito de compaixão ou de amor refere-se ao sentimento de proximidade que temos pelos nossos amigos e entes queridos. Por vezes a compaixão acarreta também um sentimento de piedade, o que não está certo - qualquer sentimento de amor ou de compaixão que implique olhar de cima para os outros não é uma verdadeira compaixão. Para ser autêntica, a compaixão deve basear-se no respeito pelo outro e na compreensão de que os outros, tal como nós, têm o direito de ser felizes e de acabar com o sofrimento. A partir daí, porque tomamos consciência do seu sofrimento, desenvolvemos um verdadeiro sentimento de preocupação pelos outros.
Quanto à proximidade que sentimos pelos nossos amigos, em geral esse sentimento é mais um tipo de apego do que compaixão. A verdadeira compaixão deve ser imparcial. Se nos sentimos próximos dos nossos amigos, mas não dos inimigos ou do grande número de pessoas que nos são desconhecidas e indiferentes, nesse caso, apenas temos uma compaixão parcial ou preconcebida.

Como disse atrás, a verdadeira compaixão baseia-se no reconhecimento de que o direito dos outros à felicidade é idêntico ao nosso e que, por conseguinte, mesmo um inimigo é um ser humano que, tal como nós, aspira à felicidade e, tal como nós, tem o direito de ser feliz. Chamamos compaixão ao sentimento de interesse pelos outros que se desenvolve nesta base - uma compaixão que se estende a todos, independentemente da atitude amigável ou hostil que possam ter por nós.
Um aspecto deste tipo de compaixão é o sentimento de responsabilidade pelos outros. Quando desenvolvemos semelhante motivação, a nossa autoconfiança cresce automaticamente.

A compaixão dá-nos igualmente uma grande força interior. Uma vez desenvolvida, ela abre-nos, naturalmente, uma porta interior, através da qual podemos comunicar facilmente e de coração a coração com os nossos semelhantes, os seres humanos, e mesmo com os outros seres sensíveis. Por outro lado, se tivermos ódio e maus sentimentos pelos outros, eles poderão sentir o mesmo por nós.

Eu tento criar sempre um terreno propício à amizade com as pessoas. Quando encontro alguém pela primeira vez, por exemplo, dispenso apresentações. Essa pessoa é, obviamente, um outro ser humano. Talvez algures no futuro os avanços da tecnologia me façam confundir um robot com um ser humano, mas até agora isso nunca me aconteceu. Vejo um sorriso, uns dentes a espreitar, um olhar... e reconheço logo essa pessoa como um ser humano! Sendo assim, do ponto de vista emocional somos idênticos e mesmo ao nível físico somos basicamente idênticos, excepto, talvez, na cor. Mas quer os ocidentais tenham o cabelo louro, azul ou branco, isso pouco importa. O importante é sermos emocionalmente idênticos. Com esta convicção, sinto que a outra pessoa é um irmão humano e aproximo-me dela espontaneamente. Na maior parte dos casos, a pessoa reage imediatamente em sintonia e tornamo-nos amigos. Às vezes falho e, nesse caso, tenho a liberdade de reagir segundo as circunstâncias.
Por conseguinte, devemos basicamente aproximar-nos dos outros com abertura, reconhecendo em cada pessoa um ser humano igual a nós. Não há assim diferenças tão grandes entre todos nós.

A compaixão cria naturalmente uma atmosfera positiva e, em consequência, sentimo-nos tranquilos e contentes. Onde quer que viva uma pessoa compassiva, reina sempre uma atmosfera agradável. Mesmo os cães e os pássaros aproximam-se facilmente de pessoas assim. Há já quase cinquenta anos, eu costumava guardar alguns pássaros no jardim do Norbulingka, o Palácio de Verão em Lhasa. Entre eles havia um pequeno papagaio. Nessa altura, eu tinha um velho servidor com ar de poucos amigos - com um olhar muito duro, de olhos esbugalhados - que passava a vida a dar de comer ao papagaio, (nozes e esse tipo de coisas). Por isso, sempre que esse servidor aparecia - às vezes bastava o simples som dos seus passos ou uma tossidela - o papagaio ficasse todo excitado. Ele tinha uns modos extremamente amigáveis com esse passaroco e era retribuído de uma maneira espantosa. Nalgumas raras ocasiões, eu também tentei dar-lhe umas nozes, mas ele nunca me demonstrou grande afeição; um dia pus-me então a espicaçá-lo com um pau, na esperança que ele reagisse melhor; o resultado foi totalmente negativo.

