quinta-feira, 3 de setembro de 2009

George Orwel fiel a seus princípios

Nascido há mais de um século, o revolucionário e radical George Orwell continua atual. "1984", o livro mais conhecido do autor que criou expressões como "guerra fria" e "Big Brother", chega agora aos 60 anos.



por Sergio Amaral Silva (*)

"Se a liberdade significa alguma coisa, será, sobretudo, o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir."
 
"1984", George Orwell
George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair, nascido em Bengala, na Índia sob dominação inglesa, em 25 de junho de 1903. Sua mãe tinha ascendência francesa, e seu pai era um funcionário civil da marinha britânica. O garoto foi educado na aristocrática Academia de Eton e, desde cedo, mostrava sua decepção com a sociedade de que fazia parte, revelando uma precoce rebeldia intelectual.
Aos 19 anos, entrou na polícia imperial britânica, passando os cinco anos seguintes entre a Índia e a Birmânia (atual Mianmar). Nesse período, revoltou-se contra a política colonial opressora da Inglaterra, desertando em 1927. Da experiência resultariam alguns de seus primeiros ensaios e seu romance de estreia, "Dias na Birmânia", publicado em 1934.
No final dos anos 1920, de volta à Europa, Blair renegou sua origem, sua fortuna e o próprio nome, por considerá-los vergonhosos. Adotou o pseudônimo de George Orwell e passou a viver como operário de fábrica em Paris e depois como professor primário em Londres. Em 1933 sairia seu relato sobre essa vivência de miséria e falta de liberdade, "Na Pior em Paris e Londres". Foram tempos difíceis para o escritor, que em 1935 publicou A "Filha do Reverendo" e, em 1936, "Keep the Aspidistra Flying".
CRÍTICA
 
Se Orwell se deixasse abater pelos obstáculos iniciais, teria encerrado prematuramente a carreira. Um exemplo? Um de seus primeiros trabalhos recebeu da crítica o amável comentário de que ele escrevia "como uma vaca com uma espingarda"...
Alguns anos mais tarde, Orwell já começava a ser reconhecido como um autor de talento, ao mesmo tempo em que adotava atitudes cada vez mais radicais. Assim, engajar-se na Guerra Civil Espanhola , que começou em 1936, foi para ele um ato natural. Conforme suas próprias palavras, "reconheci imediatamente que era um estado de coisas pelo qual valia a pena lutar".
Em 1937, publicaria "O Caminho Para Wigan", narrando a extrema pobreza dos trabalhadores das minas do norte da Inglaterra. No livro, afirmou que desejava "escapar de toda forma de dominação do homem sobre o homem".
No mesmo ano, foi para a Catalunha, onde se alistou para lutar contra o fascismo ao lado dos anarquistas do Partido Operário de Unificação Marxista, o POUM . Foi para a frente de batalha.
Em Barcelona, ele e seus companheiros começaram a ser perseguidos pelos comunistas, que deviam ser seus aliados. Isso acabou revelando o caráter duplo da posição dos russos.


"Benjamim sentiu um focinho esfregar-lhe o ombro. Era Quitéria. Seus olhos pareciam mais encobertos que nunca. Sem dizer palavra, ela o puxou delicadamente pela crina, levando-o até o fundo do grande celeiro,onde estavam escritos os Sete Mandamentos. Durante um ou dois minutos ficaram olhando a parede alcatroada com o grande letreiro branco. Minha vista está falhando - disse ela, finalmente.
- Mesmo quando eu era moça não conseguia ler o que estava escrito aí. Mas parece-me agora que parede está meio diferente.Os Sete Mandamentos são os mesmos de sempre, Benjamim? Pela primeira vez, Benjamim consentiu em quebrar sua norma e leu para ela o que estava escrito na parede. Nada havia, agora, senão um único Mandamento, dizendo:

TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS MAS ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS IGUAIS DO QUE OS OUTROS " ("A Revolução dos Bichos", George Orwell)
 