A questão é: como desenvolver a compaixão? Com efeito, será que podemos realmente cultivar uma compaixão imparcial por todos? A minha resposta é sim, absolutamente. Eu acredito que a natureza humana é gentil e compassiva, embora haja pessoas, tanto agora como no passado, que pensam que ela é basicamente agressiva.

Uma disposição afectiva não só torna o espírito mais calmo e tranquilo, como afecta positivamente o nosso corpo. Por outro lado, o ódio, a inveja e o medo perturbam a nossa paz de espírito, tornam-nos agitados e afectam negativamente o nosso corpo. O próprio corpo precisa de paz de espírito e não lhe apraz a agitação. Isto mostra-nos que o apreço pela paz está-nos no sangue.

Por conseguinte, embora haja quem não esteja de acordo, creio que apesar do lado agressivo da nossa natureza fazer parte da vida, a força dominante da vida é a afeição.

Razão pela qual é possível fortalecer esta bondade fundamental, que é a nossa natureza humana.

Neste contexto, não creio que o egoísmo esteja errado. Gostar de si próprio é fundamental. Se não gostarmos de nós, como havemos de amar os outros? Parece-me que há pessoas que ao falarem de compaixão têm a noção que isso implica um desprezo completo pelo seu interesse próprio - um sacrifício dos seus interesses. Ora, isso não está certo. Com efeito, o verdadeiro amor deve começar por ser direccionado para nós.
Há dois sentimentos de ‘eu’ diferentes. Um deles, que não hesita em fazer mal às pessoas, é negativo e só nos traz problemas. O outro, baseado na determinação, na força de vontade e na autoconfiança, é um sentimento de ‘eu’ absolutamente necessário. Sem ele, como poderíamos cultivar a confiança necessária para cumprirmos os objectivos que nos impomos? De modo semelhante, há igualmente dois tipos de desejo. O ódio, no entanto, é invariavelmente negativo e destruidor da harmonia.

Como diminuir o ódio? Geralmente, o ódio é precedido pela irritação. A irritação surge como uma reacção emotiva e desenvolve-se gradualmente até ao sentimento de ódio. Neste caso, a habilidade consiste em saber, antes de mais, que a irritação é algo de negativo. Muitas vezes, as pessoas pensam que a irritação faz parte de si e que é melhor exprimi-la; creio, no entanto, que isso é uma ideia pouca sensata. Talvez as pessoas que se sentem ofendidas ou ressentidas por questões do passado tenham a expectativa de resolver esses sentimentos exprimindo a sua raiva. Talvez isso não seja impossível. Contudo, em geral é preferível estarem atentos à vossa irritação, de modo a que, gradualmente, ano após ano, ela vá diminuindo. Segundo a minha experiência, isso é mais fácil se adoptarmos a posição de que a irritação é negativa e que é melhor deixarmos de a sentir. Esta postura, em si, faz uma grande diferença.

Por acréscimo, talvez uma fé religiosa, caso a tenham, seja útil para alargarem essas qualidades. Os Evangelhos, por exemplo, ensinam-nos a dar a outra face, o que nos mostra claramente a prática da tolerância. Para mim, a mensagem principal dos Evangelhos é o amor pelos seres humanos, nossos semelhantes, e a razão pela qual o desenvolvemos é o amor que temos por Deus - o que eu compreendo no sentido de ter um amor infinito. Este tipo de ensinamentos religiosos são muito poderosos para desenvolver e ampliar as nossas qualidades. A abordagem budista apresenta um método muito preciso. Primeiro, procuramos considerar todos os seres sensíveis como iguais. Depois, consideramos que a vida de todos os seres é tão preciosa como a nossa e desenvolvemos assim um sentimento de interesse pelos demais.
E no caso de uma pessoa sem fé religiosa? Seguir ou não uma religião é um assunto do foro de cada indivíduo. Pode-se muito bem passar sem religião e, nalguns casos, isso torna inclusivamente a vida mais simples! Mas o facto de não terem qualquer interesse pela religião não deve fazer com que negligenciem o valor das qualidades humanas. Enquanto seres humanos e membros da sociedade humana, temos necessidade da compaixão. Sem ela não podemos ser felizes. Uma vez que todos desejamos ser felizes e ter amigos e uma família feliz, temos de cultivar a compaixão e a afeição. É importante reconhecer que há dois níveis de espiritualidade: um com fé religiosa, outro sem. Com este último, devemos tentar simplesmente ser pessoas de bom coração.