O quadro Guernica, óleo sobre tela de autoria de Pablo Picasso, foi inspirado pelo bombardeio da cidade de Guernica, capital da província Basca, no dia 26 de abril de 1937. Aviões alemães da Legião Condor atacaram a cidade por ordem do General Franco. Dos 7.000 habitantes, 1.654 foram mortos e 889 ficaram feridos. A destruição de Guernica foi a primeira demonstração da técnica de bombardeamentos de saturação, mais tarde empregada na Segunda Guerra Mundial. O mural pintado por Picasso retrata a desgraça que abateu a cidade: durante as 2 horas e 45 minutos, os moradores de Guernica sofreram com os bombardeios. Muitos, desesperados, correram para os arredores do lugarejo e foram atingidos por rajadas de metralhadora disparada pelos caças alemães.
Deu baixa após um ferimento a bala no pescoço e voltou à Inglaterra, tendo escrito em 1938, "Homenagem à Catalunha", que saiu no Brasil com título de "Lutando na Espanha". A partir desse livro, um amargo e desencantado testemunho ocular da guerra, consolidase seu objetivo literário. Como o autor afirmaria no ensaio "Por que Escrevo", de 1946, o de "transformar a escrita política em arte". E acrescenta: "Escrevo porque existe alguma mentira para ser denunciada, algum fato para o qual quero chamar a atenção, e penso sempre que vou encontrar quem me ouça."
DESAFETOS
Ainda em 1938, contraiu tuberculose e passou uma temporada em Marrocos, onde escreveu a novela "Coming Up For Air", publicada em 1939, ano em que começou a segunda guerra mundial. Orwell pensou em lutar, mas foi declarado fisicamente inapto. Ilustração Kuco Depois de sua intensa vivência espanhola, ele se mostrou decepcionado com os partidos comunistas, com sua estrutura rígida e obediência irrestrita a Moscou. Se por um lado sua postura de socialista revolucionário se fortaleceu, ao mesmo tempo cresceu nele o anti-stalinismo, levando-o a uma espécie de socialismo independente. Em 1941, trabalhando para a BBC, escreveu o ensaio "O Leão e o Unicórnio". Na época, defendia a nacionalização "da terra, das minas, das estradas de ferro, dos bancos e das principais indústrias". Ainda durante a guerra, serviu num corpo civil para defesa local.
"A REVOLUÇÃO DOS BICHOS"
Além do fascismo e do imperialismo, outros grandes inimigos de Orwell eram a desonestidade de propósitos e as atitudes politicamente ambíguas dos que apoiavam o regime comunista de Stalin. Isso ficou ainda mais claro quando, na Segunda Guerra, a União Soviética se aliou ao Ocidente contra Hitler. Em 1943, Orwell tornou-se editor literário do jornal Tribune e começou a elaborar uma fábula que exibisse o totalitarismo e a face burguesa da Rússia. Ali, os comunistas eram representados pelos porcos de uma fazenda inglesa dirigida por animais: "A Revolução dos Bichos". Naquela circunstância, "estar disposto a criticar a Rússia e Stálin é a prova da honestidade intelectual", afirmou em agosto de 1944. Vários editores britânicos se recusaram a lançar o romance, temendo criticar o aliado inglês na guerra. Finalmente, o livro acabou saindo, em 1945. Foi um acontecimento literário, que ajudou a alertar o Ocidente sobre a verdadeira natureza do regime de Moscou.
Nesse trabalho, o autor superou em definitivo a trama muitas vezes pobre de suas primeiras novelas, tratando com desenvoltura seu argumento, num cenário que lhe era muito familiar. Afinal, era apaixonado pelo campo, onde vivera no fim dos anos 1930. Na sátira, ele criticava duramente a corrupção pelo poder, indo do particular para o geral. Essa habilidade, aliás, constitui um dos pontos fortes da obra de Orwell, principalmente nos ensaios sobre política.
"1984"
Com o fim da guerra, Orwell foi para uma ilha na Escócia. Lá, aprofundou sua condenação ao autoritarismo de todos os gêneros em seu último livro, o mais conhecido: "1984", que guarda semelhanças com "Admirável Mundo Novo" (1932), de seu companheiro de escola Aldous Huxley. George Orwell foi um dos mais influentes escritores políticos do século 20, dado o alcance histórico e geográfico de sua literatura. A propósito, a expressão guerra fria, que marcou a segunda metade do século, apareceu pela primeira vez num artigo de Orwell, de acordo com o registro do Oxford English Dictionary.
O Grande Irmão chegou aos cinemas em adaptação inglesa dirigida por Michael Radford e estrelada por John Hurt. O roteiro é bastante fiel à obra de Orwell e mantém a atmosfera sombria e tensa do livro.

1984, o filme
 
Ficha Técnica 1984
País: Inglaterra
Ano de produção: 1984
Direção: Michael Radford
Elenco: John Hurt, Richard Burton, Suzanna Hamilton, Cyril Cusack, Gregor Fisher, James Walker.
Duração: 113 min.













 
TRAIÇÃO?
O escritor morreu de tuberculose em Londres, em 21 de janeiro de 1950, com 47 anos incompletos. Antes, porém, envolveuse num polêmico episódio no qual, segundo alguns historiadores, ele teria denunciado ao governo britânico 130 suspeitos de comunismo. Outros acreditam que Orwell apenas forneceu uma lista de nomes para que essas pessoas não viessem a receber propaganda anticomunista. Segundo consta, aqueles acusados não sofreram nenhuma retaliação.
Passadas décadas desde esses acontecimentos, interessa-nos perguntar qual a utilidade de ler o autor ainda hoje, quando seus maiores adversários políticos - o imperialismo, o fascismo e o comunismo - estão praticamente derrotados. Afinal, foi exatamente nos anos 1980 que começou a cair o regime soviético que inspirou 1984...
Há muitas respostas possíveis, entre elas a de que Orwell merece ser lido, mais que por interesse histórico, pela honestidade, coragem e fidelidade aos ideais em que acreditava. "Capaz de exagerar com a simplicidade e a inocência de um selvagem", como disse Pritchett ao resenhar "O Leão e o Unicórnio", o escritor tem uma importante lição a nos transmitir sobre engajamento e paixão na literatura, ainda mais útil num tempo como o atual, em que predominam o individualismo e a apatia.
(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor, ganhador do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, categoria Literatura.
BIG BROTHER , O ORIGINAL

No livro "1984", publicado pela primeira vez em 1949, Orwel imag inou uma sociedade futura em que uma simples ideia podia ser considerada crime.
Nesse ambiente opressivo, todas as pessoas eram permanentemente vigiadas por teletelas, sentindo-se invadidas e sem direito a qualquer privacidade. No comando de tudo, estava o chefe supremo do Partido Único, o Grande Irmão (no original, Big Brother). Onipresente, ele é visto nas telas e cartazes espalhados por toda a parte. Apesar disso, jamais aparece em público, podendo mesmo não ser uma pessoa real. A reafirmação do slogan "O Grande Irmão zela por ti", de seus feitos e liderança conduzem o povo a acreditar em sua presença.
Querendo situar aquele regime num futuro mais ou menos longínquo, Orwell inverteu os dois algarismos finais do ano em que escrevia. Debaixo da atmosfera opressiva, o personagem principal, Winston Smith, é um funcionário do Ministério da Verdade, encarregado de criticar a imprensa, modificando, até mesmo, o registro de fatos já ocorridos, para que o Partido permaneça no poder.
Alguns estudiosos da obra de Orwell associam o Grande Irmão ao ditador soviético Joseph Stalin, com alguns toques da propaganda nazi-fascista. Mas ele pode também ser vinculado a algumas religiões, porque está em todos os lugares e vigia todos os passos. Controlando as emoções, o Partido exerce uma espécie de liderança invisível, comparável à de certas igrejas. "Só obedeço ordens" e "Isto é um dogma" são frases que justificam um poder inquestionável.
A figura do Grande Irmão domina, assim, toda a sociedade e manipula até a forma de pensar dos indivíduos. Com o sucesso do livro, a expressão inglesa se tornou internacionalmente conhecida. Em 1999, John de Mol, executivo da TV holandesa e sócio da companhia Endemol, criou um "reality show" cujos participantes são selecionados entre pessoas comuns que não se conhecem previamente e passam a conviver numa casa, onde permanecem confinados por várias semanas, observados por câmeras 24 horas.
O nome escolhido para o programa foi ... Big Brother, adotado assim mesmo, no original, em vários países de língua não inglesa que o apresentam em produções locais, como o Brasil e Portugal. No entanto, nas versões do livro publicadas no Brasil, o personagem assustador aparece com o nome traduzido de Grande Irmão. Mesmo considerado por muitos críticos como inferior a "A Revolução dos Bichos" do ponto de vista literário, "1984" representa hoje bem mais que um panfleto. Todavia, há os que ainda lhe negam a condição de romance, como o escritor Milan Kundera, que declarou tratar-se de um "pensamento político encapotado".