Devemos também lembrar-nos que ao cultivarmos uma atitude compassiva a não-violência surge automaticamente. Não-violência não é um termo diplomático, é a compaixão em acção. Se tiverem o coração repleto de ódio, as vossas acções serão frequentemente violentas, enquanto se tiverem o coração cheio de compaixão elas serão não-violentas.
Como disse atrás, enquanto houver seres humanos nesta Terra haverá sempre desacordos e visões conflituosas. Podemos tomar isso por garantido. Se utilizarmos a violência para reduzir os desacordos e os conflitos, cada vez podemos esperar mais violência e creio que o resultado disso será terrível. Além do mais, na verdade é impossível eliminar os desacordos através da violência. A violência só serve para aumentar os ressentimentos e a insatisfação.

Não-violência, por sua vez, significa diálogo, significa usar a linguagem para comunicar. E diálogo significa compromisso: ouvir a opinião dos outros e respeitar os direitos dos outros num espírito de reconciliação. Ninguém sai cem por cento vencedor e ninguém sai cem por cento vencido. Esta é uma via praticável. Na verdade, é a única via. Hoje em dia, à medida que o mundo se vai tornando cada vez mais pequeno, o conceito de ‘nós’ e de ‘eles’ praticamente passou de validade. Se os nossos interesses pudessem existir independentemente dos interesses dos outros, talvez fosse possível ganhar ou perder completamente, mas uma vez que, na realidade, todos nós dependemos uns dos outros, os nossos interesses e os dos outros estão consideravelmente interligados. Por isso, como pode alguém obter uma vitória a cem por cento? É impossível. Temos de partilhar; metade para cada lado, ou talvez sessenta por cento de um lado e quarenta por cento do outro! Sem esta abordagem, a reconciliação é impossível.

A realidade do mundo de hoje implica que temos de aprender a pensar deste modo. Esta é a base da minha abordagem das coisas - a abordagem do ‘caminho do meio’. Nós, os tibetanos, não poderemos obter uma vitória a cem por cento, porque, quer queiramos ou não, o futuro do Tibete depende em grande parte da China. Por conseguinte, num espírito de reconciliação, eu advogo uma partilha de interesses, de modo a que seja possível um verdadeiro progresso. O compromisso é a única via. Através de meios não-violentos podemos partilhar visões, sentimentos e direitos e, deste modo, podemos resolver os problemas.

Por vezes digo que o Século XX foi o século do sangue derramado, um século de guerras. Ao longo do Século XX houve mais conflitos, mais derramamento de sangue e mais armas do que em qualquer outro. Portanto, com a experiência que todos nós tivemos desse século e com tudo o que aprendemos, creio que devíamos considerar o próximo como um século de diálogo. O princípio da não-violência deve ser praticado por toda a parte. Ora, isso não se consegue se ficarmos simplesmente aqui sentados a rezar. Isso implica trabalho, esforço e mais esforço.”

Dalai Lama (texto adaptado)

http://www.uniaobudista.pt/dharma.php?show=textos&txtid=1

Actividades:

  1. A partir duma reflexão sobre o filme Kundun, visualizado na aula, comente as afirmações do texto sobre a não-violência e as relações com a China. (mínimo de 120 palavras).

  2. Discuta criticamente a seguinte afirmação do texto, tendo em conta a actual situação do terrorismo internacional: “devíamos considerar o próximo (século – o séc. XXI) como um século de diálogo. O princípio da não-violência deve ser praticado por toda a parte”. (mínimo de 120 palavras).

  3. No texto, o Dalai Lama faz uma referência ao cristianismo. Elabore uma dissertação (num mínimo de 350 palavras), subordinada ao tema: “Confronto entre o Cristianismo e o Budismo”. Nessa dissertação deverá ter em especial consideração os seguintes tópicos:

a) A forma como o budismo e o cristianismo encaram a vida humana.

b) A ideia de Deus, no budismo e no cristianismo (a relação do homem com a transcendência).

c) O problema do diálogo inter-religioso: a sua possibilidade e os obstáculos que ele enfrenta.




Fonte: http://www.espanto.info/f10ner/f24.htm

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