"A Revolução dos Bichos", versão rock'n'roll

"A Revolução dos Bichos", versão rock'n'roll
A influência da obra de George Orwell se estendeu até o rock progressivo. No seu décimo álbum, "Animals", a banda Pink Floyd se inspirou no livro "A Revolução dos Bichos" para compor letras que falam sobre as contradições e as injustiças da sociedade capitalista. O álbum marcou época, a começar pela capa, composta por uma sobreposição de duas imagens. A primeira é da usina elétrica Battersea Power Station, instalada às margens do rio Tâmisa. A segunda imagem tem uma história curiosa. A banda encomendou que a fábrica alemã Ballon Fabrik, a mesma responsável pelos famosos Zepelins, construísse um "balão" gigantesco em formato de porco, que foi inflado com gás hélio. O porco, no entanto, acabou se soltando do cabo e passou a flutuar pelo céu de Londres, até ir pousar na cidade de Kent. As imagens captadas no episódio foram usadas na divulgação do álbum e nos shows da banda, e a capa do álbum mostra o "dirigível" de porco flutuando sobre a usina elétrica inglesa.


Leia mais em : Revista Literatura




E a pátria?, por João Veríssimo*



Ser patriota hoje no Brasil não é uma tarefa, digamos, das mais simples. A vontade geral é, talvez em nome do próprio patriotismo, desbancar grande parte de gente que se diz “defensora” do interesse do povo e que age não mais nos subterfúgios, mas, agora, descaradamente, despudoradamente e, pior, impunemente, em favor do bolso próprio, dos amigos e da “família”. Mais que descaramento, não há limites para desvios do dinheiro público, fala-se em cifras escandalosamente bilionárias.

A pergunta obrigatória é: onde está o patriotismo, para onde foi o senso de defesa dos interesses da sociedade? Será que abrimos mão de defender o país?

As festas da pátria e do gaúcho, em setembro, também já não parecem ter o mesmo glamour e a força de outros tempos. Tornaram-se solenidades burocráticas num mero ritual determinado pelo calendário. Onde está o brio de gaúchos e brasileiros cantados e exaltados aos quatro ventos? Seria o efeito da gripe? Aliás, justamente por causa dela, inúmeras escolas no Estado decidiram cancelar os desfiles do dia 7 de setembro. Não há notícia de atividades que compensem de maneira pedagógica esse ato que é uma demonstração explícita de reverência à pátria. A sensação é de pouco-caso e nada dá pra fazer diante de uma interminável lista de maus exemplos. E, quando os maus exemplos começam de cima, o estrago é ainda maior.

Não que o cancelamento dos desfiles torne nossos alunos mais ou menos patriotas, mas não seria esse um momento adequado em casa e na escola para uma reflexão e um aprendizado sobre o conceito pátria?

Vivemos uma agonizante crise de valores em quase todos os níveis. Temos uma crise ética, familiar, política, econômica, religiosa, no futebol (inocentaram o juiz que arranjava resultados), além das permanentes, como a segurança, a saúde e muito especialmente a educação. A semana da pátria e a semana do gaúcho, mais uma vez, são oportunidades que se apresentam para que a letargia social seja desfiada. É hora de dizer a nossos filhos, aos alunos nas escolas de todos os níveis, nas igrejas, as praças e em todos os lugares que a honestidade é, sim, um valor fundamental para uma sociedade justa, que a verdade vale infinitamente mais que a mentira, que a transparência das ações reflete a retidão de caráter. O bem é muitíssimo mais compensador que o mal.

Retomar os valores que forjaram a pátria brasileira tanto por seus heróis quanto pelos anônimos, bem como a própria história dos gaúchos repleta de ideais, é uma tarefa imediata. Não podemos abrir mão deles. Essas datas são inspiradoras, quem sabe, para ações que se tornem duradouras, cujo resultado será uma efetiva assepsia nas próximas eleições.


*Jornalista

Fonte: Jornal Zero Hora - N°16083 - 03 de setembro de 2009.

Imagem: vilafrancadabeiranomundo.blogspot.com/2007_08..
www.jesserodrigues.com.br/foi-o-20-de-setembro


terça-feira, 1 de setembro de 2009

Por dentro do cofre do MST

VEJA teve acesso às movimentações bancárias de quatro entidades ligadas aos sem-terra. Elas revelam como o governo e organizações internacionais acabam financiando atividades criminosas do movimento


Policarpo Junior e Sofia Krause

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Assertivos do ponto de vista ideológico, os líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra são evasivos quan-do perguntados de onde vêm os recursos que sustentam as invasões de fazendas e manifestações que o MST promove em todo o Brasil. Em geral, respondem que o dinheiro é proveniente de doações de simpatizantes, da colaboração voluntária dos camponeses e da ajuda de organismos humanitários. Mentira. O cofre da organização começa a ser aberto e, dentro dele, já foram encontradas as primeiras provas concretas daquilo de que sempre se desconfiou e que sempre foi negado: o MST é movido por dinheiro, muito dinheiro, captado basicamente nos cofres públicos e junto a entidades internacionais. Em outras palavras, ao ocupar um ministério, invadir uma fazenda, patrocinar um confronto com a polícia, o MST o faz com dinheiro de impostos pagos pelos brasileiros e com o auxílio de estrangeiros que não deveriam imiscuir-se em assuntos do país.

VEJA teve acesso às informações bancárias de quatro organizações não governamentais (ONGs) apontadas como as principais caixas-fortes do MST. A análise dos dados financeiros da Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca), da Confederação das Coo-perativas de Reforma Agrária do Brasil (Concrab), do Centro de Formação e Pesquisas Contestado (Cepatec) e do Instituto Técnico de Estudos Agrários e Cooperativismo (Itac) revela que o MST montou, controla e tem a seu dispor uma gigantesca e intrincada rede de abastecimento e distribuição de recursos, públicos e privados, que transitam por dezenas de ONGs espalhadas pelo Brasil:

• As quatro entidades-cofre receberam 20 milhões de reais em doações do exterior entre 2003 e 2007. A contabilização desses recursos não foi devidamente informada à Receita Federal.

• As quatro entidades-cofre repassaram uma parte considerável do dinheiro a empresas de transporte, gráficas e editoras vinculadas a partidos políticos e ao MST. Há coincidências entre as datas de transferência do dinheiro ao Brasil e as campanhas eleitorais de 2004 e 2006.

• As quatro entidades-cofre receberam 43 milhões de reais em convênios com o governo federal de 2003 a 2007. Existe uma grande concentração de gastos às vésperas de manifestações estridentes do MST.

• As quatro entidades-cofre promovem uma recorrente interação financeira com associações e cooperativas de trabalhadores cujos dirigentes são ligados ao MST.

• As quatro entidades-cofre registram movimentações ban-cárias estranhas, com vul-tosos saques na boca do caixa, indício de tentativa de ocultar desvios de dinheiro.

Entre 2003 e 2008, segundo levantamentos oficiais, cerca de trinta entidades de trabalhadores rurais receberam do governo federal o equivalente a 145 milhões de reais. O dinheiro é repassado em forma de convênios, normalmente para cursos de treinamento. O Tribunal de Contas da União já identificou irregularidades em vários desses cursos. São desvios como cadastros de pessoas que não participaram de aula alguma e despesas que não existiram justificadas com notas frias. A Anca, por exemplo, teve os bens bloqueados pela Justiça após a constatação de que uma parte dos recursos de um convênio milionário assinado com o Ministério da Educação, para alfabetizar jovens, foi parar nos cofres do MST. Teoricamente, a Anca, a Concrab, o Cepatec e o Itac são organizações independentes, sem nenhum vínculo oficial entre si ou com o MST. Mas só teoricamente. A quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico das entidades-cofre mostra que elas fazem parte de um mesmo corpo, são uma coisa só, bem organizada e estruturada para dificultar o rastreamento do dinheiro que recebem e administram sem controle legal algum.

Ricardo Stuckert/PR
TORNEIRA ABERTA
Milhões de reais do governo Lula serenaram durante seis anos a fúria do MST


Eis um exemplo da teia que precisa ser vencida para tentar entender como os recursos deixam o cofre da entidade e viajam por caminhos indiretos ao MST. Uma das beneficiárias de repasses da Anca é a gráfica Expressão Popular. Seus sócios são todos ligados ao MST, como Suzana Angélica Paim Figueiredo, advogada do escritório do ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, que atua em causas de interesse do MST. Suzana faz parte da banca que defende o terrorista italiano Cesare Battisti, preso no Brasil. A advogada ainda é presidente de uma segunda editora, a Brasil de Fato, que também recebe recursos da Anca, também presta serviços ao MST e tem como conselheiro ninguém menos que João Pedro Stedile, líder-mor do MST, um dos principais defensores da não extradição de Battisti. Anca, Brasil de Fato e MST, embora sem vínculos aparentes, funcionavam no mesmo conjunto de salas em São Paulo. Procurada, a advogada Suzana não quis esclarecer que tipo de serviço as gráficas prestaram à Anca. Indagadas, o máximo que as três entidades admitem é que existe uma parceria entre elas. Essa parceria, ao que tudo indica, serve inclusive para ocultar as atividades do departamento financeiro do movimento sem-terra.

Além de funcionarem nos mesmos endereços, como é o caso da Itac e da Concrab, e de dividirem os mesmos assessores e telefones, como a Anca e a gráfica, as entidades curiosamente recorrem aos mesmos contadores e advogados – eles também, ressalte-se, integrantes de cooperativas ligadas ao MST. A análise dos dados sigilosos revela que Ilton Vieira Flores, o contador da Anca, o cofre principal do MST, é um dos responsáveis pelo Cepatec, outra fonte de arrecadação de dinheiro do movimento. O contador também é diretor da Cooperbio – um excelente exemplo, aliás, de como as ONGs ligadas ao MST se entranharam no governo. A cooperativa, que tem como função intermediar recursos para associações de trabalhadores rurais que se dedicam à fabricação de matéria-prima para a produção de biocombustíveis, assinou convênios milionários com a Petrobras. O presidente da Cooperbio, Romário Rossetto, é primo do presidente da Petrobras Biocombustível, o petista Miguel Rossetto, ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, uma das principais fontes de recursos da Anca, do Cepatec, da Concrab e do Itac.

Fotos Valter Campanato/ABR e Antônio Cruz/ABR
TORNEIRA FECHADA
O ministro Guilherme Cassel, do Desenvolvimento Agrário (no alto, à esq.), cortou verbas para convênios. Resultado: o MST, comandado por Marina dos Santos, ameaça retaliar


Há muito que desvendar a respeito do verdadeiro uso pelo MST do dinheiro público e das verbas provenientes do exterior. A Anca, por exemplo, é investigada desde 2005 por suas ligações com o movimento. A quebra do sigilo mostra que funcionários da entidade realizaram saques milionários em dinheiro em datas que coincidem com manifestações promovidas pelo MST e também com períodos eleitorais. Outra coincidência: tabulando os gastos das entidades, resta evidente que parte expressiva dos recursos é destinada a pessoas físicas ou jurídicas vinculadas ao MST. Há também transferências bancárias suspeitíssimas. Em agosto de 2007, 153 000 reais do Cepatec foram parar na conta de Márcia Carvalho Sales, uma vendedora de cosméticos residente na periferia de Brasília. "Não sei do que se trata, não sei o que é Cepatec e não movimento a conta no banco há mais de três anos", diz a comerciária. O Cepatec também não quis se pronunciar.

Para fugir a responsabilidades legais, o MST, embora seja onipresente, não existe juridicamente. Não tem cadastro na Receita Federal, e, portanto, não pode receber verbas oficiais. "Por isso, eles usam essas entidades como fachada", diz o senador Alvaro Dias, do PSDB do Paraná, que presidiu a CPI da Terra há quatro anos e, apesar de quebrar o sigilo das ONGs suspeitas, nunca conseguiu ter acesso aos dados bancários. Aliados históricos do PT, os sem-terra encontraram no governo Lula uma fonte inesgotável de recursos para subsidiar suas atividades. Uma parcela grande dos convênios com as entidades ligadas ao MST destina-se, no papel, à qualificação de mão de obra. Mas é quase impossível averiguar se esse é mesmo o fim da dinheirama. "Hoje o MST só sobrevive para parasitar o estado e conseguir meios para se sustentar", diz o historiador Marco Antonio Villa.

O MST sempre utilizou o enfrentamento como peça de marketing do movimento. No governo passado, os sem-terra chegaram a organizar uma marcha que reuniu 100 000 pessoas em um protesto em Brasília, além de invadirem a fazenda do presidente da República com direito a transmissão televisiva. No governo Lula, a relação começou tensa, mas foi se acalmando à medida que aumentavam os repasses de dinheiro e pessoas ligadas ao movimento eram nomeadas para chefiar os escritórios regionais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O MST passou, então, a concentrar os ataques à iniciativa privada, especialmente ao agronegócio. Os escritórios do Incra se tornaram suporte para ações contra produtores rurais, muitos deles personagens influentes na base aliada do governo. Além disso, os assentamentos contribuíram para aumentar a taxa de desmatamento e as ONGs ligadas à reforma agrária se tornaram um ralo pelo qual o dinheiro público é desviado. Esse estado de coisas levou à instalação de uma CPI no Senado e, ato contínuo, a um recuo do Planalto nos afagos aos sem-terra. A pretexto da crise econômica mundial, o governo cortou mais de 40% da verba prevista para os programas de reforma agrária. Cedendo à pressão de ruralistas, tirou das mãos do MST o comando de escritórios estratégicos do Incra, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Pernambuco, e colocou no lugar pessoas indicadas por ruralistas. Por fim, o golpe mais dolorido: fechou a milionária torneira dos convênios.

As ONGs ligadas ao MST chegaram a receber quase 40 milhões de reais em um único ano. No início do governo Lula, em 2003, esses repasses não alcançavam 15 milhões de reais. No ano seguinte, cresceram substancialmente, ultrapassando os 23 milhões de reais. Em 2005, o valor aumentou novamente, atingindo 38 milhões de reais. No segundo mandato, as denúncias de irregularidades envolvendo entidades ligadas aos sem-terra ganharam força. E o dinheiro federal para elas foi minguando. Em 2007, ano de abertura da CPI, os repasses às ONGs ficaram em 28 milhões de reais. No ano passado, as entidades receberam 13 milhões. E, nos oito primeiros meses deste ano, os cofres das ONGs do MST acolheram menos de 7 milhões de reais em convênios com o governo federal. Como reação, a trégua com o governo também minguou. No início de agosto, 3 000 militantes invadiram a sede do Ministério da Fazenda. A ação em Brasília foi comandada pela nova coordenadora nacional do MST, Marina dos Santos, vinculada a setores mais radicais do movimento. No protesto, o MST exigiu o assentamento imediato de famílias que estão acampadas. Nos bastidores, negocia a retomada dos repasses para as ONGs e a recuperação do comando das unidades do Incra. Em conversas reservadas, existem até ameaças de criar problemas para a candidatura presidencial da ministra Dilma Rousseff. O governo Lula agora experimenta o gosto da chantagem de uma organização bandida que cresceu sob seus auspícios.

Com reportagem de Otávio Cabral

Fonte: Revista Veja

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